12 de março de 2012 | nenhum comentário »

Mergulhar para alimentar tubarões ajuda a conservar espécie, diz estudo

Atividade turística realizada no Caribe evitaria caça para retirar barbatanas.
Presas de tubarões-tigre também se beneficiariam, afirma pesquisa.

Com a ajuda de imagens de satélite, pesquisadores dos Estados Unidos verificaram que as atividades de mergulho para alimentar tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) no Caribe ajudam na preservação desses animais. A investigação científica foi publicada no boletim da Sociedade Ecológica Britânica.

Isto porque a prática de mergulho e alimentação desses animais por turistas pode diminuir a caça para extração das barbatanas, utilizada na elaboração de sopas.

De acordo com o estudo realizado por cinco cientistas da Universidade de Miami e da Rosentiel School of Marine & Atmospheric Science, foram analisadas duas populações de tubarões-tigres, uma que vive próximo à Flórida e outra que vive na região das Bahamas.

Segundo a pesquisa, a prática de alimentar tubarões faz com que esses animais migrem milhares de quilômetros para tais incursões, fato que contribui para o aumento biológico das presas desta espécie.

“Dado os benefícios econômicos e a conservação, acreditamos que o turismo de mergulho não deve ser impedido em princípio, até que seja provado o contrário”, disse Neil Hammerschlag, um dos autores do estudo.

tubarão-tigre (Foto: Divulgação/Jim Abernethy)

Turistas mergulham para alimentar tubarão-tigre na região do Caribe (Foto: Divulgação/Jim Abernethy)


22 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Pesquisadora defende necessidade de contagem de espécies

Gretchen Daily, da Universidade de Stanford, afirma que é necessário incluir alguns valores da natureza na equação econômica

Gretchen Daily, é uma das pioneiras no esforço para proteger o meio ambiente.(Foto: Charles J. Katz, Jr. via The New York Times)

O sol desponta nesta região montanhosa remota, em que fileiras perfeitas de pés de café cobrem várias encostas. O sol dos trópicos impregna a natureza com cor, revelando o que restou da floresta tropical nativa espalhada entre os cafezais.

Porém, do outro lado desta paisagem rural bucólica, problemas podem surgir.

Um inseto africano, conhecido como broca-do-café, vem ameaçando as plantações da região. Os fazendeiros locais o chamam de ‘la broca’.

Nas primeiras horas da manhã, Gretchen Daily, professora de biologia da Universidade de Stanford, já está no trabalho de estudar este ecossistema complexo. Envolvidos pelo agradável canto dos pássaros, Daily e sua equipe estão conduzindo experimentos que demonstram a conexão essencial entre vida selvagem e vegetação. Dados preliminares de novos estudos sugerem que o consumo de insetos como a broca-do-café por pássaros e morcegos nativos contribui de maneira significativa com a produção de café.

Desde 1991, Daily, 46 anos, realizou diversas viagens a esta região da Costa Rica para conduzir um de seus estudos mais abrangentes sobre o nível populacional dos trópicos, a fim de monitorar alterações ecológicas de longo prazo.

“Nós estamos avaliando, de forma muito específica, em termos biofísicos e monetários, em dólar, quanto vale conservar a floresta e a vida selvagem que nela habita”, afirma ela.

Nos últimos anos, o enfoque de sua pesquisa passou a ser global. O esforço mundial crescente, em que a cientista é uma das pioneiras, tem por objetivo proteger o meio ambiente por meio da quantificação do capital natural – os bens e serviços da natureza, fundamentais para vida humana – e incorporar esses benefícios aos cálculos de empresas e governos. Seu trabalho obteve atenção internacional e lhe conferiu alguns dos mais cobiçados prêmios ambientais do mundo.

Em parte, o interesse da cientista pelo capital natural surgiu de uma pesquisa realizada na Costa Rica. Ela ficou fascinada com a inovadora iniciativa do governo conhecida como ‘pagamento por serviços ambientais’. O programa, iniciado nos anos 1990, consistia em pagar aos proprietários de terra para que mantivessem a mata nativa, sem cortá-la. A iniciativa contribuiu para uma redução significativa das taxas de desmatamento do país.

