20 de maio de 2013 | nenhum comentário »

Proposta de plantio de cana na Amazônia é aprovada em comissão do Senado

O Senado aprovou nesta terça-feira projeto que autoriza o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, em áreas desmatadas. O objetivo da proposta, atacada por ambientalistas, é ampliar a produção de biocombustíveis no país –especialmente o etanol.

Além das terras desmatadas, o projeto também autoriza o plantio da cana nos biomas cerrado e campos gerais da Amazônia. Como foi aprovado em caráter terminativo pela Comissão de Meio Ambiente do Senado, segue para votação na Câmara se não houver recurso para ser votado em plenário.

Autor do projeto, o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) defende o plantio na Amazônia para estimular a produção de biocombustíveis. Ele diz que decreto editado em 2009 pelo governo federal aprovou o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar no país, mas excluiu a Amazônia –área que, segundo ele, tem o potencial para o plantio por ter terras desmatadas e biomas de cerrado e campos gerais.

“A conseqüência para essas regiões foi imediata: o produtor não pode receber crédito rural para o plantio da cana-de-açúcar, não se pode implantar usinas de produção de açúcar e etanol nessas regiões e, tão maléfico quanto essa vedação, as mencionadas regiões ficarão alijadas da possibilidade de exportar etanol”, afirmou o senador.

O projeto determina que o plantio deve observar critérios como a proteção ao meio ambiente, a conservação da biodiversidade e uso de tecnologia apropriada. O texto também fixa como regra a utilização dos recursos naturais e a ocupação prioritária de áreas degradadas ou de pastagens —mas não fixa regras para fiscalização ou punições a quem desrespeitar o projeto.
A proposta também determina que o plantio considere as normas do Código Florestal, aprovado no ano passado pelo Congresso.

A única regulamentação mencionada no projeto é para a concessão de crédito rural e agroindustrial para o cultivo da cana, o que deve ser feito após a sua aprovação.

DIVISÃO

Relator do projeto na comissão, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO) defendeu a sua aprovação por considerar que a expansão do cultivo da cana em bases “sustentáveis” vai permitir o aumento da produção de etanol. “É um importante biocombustível da matriz energética nacional e menos poluente que os combustíveis fósseis”, afirmou.

Contrário à aprovação do projeto, o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) disse que a autorização do plantio da cana deveria ser mantida, já que a área foi excluída do zoneamento ecológico feito pela Embrapa.

 

Fonte: Folha.com


21 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Cai o uso de energia renovável no Brasil, diz IBGE

Estudo também mostra queda no desmatamento e na poluição urbana

Segundo um novo estudo do IBGE, o Brasil está usando menos energia renovável. O trabalho mostra que, em 2010, 45,5% da energia utilizada no Brasil vinha de fontes renováveis, como hidrelétricas e derivados da cana-de-açúcar. A porcentagem é menor do que nos dois anos anteriores: em 2009, 47,2% da energia usada no país vinha dessas fontes e, em 2008, o índice foi 45,9%. Esse tipo de fonte pode fornecer energia continuamente, se usado de modo sustentável.

A estatística faz parte do estudo Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, lançado pelo IBGE nesta segunda-feira. A queda no uso dessas fontes de energia vai contra uma tendência de crescimento que vinha desde 2001, quando o índice era menor do que 40%. Entre os responsáveis por essa mudança, está uma menor participação dos derivados de cana-de-açúcar, que caíram de 18,2% para 17,8%, e da energia hidráulica, que foi de 15,2% para 14%. Ao mesmo tempo, subiu o uso do gás natural e do carvão mineral no país.

Camada de ozônio — Apesar disso, o estudo traz alguns dados mais animadores. Ele mostra que, por exemplo, o país conseguiu reduzir o consumo de substâncias destruidoras da camada de ozônio. O Brasil superou, inclusive, as metas estabelecidas no Protocolo de Montreal, que foi firmado por mais de 150 países em 1987. Segundo o IBGE, o consumo desses compostos caiu de 11.099 t PDO (toneladas de Potencial de Destruição da Camada de Ozônio), em 2000, para 1.208 t PDO em 2010. Essa tendência é clara desde o final dos anos 90.

Além disso, o estudo mostra que caiu quase pela metade o número de focos de queimadas e incêndios nas florestas brasileiras entre 2010 e 2011. O número caiu de 133.133 para 61.687. A área desflorestada da Amazônia se aproxima de 20% da área da florestal original.

Poluição — O estudo também avaliou a qualidade do ar nas cidades brasileiras e mostrou que houve uma melhora, apesar de ainda estar abaixo do ideal. Segundo a pesquisa, caiu o nível de partículas totais em suspensão e de partículas inaláveis na maioria das cidades. Parte desse resultado pode ser explicado pelo controle maior na emissão dos veículos. Esse valor, no entanto, ainda é mais alto do que o recomendado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente em cidades como Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória, além do Distrito Federal.

Se as cidades viram uma pequena melhora, o mesmo não se pode dizer dos rios. Eles não chegaram a ficar mais poluídos, mas continuaram igualmente sujos. Segundo o estudo, as fontes de água doce do país ainda têm muitas substâncias orgânicas e baixo índice de qualidade. Os casos mais graves são os do Tietê, em São Paulo, e do Iguaçu, em Curitiba. O estudo aponta a falta de tratamento dos esgotos como responsável pela poluição dos rios.

