12 de março de 2013 | nenhum comentário »

Pesquisadores criam banco de dados sobre corujas do mundo todo

David Johnson, diretor do Projeto Global das Corujas, está trabalhando com pesquisadores de 65 países para compilar um vasto banco de dados sobre as corujas. O banco contém informações sobre as descrições, a história natural, a genética, as vocalizações, as estimativas populacionais, os mitos e as lendas desses animais.

Os ocidentais adoram as corujas, segundo Johnson, numa tradição que remonta pelo menos à Grécia antiga e à associação das corujas com a deusa da sabedoria, Atenas. Em alguns países, porém, as corujas são vistas como aves de mau agouro, um prenúncio da morte –talvez, propôs Johnson, por causa do hábito de fazer ninhos em cemitérios, onde as árvores crescem desimpedidas, com cavidades confortavelmente grandes.

Jovem coruja-das-torres alimenta irmãos famintos; cientistas estão tentando decifrar os chamados, garganteios e pios da coruja-das-torres

Jovem coruja-das-torres alimenta irmãos famintos; cientistas estão tentando decifrar os chamados, garganteios e pios da coruja-das-torres. Imagem: Amir Ezer

No imaginário ocidental, a coruja, capaz de girar sua cabeça em 270°, certamente compete com o pinguim pelo título de ave preferida. “Todo mundo adora as corujas”, disse o paleobiólogo David Bohaska, do Museu Natural de Ciências Naturais do Smithsonian, em Washington.

Mas, a despeito da aparente familiaridade, só recentemente os cientistas começaram a compreender detalhes dessas aves.

Descobriram, por exemplo, que corujas-das-torres jovens podem ser generosas, doando regularmente porções da sua comida para irmãos menores e mais famintos –uma demonstração de altruísmo que se supõe rara entre animais.

Os cientistas também descobriram que as corujas-das-torres expressam necessidades e desejos por meio de sons complexos e regrados –garganteios, gritos e pios–, numa língua que os pesquisadores agora buscam decifrar.

“Elas conversam a noite toda e fazem um barulhão”, disse Alexandre Roulin, da Universidade de Lausanne, na Suíça, que recentemente descreveu o altruísmo da coruja-das-torres na revista “Animal Behaviour”, com sua colega Charlene Ruppli e com Arnaud da Silva, da Universidade de Borgonha, na França.

Outros pesquisadores estão monitorando as vidas de corujas mais raras e de proporções mais descomunais, como o ameaçado bufo-de-Blakiston (Bubo blakistoni), da Eurásia. Com quase um metro de altura, até cinco quilos e dois metros de envergadura, essa é a maior coruja do mundo, segundo Jonathan Slaght, do programa para a Rússia da ONG Wildlife Conservation Society. Ela poderia facilmente passar por um urso ou uma árvore. Esse poderoso predador é capaz de puxar de um rio um salmão adulto com duas ou três vezes o seu próprio peso.

A ferocidade é essencial para uma ave que está presente até no Círculo Ártico e que é capaz de procriar e se alimentar no auge do inverno. Sergei Surmach, colega de Slaght, gravou em vídeo uma fêmea sentada sobre seu ninho durante uma nevasca. “Ao final, só dava para ver a cauda dela para fora do ninho”, disse Slaght.

Engenheiros estudam corujas para aperfeiçoar modelos de asas de aviões. Muitas espécies de corujas são conhecidas por voarem silenciosamente, sem o ruflar das asas que poderia alertar a presa sobre a sua aproximação.

A maior parte da asa das corujas é ampla e curva, com uma plumagem aveludada que ajuda a absorver o som. Além do mais, as penas na borda da asa são serrilhadas, o que interrompe e atenua a turbulência do ar.

Numa reunião da Sociedade Americana de Física, em 2012, pesquisadores da Universidade de Cambridge propuseram que perfurações bem posicionadas nas asas de um avião poderiam ter um efeito semelhante para aplacar turbulências, levando a voos mais silenciosos e com menos gasto de combustível.

As corujas datam de 60 milhões de anos atrás, ou mais, e são encontradas em praticamente todo tipo de habitat. Há 229 espécies conhecidas, e a lista não para de crescer: em meados do ano passado, duas novas espécies de coruja-gavião foram descobertas nas Filipinas, e, em fevereiro, pesquisadores descreveram uma nova espécie na ilha de Lombok, na Indonésia.