O programa costarriquenho serviu de inspiração para a cientista fundar, em colaboração com outras pessoas, o programa Natural Capital Project, em 2006.

O NatCap, como é conhecido nos Estados Unidos, é uma empresa de capital de risco liderada pela Universidade de Stanford, Universidade de Minnesota e duas das maiores organizações de conservação, a Nature Conservancy e a World Wildlife Fund. O objetivo do programa é modificar os métodos tradicionais de conservação ao incluir o valor dos ‘serviços ambientais’ para empresas, comunidade e nas decisões governamentais. Esses benefícios da natureza – como proteção contra enchentes, polinização de culturas e armazenamento de carbono – não fazem parte da tradicional equação econômica.

“Atualmente, não é possível estabelecer o preço da maioria dos serviços ambientais que apreciamos, como ar e água limpos”, afirmou Stephen Polasky, professor de economia ecológica e ambiental da Universidade de Minnesota.

Para Stephen, como as avaliações econômicas geralmente ignoram a natureza, o resultado pode ser a destruição dos ecossistemas sobre os quais a economia se apoia.

“Nosso sistema econômico valoriza a terra por duas razões principais”, afirmou Adam Davis, parceiro da Ecosystem Investment Partners, empresa que gerencia as propriedades de alta prioridade para a conservação. “Uma delas é a edificação e a outra o que se pode retirar da terra”.

“Neste momento, a floresta vale dinheiro se suas árvores forem cortadas”, afirmou Davis. “Nós medimos o valor em metro quadrado de tábua ou em toneladas de pasta de papel vendidas a uma fábrica de papel”. Segundo Davis, está faltando um impulso econômico de compensação para medir o valor de deixar intactos uma floresta ou outro ecossistema.

Desde cedo, Daily reconheceu que novas ferramentas seriam necessárias para quantificar os serviços da natureza. “Nós iniciamos desenvolvendo o programa chamado InVEST (sigla em inglês para avaliação integrada de serviços e compromissos com o ecossistema) com o intuito de descrever e avaliar os bens e serviços da natureza que são essenciais para os seres humanos”, afirmou.

O software – disponível para download gratuito – permite comparar vários cenários ecológicos. Qual é o custo real de drenar uma área de terra úmida ou retirar manguezais da linha costeira? A InVEST dá forma às compensações e ajuda os responsáveis pelas decisões a entender melhor as implicações de suas escolhas.

“O nosso sonho não é tentar capturar todo o valor dos serviços da natureza, porque isso é muito difícil”, afirma Daily. “Nosso objetivo é começar realizando progressos no processo de tomada de decisões, ao incluir ao menos alguns valores da natureza na equação econômica”.

O programa Natural Capital Project agora também opera na América Latina, África, Ásia, na região do Pacífico e na América do norte. Na China, a NatCap está trabalhando com o governo em um programa ambicioso com o intuito de proteger o capital natural. Após o desmatamento ter causado inundações em uma vasta área em 1998, a governo concedeu US$ 100 milhões para transformar grandes áreas de terra fértil em florestas e campos. O governo está ampliando este bom resultado ajudando a desenvolver e testar o software do InVEST para implementar uma nova rede de áreas preservadas, projetada para atingir 25 por cento do país. As reservas contribuirão com o controle de enchentes, a irrigação, o abastecimento de água, a produção de energia hidroelétrica, além da estabilização da biodiversidade e do clima.

Em uma área do programa NatCap no Hawaí, a Escola Kamehameha, a maior proprietária privada de terras do estado, usou o InVEST para avaliar o uso futuro da terra em uma área de 10.520 hectares no litoral norte da ilha de Oahu. No passado, a propriedade era usada para aquicultura, produção agrícola e habitação. Após examinar as alternativas exibidas pelo InVEST, a Escola Kamehameha selecionou uma combinação variada de floresta e agricultura com o objetivo de melhorar a qualidade da água, capturar carbono e produzir receita.

Há cerca de sete meses, a Google.org, braço filantrópico da Google.com, revelou uma nova e eficiente ferramenta que permite, em escala global, realizar monitoramentos e medições de alterações ecológicas na terra.

