“Consciência ambiental não é tudo; é necessário atitude”

Entrevista com Marcílio Hubner de Miranda Neto, escritor e professor universitário

"A humanidade precisa se educar e perceber que os danos à natureza estão cada vez mais severos e nós estamos sentindo as conseqüências, basta ver as inundações, secas, todo esse desequilíbrio que vivemos atualmente.”

"A humanidade precisa se educar e perceber que os danos à natureza estão cada vez mais severos e nós estamos sentindo as conseqüências, basta ver as inundações, secas, todo esse desequilíbrio que vivemos atualmente.”

A educação ambiental é tema de muitas discussões nas escolas. Mas, apesar do debate e da conscientização sobre a preservação da natureza ter aumentado nas últimas décadas, ainda falta a mudança de atitude. “Muitos sabem que é importante e fácil separar o lixo em casa, mas poucos fazem isso”, exemplica o professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Marcílio Hubner de Miranda Neto. Para transformar teoria em prática, o doutor em Ciências Biológicas defende que os professores têm um papel fundamental.

Miranda Neto procura contribuir com esse processo com o livro infantil Brejo Alegre – um rio em perigo, que conta as aventuras de um sapo e um menino na luta para conscientizar os moradores do bairro a salvar o rio. Lançado ontem, esse é o segundo livro da série. Foi escrito em parceria com Rodolfo Molinari Hubner e traz ilustrações de Tânia Regina Machado. O primeiro, Natal em Brejo Alegre, foi lançado em 2005 e teve cerca de 5 mil cópias publicadas. Confira abaixo a entrevista em que Miranda Neto fala do novo livro e do papel das crianças na preservação ambiental:

Qual é a importância de se incentivar a consciência ambiental nas crianças?

Estamos vivendo uma questão complicada em relação ao meio ambiente. Precisamos de uma nova postura, um maior envolvimento de cada um. Cada sujeito tem que ser fiscal e cuidador do meio ambiente. Para isso, as pessoas têm que ser formadas desde pequenas, pois é difícil incorporar novos valores e atitudes quando já se é adultos.

O senhor acredita que a responsabilidade com o meio ambiente vem aumentando de geração em geração? Por quê?

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Acredito que tem melhorado sim, e é possível observar isso em pequenas atitudes. Hoje é grande o número de consumidores que não compram produtos cuja procedência agrida o meio ambiente. Vemos também a preocupação com as matas ciliares e o desmatamento. Mas, embora tenha aumentado a conscientização, cresceu também a agressão ambiental. Isso porque a maioria das pessoas sabe que deve preservar o meio ambiente, mas não tem atitude. Separar o lixo é fácil para todos, mas são poucos os que fazem isso. Muitos ainda compram garrafas pets descartáveis, ao invés do vidro, que é 100% reciclável. Verificamos que atualmente existe uma grande diferença entre discurso e a prática. A consciência não é tudo. Ela tem que estar unida com a mudança de postura.

Qual a melhor forma de trabalhar a educação ambiental na escola?

Não existe uma melhor forma. Cada professor adota uma estratégia de acordo com o bairro em que a escola está inserida e as características dos alunos. É possível trabalhar com música, textos de jornal, literatura, entre outros. Eu acredito que seja muito importante levar as crianças para verificar situações reais, como comparar um rio limpo e um poluído, explicar as implicações dessa situação para o meio ambiente, observar as ruas do bairro, enfim, aproximar a temática do cotidiano dos estudantes. A interdisciplinaridade também é essencial. A educação ambiental tem que ser trabalhada por todos os professores – na Matemática, na Geografia, em História, etc. A humanidade precisa se educar e perceber que os danos à natureza estão cada vez mais severos e nós estamos sentindo as conseqüências, basta ver as inundações, secas, todo esse desequilíbrio que vivemos atualmente.

Qual é o papel da família para a consolidação dessas ideias?

A família é essencial para causar a mudança de atitude. Os pais são exemplos, e a criança aprende muito pelo que ela vê em casa. Não é só dar bronca porque ela deixou a luz acesa e a conta de luz virá mais alta, é preciso explicar todo o ciclo. Dizer que deixar a luz acesa pode contribuir para um racionamento de energia e estimular a construção de mais usinas elétricas, que geram sempre agressão ao meio ambiente. Atitudes simples, como ensinar a separar o lixo, a fechar a torneira enquanto se escovas os dentes, ajudam a formar um cidadão mais consciente.

O senhor está lançando o seu terceiro livro infantil (o primeiro foi A razão e o Sonho). Qual a temática principal do Brejo Alegre – um rio em perigo?

É uma ficção cujo foco é os cuidados com os rios. O Brejo Alegre está tranquilo no começo da história, todos vivem em harmonia: crianças, animais e plantas. Depois surgem os desequilíbrios, pois as pessoas começam a usar o solo de forma errada, a jogar lixo nos córregos. Depois vem a busca do equilíbrio novamente. Minha intenção é mostrar que cada pessoa pode dar uma contribuição para a recuperação dessa harmonia.

O seu primeiro livro, Um Natal em Brejo Alegre, foi lançado em 2005 e teve boa aceitação do público. Brejo Alegre – um rio em perigo é o segundo livro da série. Qual a maior diferença entre eles?

Neste segundo livro da série, os personagens principais de Um Natal em Brejo Alegre, o sapo Juca e o menino Cristovam, reaparecem. A diferença maior é que no primeiro livro a temática é mais voltada para o social e no segundo para o meio ambiente. Em Natal em Brejo Alegre eu conto a história de uma família simples que vive num sítio e que perde seus presentes de Natal. Por isso, eles começam a produzir os enfeites, a ceia e até os presentes com o que é encontrado no sítio. Minha intenção era dizer que muitas vezes acabamos comprando coisas inúteis, em razão da nossa cultura materialista, que só agride o meio ambiente. Na nossa sociedade, o Natal é antiecológico, pois é grande o desperdício de bens. O verdadeiro sentido da data, que é a reunião da família para uma questão espiritual, fica esquecida.

Fonte: Gazeta do Povo

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