Algumas espécies de corujas possuem alguns dos melhores sistemas auditivos conhecidos. Tim Birkhead, professor da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, observa que a cóclea da coruja é “enorme” e densamente equipada com cílios sensoriais.

Há a “cara amassada” das corujas, também chamada de disco facial –que pode ter a forma de torta em algumas espécies ou de uma máscara de coração no caso da coruja-das-torres. O disco facial funciona como uma espécie de antena parabólica, que capta ondas sonoras e as direciona, graças a penas especiais.

As aves são as donas da noite e caçam incansavelmente.

Estima-se que um bando com dez famílias de corujas vivendo em um celeiro da Flórida elimine cerca de 25 mil roedores por ano dos canaviais adjacentes.

Jonathan Slaght, da ONG ambiental WCS, com um bufo-de-Blakiston, a maior coruja do mundo

Jonathan Slaght, da ONG ambiental WCS, com um bufo-de-Blakiston, a maior coruja do mundo. Imagem: S. Avdeyuk/Amur-Ussuri Centre for Avian Biodiversity

Fonte: Folha.com


8 de dezembro de 2011 | nenhum comentário »

Casamento ‘arranjado’ de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA

Morte de bebê gorila ilustra dificuldades enfrentadas por biólogos na luta para preservar espécies ameaçadas.

Biólogos que trabalham em zoológicos usam análise genética, dados demográficos e um conhecimento íntimo dos animais para planejar sua reprodução.

A ideia é evitar procriações consanguíneas e assegurar o nascimento de bebês saudáveis. Às vezes, no entanto, toda a ciência e o cuidado atento dos funcionários do zoológico não são suficientes para evitar uma tragédia.

O gorila Kwan, de 22 anos, e a fêmea Bana, de 16, foram apresentados um ao outro no Lincoln Park Zoo, em Chicago, e pareciam formar um bom par.

Kwan já tinha um filho pequeno. Bana, apesar de mais nova, parecia pronta para a maternidade.

Análises feitas por computador mostraram que o casal, cuja espécie é original das planícies ocidentais africanas, não possuía ancestrais recentes em comum – ou seja, do ponto de vista genético, os dois formavam um bom par.

Bana foi trazida do zoológico onde vivia, em Brookfield, no mesmo Estado de Illinois, a cerca de 30 km de distância. Meses depois, no dia 16 de novembro, ela teve um bebê fêmea. No entanto, pouco mais de uma semana depois, o bebê apareceu morto.

Casos de infanticídio não são raros entre gorilas. Em maio último, no London Zoo (o zoológico de Londres), um gorila de sete meses cujo pai havia morrido foi morto por um macho adulto introduzido no grupo pela equipe do zoológico.

Os especialistas do Lincoln Park Zoo não sabem ao certo o que aconteceu no caso da bebê gorila. Mas a diretora de comunicações do zoológico, Sharon Dewar, disse que a equipe não acredita que tenha havido infanticídio e, sim, um trágico acidente.

Controle sexual
A união de Kwan e Bana resultou de um sofisticado plano de reprodução criado por uma equipe de biólogos para assegurar a futura saúde genética da população de gorilas dos Estados Unidos.

Os gorilas das planícies ocidentais estão entre cerca de 300 espécies de animais em zoológicos nos Estados Unidos cujas vidas sexuais são cuidadosamente controladas pelo Population Management Center – centro de administração de populações – do Lincoln Park Zoo.

No centro, especialistas em diversas espécies assumem o papel de cupidos, formando casais de tamanduás, ocapis, papagaios e muitos outros animais. O centro tem mais de 80 mil criaturas sob seu controle.

A diretora do centro, Sarah Long, disse que o processo é parecido com sites que intermedeiam namoros, para pessoas que procuram parceiros pela internet.

‘Usamos computadores e bancos de dados para juntar um macho com uma fêmea – e às vezes produzir filhos’, disse Long.

Ela explicou que o objetivo dos zoológicos hoje em dia não é trazer animais selvagens para o cativeiro. ‘Hoje, os zoológicos estão mais focados em preservar o que já têm’.O programa de computador compara as linhagens dos machos e das fêmeas, muitas vezes traçando sua árvore genealógica até o tempo em que viviam livres, para determinar se formam um bom par do ponto de vista genético.

O que eles querem são dois animais cujos genes são raros naquela população – ou seja, que tenham poucos parentes vivendo nos zoológicos americanos.