Chamada de Google Earth Engine, possui uma coleção enorme de imagens de satélites da superfície terrestre. Agora, o programa NatCap está mudando o software do InVEST para a plataforma do Google Earth Engine.

“Neste momento, quando realizamos um projeto do NatCap ou usamos o InVEST, nós enviamos às pessoas para um país ou estado, e elas passam semanas acumulando dados e os colocando no formato apropriado”, afirmou Peter Kareiva, vice-presidente e cientista-chefe da Nature Conservancy. Segundo o especialista, o Google Earth Engine irá acelerar muito o processo de análise.

Segundo Luis Solorzano, diretor de programas de ciência ambiental da Fundação Gordon e Betty Moore, que trabalhou no Google Earth Engine, a nova ferramenta pode descrever tendências, permitindo aos cientistas prever características como fertilidade do solo, erosão e desmatamento. “É o tipo de ferramenta que os responsáveis por políticas precisam para tomar decisões bem informadas”, afirmou Solorzano.

Como o conceito de capital natural é antropocêntrico, as pessoas às vezes perguntam para Daily se, ao quantificar os serviços ambientais, corre-se o risco de ignorar o valor intrínseco da natureza ou de deixar passar despercebidos aspectos do mundo natural difíceis de serem avaliados, como benefícios estéticos e espirituais.

Ela reconhece que certos bens da natureza representam um desafio para a quantificação. “A beleza da abordagem do capital natural está no fato de ela deixar aspectos vastos e imensuráveis da natureza em seu próprio domínio, à medida que se foca, de forma bastante prática, nos benefícios ao meio ambiente que nós podemos e devemos incorporar nas nossas decisões”.

O estado precário do meio ambiente global preocupa Daily desde a adolescência, quando ela morou com a família na antiga Alemanha Ocidental.

Daily presenciou o poder destrutivo da chuva ácida nas florestas do país.

“Eu me dei conta de que queria ser cientista”, afirmou. Essa fascinação inicial pela natureza levou ao entusiasmo pela Costa Rica e isso, por sua vez, preparou o caminho para a liderança internacional na área do capital natural.

O trabalho de Daily assumiu uma urgência particular com a publicação da Avaliação dos Ecossistemas do Milênio, desenvolvida com o apoio da ONU. O relatório descobriu que mudanças recentes e rápidas, causadas pelos seres humanos, produziram uma “perda substancial e amplamente irreversível” na diversidade da vida na Terra e que dois terços dos ecossistemas do mundo estão definhando.

“A perda de biodiversidade da Terra é permanente”, afirma Daily. “Temos sido testemunhas dela. Nós precisamos transmitir, com evidências convincentes, o valor da natureza e o custo de perdê-la. É impressionante pensar que, até que o próximo asteroide atinja o planeta, é a humanidade que está decidindo o rumo futuro de toda a vida conhecida”.

Fonte: The New York Times


3 de junho de 2011 | nenhum comentário »

Programa contra a miséria inclui Bolsa Verde, com foco ambiental

Brasil sem Miséria foi lançado nesta quinta-feira (2) por Dilma Rousseff.
Famílias pobres que conservem florestas públicas podem receber ajuda.

A presidente Dilma Rousseff no lançamento do programa Brasil sem Miséria em Brasília. (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

A presidente Dilma Rousseff no lançamento do programa Brasil sem Miséria em Brasília. (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

Para estimular a proteção ao meio ambiente, o novo programa Brasil sem Miséria, lançado nesta quinta-feira (2) pela presidente Dilma Rousseff criará o Bolsa Verde, que prevê o pagamento de R$ 300 a cada trimestre para famílias pobres que promovam ações de conservação ambiental em florestas nacionais, reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável. O valor será transferido por meio do cartão do Bolsa Família.

Recentemente, o governo iniciou o levantamento do número de famílias que habitam as unidades de conservação federais para saber quantas delas estão em situação de extrema pobreza e poderão receber o Bolsa Verde. Como a identificação ainda não foi concluída e deve ser determinada uma forma de monitorar a conservação praticvada pelas famílias, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o benefício não deve começar a ser pago imediatamente.

Levantamento
Técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela gestão das unidades de conservação federais, são responsáveis pelo censo que vai saber quais famílias podem receber a verba.