Outros fatores considerados são idade, distância entre os zoológicos onde os animais vivem e se o zoológico tem recursos para cuidar de mais um animal.

‘Analisamos a idade daquela girafa. Ela é valiosa ou não?’, exemplificou Long.

‘Queremos que ela se reproduza? Ela está em idade de reproduzir? Existe um macho por aí, tão valioso quanto ela, com quem ela poderia se acasalar? Ele tem a idade correta?’

Bana e Kwan
No ano passado, havia 342 gorilas das planícies ocidentais distribuídos por 52 zoológicos nos Estados Unidos.

Kwan estava maduro do ponto de vista sexual e social, e Bana vivia a poucos quilômetros de distância.A equipe do Lincoln Park Zoo achava que Bana se encaixaria bem na irmandade de gorilas fêmeas que já vivia com Kwan e com seu filho Amare, de seis anos.A jovem gorila foi transportada para seu novo lar em um veículo com condições climáticas controladas.

Bana e Kwan foram apresentados e começou a paquera. Bana olhava insistentemente para Kwan, muitas vezes durante uma hora inteira.

‘Demos pílulas anticoncepcionais a ela para assegurar que estaria socialmente integrada no grupo antes de ficar grávida’, disse Long.

Embora estivesse tomando a pílula, Bana entrava no cio e o casal ‘convidava um ao outro para o acasalamento’, explicou Maureen Leahy, curadora de primatas do Lincoln Park Zoo.

Bebê saudável
Nesse meio-tempo, Bana ia se adaptando à sua posição baixa na hierarquia social do grupo.

Muitas vezes, isso requeria que ela mantivesse distância de Kwan, que na sua condição de macho de lombo prateado, ocupava o topo da hierarquia social. (Nessa espécie, a pelagem nas costas do macho dominante, no pico de sua maturidade sexual, ganha a cor prateada.)

Finalmente, os especialistas do zoológico decidiram que Bana estava pronta para ser mãe e pararam de lhe dar a pílula.

O bebê nasceu saudável.

Para se certificar de que tudo corria bem, a equipe manteve mãe e filha sob observação durante 24 horas por dia nos sete primeiros dias de vida da criança.

Bana aprendia rápido a cuidar da bebê. Seu status social se elevou. Ela começou a comer junto com Kwan, que reconheceu a filha como sua e a protegia quando outros gorilas brincavam nas redondezas.

Mas na manhã do dia 25 de novembro, nove dias após o nascimento, a equipe do zoológico notou que a bebê parecia sem vida nos braços da mãe. Logo, os especialistas se deram conta de que ela havia morrido durante a noite.

Investigações revelaram que a bebê havia morrido por causa de uma fratura no crânio.

A equipe enfatizou, no entanto, que não houve violência: uma autópsia constatou que não havia outros ferimentos, arranhões, pancadas ou sinais de pelos arrancados. O bebê estava em saúde perfeita.

‘A única coisa que parece ser causa determinante da morte parece ser um traumatismo na parte de trás da cabeça’, disse Leahy. ‘Foi um acidente’.

‘Não há sinais de que o grupo (tenha se comportado de forma) inapropriada’.

Luto
Leahy disse que a morte da bebê gorila não levou a equipe do Population Management Center a questionar sua decisão de emparelhar Kwan e Bana.

‘Bana vinha demonstrando comportamento maternal totalmente apropriado e o próprio grupo social vinha demonstrando comportamento apropriado (em relação) a um novo bebê’, disse. ‘No meu entendimento, esses eram sinais de sucesso’.

No momento, os gorilas aparentam estar de luto.

‘O grupo como um todo definitivamente reconheceu a perda dessa criança’, disse Leahy.

‘Houve muitas fungadas e contato físico (de) algumas das fêmeas que em outras situações não teriam necessariamente interagido com Bana. O grupo todo realmente deu atenção a ela durante vários dias após o bebê ter partido. Em termos de comportamento, o grupo estava um pouco apático’.

Kwan e Bana vêm passando tempo juntos e Leahy disse esperar que ainda possa haver um final feliz para essa história.

‘Vamos continuar a manter nossa recomendação de que ela se reproduza’, disse. ‘Vamos continuar a deixar que a natureza siga seu curso natural.’

Casamento 'arranjado' de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA (Foto: BBC)

Casamento 'arranjado' de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA (Foto: BBC)

Fonte: BBC






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Pesquisadores criam banco de dados sobre corujas do mundo todo

David Johnson, diretor do Projeto Global das Corujas, está trabalhando com pesquisadores de 65 países para compilar um vasto banco de dados sobre as corujas. O banco contém informações sobre as descrições, a história natural, a genética, as vocalizações, as estimativas populacionais, os mitos e as lendas desses animais.

Os ocidentais adoram as corujas, segundo Johnson, numa tradição que remonta pelo menos à Grécia antiga e à associação das corujas com a deusa da sabedoria, Atenas. Em alguns países, porém, as corujas são vistas como aves de mau agouro, um prenúncio da morte –talvez, propôs Johnson, por causa do hábito de fazer ninhos em cemitérios, onde as árvores crescem desimpedidas, com cavidades confortavelmente grandes.

Jovem coruja-das-torres alimenta irmãos famintos; cientistas estão tentando decifrar os chamados, garganteios e pios da coruja-das-torres

Jovem coruja-das-torres alimenta irmãos famintos; cientistas estão tentando decifrar os chamados, garganteios e pios da coruja-das-torres. Imagem: Amir Ezer

No imaginário ocidental, a coruja, capaz de girar sua cabeça em 270°, certamente compete com o pinguim pelo título de ave preferida. “Todo mundo adora as corujas”, disse o paleobiólogo David Bohaska, do Museu Natural de Ciências Naturais do Smithsonian, em Washington.

Mas, a despeito da aparente familiaridade, só recentemente os cientistas começaram a compreender detalhes dessas aves.

Descobriram, por exemplo, que corujas-das-torres jovens podem ser generosas, doando regularmente porções da sua comida para irmãos menores e mais famintos –uma demonstração de altruísmo que se supõe rara entre animais.

Os cientistas também descobriram que as corujas-das-torres expressam necessidades e desejos por meio de sons complexos e regrados –garganteios, gritos e pios–, numa língua que os pesquisadores agora buscam decifrar.

“Elas conversam a noite toda e fazem um barulhão”, disse Alexandre Roulin, da Universidade de Lausanne, na Suíça, que recentemente descreveu o altruísmo da coruja-das-torres na revista “Animal Behaviour”, com sua colega Charlene Ruppli e com Arnaud da Silva, da Universidade de Borgonha, na França.

Outros pesquisadores estão monitorando as vidas de corujas mais raras e de proporções mais descomunais, como o ameaçado bufo-de-Blakiston (Bubo blakistoni), da Eurásia. Com quase um metro de altura, até cinco quilos e dois metros de envergadura, essa é a maior coruja do mundo, segundo Jonathan Slaght, do programa para a Rússia da ONG Wildlife Conservation Society. Ela poderia facilmente passar por um urso ou uma árvore. Esse poderoso predador é capaz de puxar de um rio um salmão adulto com duas ou três vezes o seu próprio peso.

A ferocidade é essencial para uma ave que está presente até no Círculo Ártico e que é capaz de procriar e se alimentar no auge do inverno. Sergei Surmach, colega de Slaght, gravou em vídeo uma fêmea sentada sobre seu ninho durante uma nevasca. “Ao final, só dava para ver a cauda dela para fora do ninho”, disse Slaght.

Engenheiros estudam corujas para aperfeiçoar modelos de asas de aviões. Muitas espécies de corujas são conhecidas por voarem silenciosamente, sem o ruflar das asas que poderia alertar a presa sobre a sua aproximação.

A maior parte da asa das corujas é ampla e curva, com uma plumagem aveludada que ajuda a absorver o som. Além do mais, as penas na borda da asa são serrilhadas, o que interrompe e atenua a turbulência do ar.

Numa reunião da Sociedade Americana de Física, em 2012, pesquisadores da Universidade de Cambridge propuseram que perfurações bem posicionadas nas asas de um avião poderiam ter um efeito semelhante para aplacar turbulências, levando a voos mais silenciosos e com menos gasto de combustível.

As corujas datam de 60 milhões de anos atrás, ou mais, e são encontradas em praticamente todo tipo de habitat. Há 229 espécies conhecidas, e a lista não para de crescer: em meados do ano passado, duas novas espécies de coruja-gavião foram descobertas nas Filipinas, e, em fevereiro, pesquisadores descreveram uma nova espécie na ilha de Lombok, na Indonésia.