Em uma primeira fase, moradores das 310 unidades federais devem ser contemplados. Em uma segunda etapa, o benefício poderá abranger também reservas sob controle dos estados. “Queremos instituir um marco legal para atingir a população extremamente pobre. Seja aquela que está dentro das unidades ou nos arredores, além dos assentamentos de reforma agrária”, afirmou Roberto Vicentin, secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente.

Reforço
Segundo Paulo Maier, diretor de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes, aproximadamente 60 mil famílias podem se beneficiar. Ainda segundo Maier, existe uma preocupação referente à fiscalização do pagamento.

“Está em debate as formas de verificações. Para saber se as famílias estão cumprindo com o objetivo do programa, poderemos utilizar sistemas de monitoramento via satélite, talvez até pelo desmatamento em tempo real da Amazônia Legal (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)”, afirmou Maier.

Realidade
Na reserva extrativista de Tapajós-Arapiuns, no Pará, cerca de 18 mil pessoas vivem no interior da floresta Amazônica e são responsáveis pela preservação de uma área aproximada de 6,5 mil km².

Em grande parte das comunidades só é possível chegar de barco, após 32 horas de viagem a partir da cidade mais próxima, Santarém. A maioria da população vive da agricultura, por meio da plantação de mandioca e fabricação de farinha, além da pesca e pequenos focos da extração de borracha e castanha.

De acordo com Rosinaldo Santos dos Anjos, 42 anos, presidente da associação de moradores, o total de farinha produzido é pouco (50 kg por família), sendo que grande parte é destinado ao consumo próprio.

“Com a venda não é possível levantar nem R$ 50 por mês. Isto incentiva a exploração ilegal da floresta, com a derrubada de árvores e venda clandestina de madeira”, disse. Ainda segundo Santos, o pagamento do benefício é uma forma de reconhecer o trabalho dos ‘guardiões’ da floresta. “É um apoio para nós”, afirmou.

Fonte: Do Globo Natureza, em São Paulo.






Categorias

Tópicos recentes

Meta

 

setembro 2018
S T Q Q S S D
« mar    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

12 de março de 2012 | nenhum comentário »

Mergulhar para alimentar tubarões ajuda a conservar espécie, diz estudo

Atividade turística realizada no Caribe evitaria caça para retirar barbatanas.
Presas de tubarões-tigre também se beneficiariam, afirma pesquisa.

Com a ajuda de imagens de satélite, pesquisadores dos Estados Unidos verificaram que as atividades de mergulho para alimentar tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) no Caribe ajudam na preservação desses animais. A investigação científica foi publicada no boletim da Sociedade Ecológica Britânica.

Isto porque a prática de mergulho e alimentação desses animais por turistas pode diminuir a caça para extração das barbatanas, utilizada na elaboração de sopas.

De acordo com o estudo realizado por cinco cientistas da Universidade de Miami e da Rosentiel School of Marine & Atmospheric Science, foram analisadas duas populações de tubarões-tigres, uma que vive próximo à Flórida e outra que vive na região das Bahamas.

Segundo a pesquisa, a prática de alimentar tubarões faz com que esses animais migrem milhares de quilômetros para tais incursões, fato que contribui para o aumento biológico das presas desta espécie.

“Dado os benefícios econômicos e a conservação, acreditamos que o turismo de mergulho não deve ser impedido em princípio, até que seja provado o contrário”, disse Neil Hammerschlag, um dos autores do estudo.

tubarão-tigre (Foto: Divulgação/Jim Abernethy)

Turistas mergulham para alimentar tubarão-tigre na região do Caribe (Foto: Divulgação/Jim Abernethy)


22 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Pesquisadora defende necessidade de contagem de espécies

Gretchen Daily, da Universidade de Stanford, afirma que é necessário incluir alguns valores da natureza na equação econômica

Gretchen Daily, é uma das pioneiras no esforço para proteger o meio ambiente.(Foto: Charles J. Katz, Jr. via The New York Times)

O sol desponta nesta região montanhosa remota, em que fileiras perfeitas de pés de café cobrem várias encostas. O sol dos trópicos impregna a natureza com cor, revelando o que restou da floresta tropical nativa espalhada entre os cafezais.