Algumas espécies de corujas possuem alguns dos melhores sistemas auditivos conhecidos. Tim Birkhead, professor da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, observa que a cóclea da coruja é “enorme” e densamente equipada com cílios sensoriais.

Há a “cara amassada” das corujas, também chamada de disco facial –que pode ter a forma de torta em algumas espécies ou de uma máscara de coração no caso da coruja-das-torres. O disco facial funciona como uma espécie de antena parabólica, que capta ondas sonoras e as direciona, graças a penas especiais.

As aves são as donas da noite e caçam incansavelmente.

Estima-se que um bando com dez famílias de corujas vivendo em um celeiro da Flórida elimine cerca de 25 mil roedores por ano dos canaviais adjacentes.

Jonathan Slaght, da ONG ambiental WCS, com um bufo-de-Blakiston, a maior coruja do mundo

Jonathan Slaght, da ONG ambiental WCS, com um bufo-de-Blakiston, a maior coruja do mundo. Imagem: S. Avdeyuk/Amur-Ussuri Centre for Avian Biodiversity

Fonte: Folha.com


8 de dezembro de 2011 | nenhum comentário »

Casamento ‘arranjado’ de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA

Morte de bebê gorila ilustra dificuldades enfrentadas por biólogos na luta para preservar espécies ameaçadas.

Biólogos que trabalham em zoológicos usam análise genética, dados demográficos e um conhecimento íntimo dos animais para planejar sua reprodução.

A ideia é evitar procriações consanguíneas e assegurar o nascimento de bebês saudáveis. Às vezes, no entanto, toda a ciência e o cuidado atento dos funcionários do zoológico não são suficientes para evitar uma tragédia.

O gorila Kwan, de 22 anos, e a fêmea Bana, de 16, foram apresentados um ao outro no Lincoln Park Zoo, em Chicago, e pareciam formar um bom par.

Kwan já tinha um filho pequeno. Bana, apesar de mais nova, parecia pronta para a maternidade.

Análises feitas por computador mostraram que o casal, cuja espécie é original das planícies ocidentais africanas, não possuía ancestrais recentes em comum – ou seja, do ponto de vista genético, os dois formavam um bom par.

Bana foi trazida do zoológico onde vivia, em Brookfield, no mesmo Estado de Illinois, a cerca de 30 km de distância. Meses depois, no dia 16 de novembro, ela teve um bebê fêmea. No entanto, pouco mais de uma semana depois, o bebê apareceu morto.

Casos de infanticídio não são raros entre gorilas. Em maio último, no London Zoo (o zoológico de Londres), um gorila de sete meses cujo pai havia morrido foi morto por um macho adulto introduzido no grupo pela equipe do zoológico.

Os especialistas do Lincoln Park Zoo não sabem ao certo o que aconteceu no caso da bebê gorila. Mas a diretora de comunicações do zoológico, Sharon Dewar, disse que a equipe não acredita que tenha havido infanticídio e, sim, um trágico acidente.

Controle sexual
A união de Kwan e Bana resultou de um sofisticado plano de reprodução criado por uma equipe de biólogos para assegurar a futura saúde genética da população de gorilas dos Estados Unidos.

Os gorilas das planícies ocidentais estão entre cerca de 300 espécies de animais em zoológicos nos Estados Unidos cujas vidas sexuais são cuidadosamente controladas pelo Population Management Center – centro de administração de populações – do Lincoln Park Zoo.

No centro, especialistas em diversas espécies assumem o papel de cupidos, formando casais de tamanduás, ocapis, papagaios e muitos outros animais. O centro tem mais de 80 mil criaturas sob seu controle.

A diretora do centro, Sarah Long, disse que o processo é parecido com sites que intermedeiam namoros, para pessoas que procuram parceiros pela internet.

‘Usamos computadores e bancos de dados para juntar um macho com uma fêmea – e às vezes produzir filhos’, disse Long.

Ela explicou que o objetivo dos zoológicos hoje em dia não é trazer animais selvagens para o cativeiro. ‘Hoje, os zoológicos estão mais focados em preservar o que já têm’.O programa de computador compara as linhagens dos machos e das fêmeas, muitas vezes traçando sua árvore genealógica até o tempo em que viviam livres, para determinar se formam um bom par do ponto de vista genético.

O que eles querem são dois animais cujos genes são raros naquela população – ou seja, que tenham poucos parentes vivendo nos zoológicos americanos.