Porém, do outro lado desta paisagem rural bucólica, problemas podem surgir.

Um inseto africano, conhecido como broca-do-café, vem ameaçando as plantações da região. Os fazendeiros locais o chamam de ‘la broca’.

Nas primeiras horas da manhã, Gretchen Daily, professora de biologia da Universidade de Stanford, já está no trabalho de estudar este ecossistema complexo. Envolvidos pelo agradável canto dos pássaros, Daily e sua equipe estão conduzindo experimentos que demonstram a conexão essencial entre vida selvagem e vegetação. Dados preliminares de novos estudos sugerem que o consumo de insetos como a broca-do-café por pássaros e morcegos nativos contribui de maneira significativa com a produção de café.

Desde 1991, Daily, 46 anos, realizou diversas viagens a esta região da Costa Rica para conduzir um de seus estudos mais abrangentes sobre o nível populacional dos trópicos, a fim de monitorar alterações ecológicas de longo prazo.

“Nós estamos avaliando, de forma muito específica, em termos biofísicos e monetários, em dólar, quanto vale conservar a floresta e a vida selvagem que nela habita”, afirma ela.

Nos últimos anos, o enfoque de sua pesquisa passou a ser global. O esforço mundial crescente, em que a cientista é uma das pioneiras, tem por objetivo proteger o meio ambiente por meio da quantificação do capital natural – os bens e serviços da natureza, fundamentais para vida humana – e incorporar esses benefícios aos cálculos de empresas e governos. Seu trabalho obteve atenção internacional e lhe conferiu alguns dos mais cobiçados prêmios ambientais do mundo.

Em parte, o interesse da cientista pelo capital natural surgiu de uma pesquisa realizada na Costa Rica. Ela ficou fascinada com a inovadora iniciativa do governo conhecida como ‘pagamento por serviços ambientais’. O programa, iniciado nos anos 1990, consistia em pagar aos proprietários de terra para que mantivessem a mata nativa, sem cortá-la. A iniciativa contribuiu para uma redução significativa das taxas de desmatamento do país.

O programa costarriquenho serviu de inspiração para a cientista fundar, em colaboração com outras pessoas, o programa Natural Capital Project, em 2006.

O NatCap, como é conhecido nos Estados Unidos, é uma empresa de capital de risco liderada pela Universidade de Stanford, Universidade de Minnesota e duas das maiores organizações de conservação, a Nature Conservancy e a World Wildlife Fund. O objetivo do programa é modificar os métodos tradicionais de conservação ao incluir o valor dos ‘serviços ambientais’ para empresas, comunidade e nas decisões governamentais. Esses benefícios da natureza – como proteção contra enchentes, polinização de culturas e armazenamento de carbono – não fazem parte da tradicional equação econômica.

“Atualmente, não é possível estabelecer o preço da maioria dos serviços ambientais que apreciamos, como ar e água limpos”, afirmou Stephen Polasky, professor de economia ecológica e ambiental da Universidade de Minnesota.

Para Stephen, como as avaliações econômicas geralmente ignoram a natureza, o resultado pode ser a destruição dos ecossistemas sobre os quais a economia se apoia.

“Nosso sistema econômico valoriza a terra por duas razões principais”, afirmou Adam Davis, parceiro da Ecosystem Investment Partners, empresa que gerencia as propriedades de alta prioridade para a conservação. “Uma delas é a edificação e a outra o que se pode retirar da terra”.

“Neste momento, a floresta vale dinheiro se suas árvores forem cortadas”, afirmou Davis. “Nós medimos o valor em metro quadrado de tábua ou em toneladas de pasta de papel vendidas a uma fábrica de papel”. Segundo Davis, está faltando um impulso econômico de compensação para medir o valor de deixar intactos uma floresta ou outro ecossistema.

Desde cedo, Daily reconheceu que novas ferramentas seriam necessárias para quantificar os serviços da natureza. “Nós iniciamos desenvolvendo o programa chamado InVEST (sigla em inglês para avaliação integrada de serviços e compromissos com o ecossistema) com o intuito de descrever e avaliar os bens e serviços da natureza que são essenciais para os seres humanos”, afirmou.

O software – disponível para download gratuito – permite comparar vários cenários ecológicos. Qual é o custo real de drenar uma área de terra úmida ou retirar manguezais da linha costeira? A InVEST dá forma às compensações e ajuda os responsáveis pelas decisões a entender melhor as implicações de suas escolhas.

“O nosso sonho não é tentar capturar todo o valor dos serviços da natureza, porque isso é muito difícil”, afirma Daily. “Nosso objetivo é começar realizando progressos no processo de tomada de decisões, ao incluir ao menos alguns valores da natureza na equação econômica”.

O programa Natural Capital Project agora também opera na América Latina, África, Ásia, na região do Pacífico e na América do norte. Na China, a NatCap está trabalhando com o governo em um programa ambicioso com o intuito de proteger o capital natural. Após o desmatamento ter causado inundações em uma vasta área em 1998, a governo concedeu US$ 100 milhões para transformar grandes áreas de terra fértil em florestas e campos. O governo está ampliando este bom resultado ajudando a desenvolver e testar o software do InVEST para implementar uma nova rede de áreas preservadas, projetada para atingir 25 por cento do país. As reservas contribuirão com o controle de enchentes, a irrigação, o abastecimento de água, a produção de energia hidroelétrica, além da estabilização da biodiversidade e do clima.

Em uma área do programa NatCap no Hawaí, a Escola Kamehameha, a maior proprietária privada de terras do estado, usou o InVEST para avaliar o uso futuro da terra em uma área de 10.520 hectares no litoral norte da ilha de Oahu. No passado, a propriedade era usada para aquicultura, produção agrícola e habitação. Após examinar as alternativas exibidas pelo InVEST, a Escola Kamehameha selecionou uma combinação variada de floresta e agricultura com o objetivo de melhorar a qualidade da água, capturar carbono e produzir receita.

Há cerca de sete meses, a Google.org, braço filantrópico da Google.com, revelou uma nova e eficiente ferramenta que permite, em escala global, realizar monitoramentos e medições de alterações ecológicas na terra.

Chamada de Google Earth Engine, possui uma coleção enorme de imagens de satélites da superfície terrestre. Agora, o programa NatCap está mudando o software do InVEST para a plataforma do Google Earth Engine.

“Neste momento, quando realizamos um projeto do NatCap ou usamos o InVEST, nós enviamos às pessoas para um país ou estado, e elas passam semanas acumulando dados e os colocando no formato apropriado”, afirmou Peter Kareiva, vice-presidente e cientista-chefe da Nature Conservancy. Segundo o especialista, o Google Earth Engine irá acelerar muito o processo de análise.

Segundo Luis Solorzano, diretor de programas de ciência ambiental da Fundação Gordon e Betty Moore, que trabalhou no Google Earth Engine, a nova ferramenta pode descrever tendências, permitindo aos cientistas prever características como fertilidade do solo, erosão e desmatamento. “É o tipo de ferramenta que os responsáveis por políticas precisam para tomar decisões bem informadas”, afirmou Solorzano.

Como o conceito de capital natural é antropocêntrico, as pessoas às vezes perguntam para Daily se, ao quantificar os serviços ambientais, corre-se o risco de ignorar o valor intrínseco da natureza ou de deixar passar despercebidos aspectos do mundo natural difíceis de serem avaliados, como benefícios estéticos e espirituais.

Ela reconhece que certos bens da natureza representam um desafio para a quantificação. “A beleza da abordagem do capital natural está no fato de ela deixar aspectos vastos e imensuráveis da natureza em seu próprio domínio, à medida que se foca, de forma bastante prática, nos benefícios ao meio ambiente que nós podemos e devemos incorporar nas nossas decisões”.

O estado precário do meio ambiente global preocupa Daily desde a adolescência, quando ela morou com a família na antiga Alemanha Ocidental.

Daily presenciou o poder destrutivo da chuva ácida nas florestas do país.

“Eu me dei conta de que queria ser cientista”, afirmou. Essa fascinação inicial pela natureza levou ao entusiasmo pela Costa Rica e isso, por sua vez, preparou o caminho para a liderança internacional na área do capital natural.