Outros fatores considerados são idade, distância entre os zoológicos onde os animais vivem e se o zoológico tem recursos para cuidar de mais um animal.

‘Analisamos a idade daquela girafa. Ela é valiosa ou não?’, exemplificou Long.

‘Queremos que ela se reproduza? Ela está em idade de reproduzir? Existe um macho por aí, tão valioso quanto ela, com quem ela poderia se acasalar? Ele tem a idade correta?’

Bana e Kwan
No ano passado, havia 342 gorilas das planícies ocidentais distribuídos por 52 zoológicos nos Estados Unidos.

Kwan estava maduro do ponto de vista sexual e social, e Bana vivia a poucos quilômetros de distância.A equipe do Lincoln Park Zoo achava que Bana se encaixaria bem na irmandade de gorilas fêmeas que já vivia com Kwan e com seu filho Amare, de seis anos.A jovem gorila foi transportada para seu novo lar em um veículo com condições climáticas controladas.

Bana e Kwan foram apresentados e começou a paquera. Bana olhava insistentemente para Kwan, muitas vezes durante uma hora inteira.

‘Demos pílulas anticoncepcionais a ela para assegurar que estaria socialmente integrada no grupo antes de ficar grávida’, disse Long.

Embora estivesse tomando a pílula, Bana entrava no cio e o casal ‘convidava um ao outro para o acasalamento’, explicou Maureen Leahy, curadora de primatas do Lincoln Park Zoo.

Bebê saudável
Nesse meio-tempo, Bana ia se adaptando à sua posição baixa na hierarquia social do grupo.

Muitas vezes, isso requeria que ela mantivesse distância de Kwan, que na sua condição de macho de lombo prateado, ocupava o topo da hierarquia social. (Nessa espécie, a pelagem nas costas do macho dominante, no pico de sua maturidade sexual, ganha a cor prateada.)

Finalmente, os especialistas do zoológico decidiram que Bana estava pronta para ser mãe e pararam de lhe dar a pílula.

O bebê nasceu saudável.

Para se certificar de que tudo corria bem, a equipe manteve mãe e filha sob observação durante 24 horas por dia nos sete primeiros dias de vida da criança.

Bana aprendia rápido a cuidar da bebê. Seu status social se elevou. Ela começou a comer junto com Kwan, que reconheceu a filha como sua e a protegia quando outros gorilas brincavam nas redondezas.

Mas na manhã do dia 25 de novembro, nove dias após o nascimento, a equipe do zoológico notou que a bebê parecia sem vida nos braços da mãe. Logo, os especialistas se deram conta de que ela havia morrido durante a noite.

Investigações revelaram que a bebê havia morrido por causa de uma fratura no crânio.

A equipe enfatizou, no entanto, que não houve violência: uma autópsia constatou que não havia outros ferimentos, arranhões, pancadas ou sinais de pelos arrancados. O bebê estava em saúde perfeita.

‘A única coisa que parece ser causa determinante da morte parece ser um traumatismo na parte de trás da cabeça’, disse Leahy. ‘Foi um acidente’.

‘Não há sinais de que o grupo (tenha se comportado de forma) inapropriada’.

Luto
Leahy disse que a morte da bebê gorila não levou a equipe do Population Management Center a questionar sua decisão de emparelhar Kwan e Bana.

‘Bana vinha demonstrando comportamento maternal totalmente apropriado e o próprio grupo social vinha demonstrando comportamento apropriado (em relação) a um novo bebê’, disse. ‘No meu entendimento, esses eram sinais de sucesso’.

No momento, os gorilas aparentam estar de luto.

‘O grupo como um todo definitivamente reconheceu a perda dessa criança’, disse Leahy.

‘Houve muitas fungadas e contato físico (de) algumas das fêmeas que em outras situações não teriam necessariamente interagido com Bana. O grupo todo realmente deu atenção a ela durante vários dias após o bebê ter partido. Em termos de comportamento, o grupo estava um pouco apático’.

Kwan e Bana vêm passando tempo juntos e Leahy disse esperar que ainda possa haver um final feliz para essa história.

‘Vamos continuar a manter nossa recomendação de que ela se reproduza’, disse. ‘Vamos continuar a deixar que a natureza siga seu curso natural.’

Casamento 'arranjado' de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA (Foto: BBC)

Casamento 'arranjado' de gorilas em zoo tem fim trágico nos EUA (Foto: BBC)

Fonte: BBC