O trabalho de Daily assumiu uma urgência particular com a publicação da Avaliação dos Ecossistemas do Milênio, desenvolvida com o apoio da ONU. O relatório descobriu que mudanças recentes e rápidas, causadas pelos seres humanos, produziram uma “perda substancial e amplamente irreversível” na diversidade da vida na Terra e que dois terços dos ecossistemas do mundo estão definhando.

“A perda de biodiversidade da Terra é permanente”, afirma Daily. “Temos sido testemunhas dela. Nós precisamos transmitir, com evidências convincentes, o valor da natureza e o custo de perdê-la. É impressionante pensar que, até que o próximo asteroide atinja o planeta, é a humanidade que está decidindo o rumo futuro de toda a vida conhecida”.

Fonte: The New York Times


3 de junho de 2011 | nenhum comentário »

Programa contra a miséria inclui Bolsa Verde, com foco ambiental

Brasil sem Miséria foi lançado nesta quinta-feira (2) por Dilma Rousseff.
Famílias pobres que conservem florestas públicas podem receber ajuda.

A presidente Dilma Rousseff no lançamento do programa Brasil sem Miséria em Brasília. (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

A presidente Dilma Rousseff no lançamento do programa Brasil sem Miséria em Brasília. (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

Para estimular a proteção ao meio ambiente, o novo programa Brasil sem Miséria, lançado nesta quinta-feira (2) pela presidente Dilma Rousseff criará o Bolsa Verde, que prevê o pagamento de R$ 300 a cada trimestre para famílias pobres que promovam ações de conservação ambiental em florestas nacionais, reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável. O valor será transferido por meio do cartão do Bolsa Família.

Recentemente, o governo iniciou o levantamento do número de famílias que habitam as unidades de conservação federais para saber quantas delas estão em situação de extrema pobreza e poderão receber o Bolsa Verde. Como a identificação ainda não foi concluída e deve ser determinada uma forma de monitorar a conservação praticvada pelas famílias, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o benefício não deve começar a ser pago imediatamente.

Levantamento
Técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela gestão das unidades de conservação federais, são responsáveis pelo censo que vai saber quais famílias podem receber a verba.

Em uma primeira fase, moradores das 310 unidades federais devem ser contemplados. Em uma segunda etapa, o benefício poderá abranger também reservas sob controle dos estados. “Queremos instituir um marco legal para atingir a população extremamente pobre. Seja aquela que está dentro das unidades ou nos arredores, além dos assentamentos de reforma agrária”, afirmou Roberto Vicentin, secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente.

Reforço
Segundo Paulo Maier, diretor de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes, aproximadamente 60 mil famílias podem se beneficiar. Ainda segundo Maier, existe uma preocupação referente à fiscalização do pagamento.

“Está em debate as formas de verificações. Para saber se as famílias estão cumprindo com o objetivo do programa, poderemos utilizar sistemas de monitoramento via satélite, talvez até pelo desmatamento em tempo real da Amazônia Legal (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)”, afirmou Maier.

Realidade
Na reserva extrativista de Tapajós-Arapiuns, no Pará, cerca de 18 mil pessoas vivem no interior da floresta Amazônica e são responsáveis pela preservação de uma área aproximada de 6,5 mil km².

Em grande parte das comunidades só é possível chegar de barco, após 32 horas de viagem a partir da cidade mais próxima, Santarém. A maioria da população vive da agricultura, por meio da plantação de mandioca e fabricação de farinha, além da pesca e pequenos focos da extração de borracha e castanha.

De acordo com Rosinaldo Santos dos Anjos, 42 anos, presidente da associação de moradores, o total de farinha produzido é pouco (50 kg por família), sendo que grande parte é destinado ao consumo próprio.

“Com a venda não é possível levantar nem R$ 50 por mês. Isto incentiva a exploração ilegal da floresta, com a derrubada de árvores e venda clandestina de madeira”, disse. Ainda segundo Santos, o pagamento do benefício é uma forma de reconhecer o trabalho dos ‘guardiões’ da floresta. “É um apoio para nós”, afirmou.

Fonte: Do Globo Natureza, em São Paulo.