Moradia — Por fim, a pesquisa também mostrou que o número de domicílios considerados adequados tem crescido no país. Para chegar a esse valor, os pesquisadores consideraram a densidade de moradores na casa, a coleta de lixo, o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. De 1992 a 2009, o índice de casas adequadas foi de 36,8% para 56,8%. No Distrito Federal este valor alcançou 80,6% e em São Paulo 76,8%. Em Rondônia e Alagoas, no entanto, os percentuais foram de 11,9% e 21,1%, respectivamente.

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Usina Hidrelétrica de Itaipu. A porcentagem de energia hidráulica usada no país caiu no último ano. Imagem: Veja Ciência

A coleta de lixo está presente em 87,9% das casas, enquanto o abastecimento de água atinge 84,4%. A quantidade do esgotamento sanitário é mais preocupante. Em 2008 o índice de domicílios com esgoto era 73,2%, mas caiu para 72,3% em 2009.

Fonte: Veja Ciência


13 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Vexame ambiental, artigo de Xico Graziano

Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de ontem (12).

Que Código Florestal, nada. O grande fiasco brasileiro na Rio+20 se esconde no etanol. O país que ensinou ao mundo como trocar a gasolina fóssil pelo álcool renovável engata marcha ré na utilização do combustível limpo. Um vexame ambiental.

 

Pode-se comprovar facilmente esse retrocesso na bioenergia. Em 2011, o consumo dos combustíveis derivados de petróleo – gasolina principalmente – cresceu 19%, enquanto o uso do etanol nos veículos despencou 29%. Não precisa dizer mais nada. Anda na contramão da história a matriz energética dos transportes no Brasil.

 

Aconteceu que os consumidores reagiram ao desequilíbrio de preços a favor da gasolina. Duas razões básicas explicam a mudança do mercado. Primeiro, o governo federal tem reduzido o encargo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, taxa que nos últimos anos recuou de 14% para 2,6%. Em consequência, acabaram praticamente equiparados os custos tributários de ambos os combustíveis. Uma política moderna de sustentabilidade, como buscada em todo o mundo, procederia ao contrário, ou seja, reduziria a carga tributária sobre o biocombustível, não sobre o derivado de petróleo.

 

Trata-se, obviamente, de uma decisão política, arcada pelo governo federal desde 2002. Com a redução da referida taxa, a Petrobrás, que normalmente deveria ter elevado o preço dos derivados de petróleo para manter sua competitividade global, se compensa pela perda de rentabilidade recolhendo menos imposto ao governo. Tudo dissimulado. Conta paga pela sociedade.

 

Em segundo lugar, a gasolina barata segura, obviamente, o preço do etanol na bomba, roubando margem dos produtores. Pouco lucrativa, a atividade alcooleira vê sua matéria-prima se direcionar para a fabricação de açúcar, movimento que se observa há tempos nas usinas. Bastante rentável no mercado internacional, o açúcar estimula a pauta das exportações. Resultado: a oferta de etanol se retrai, tendendo a elevar seu preço no posto de combustível, espantando a freguesia. Elementar.

 

O Brasil produziu cerca de 28 bilhões de litros de etanol nesta última safra (2010/2011). Nos EUA o volume já ultrapassou 50 bilhões de litros. Incrível. O país que inventou o Proálcool, obtido a partir da cana-de-açúcar, está tomando poeira dos gringos, que destinam 40% de sua safra de milho para a fermentação alcoólica. Mais ainda. A necessidade de manutenção de estoques confiáveis começou a exigir volumosas importações de etanol. Sabem de quem? Dos norte-americanos, claro. No ano passado, o Brasil comprou acima de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA. Acredite se quiser.

 

Não é à toa que paira desilusão no setor sucroalcooleiro. Estimulados pela agenda da economia verde, nos transportes viabilizada definitivamente com a geração dos motores flex fuel, inéditos e fortes grupos, nacionais e multinacionais, entraram na atividade. Anunciaram planos formidáveis que, após quatro anos, micaram, roubando o fôlego do parque alcooleiro. Notícia ruim chega dos canaviais. E quem pensa que é chororô de usineiro se engana feio. Corretores garantem que 20% das usinas do Centro-Sul estão à venda. Sem comprador. As chamadas greenfields, novas plantas a serem construídas, em vários Estados, ficaram no papel. O pouco dinamismo existente advém da ampliação e modernização de fábricas já instaladas. Passos de tartaruga no etanol.

 

Milhares de estudiosos, ambientalistas e jornalistas se encontrarão logo mais na Rio+20. O governo brasileiro fará ginástica para justificar o inexplicável. Enquanto as nações se debruçam para encontrar soluções capazes de esverdear sua (suja) matriz energética, por aqui se desperdiça uma oportunidade de ouro, retrocedendo no uso do combustível renovável.

 

Os produtores de cana-de-açúcar e os usineiros de etanol, por sua vez, lançaram por aqui o Movimento Mais Etanol, querendo influenciar a mídia e sensibilizar o governo para sua agenda. Eles se propõem a dobrar de tamanho até 2020 – o que, ademais, geraria 350 mil empregos diretos -, mas precisam viabilizar uma estratégia de política pública que devolva ao etanol a competitividade roubada pelo controle dos preços da gasolina. Basta, de cara, reduzir a carga tributária sobre o biocombustível.

 

Gasolina barata e etanol caro acabam criando um círculo vicioso contra o meio ambiente, prejudicando a saúde pública. Segundo a Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA, na sigla em inglês), o etanol derivado da cana-de-açúcar pode ajudar a reduzir até 91% o efeito estufa da Terra, quando comparado com as emissões advindas da queima de gasolina. Mas, curiosamente, o ambientalismo pouca bola dá para essa tragédia da poluição urbana. O foco de sua ferrenha atuação, conforme se verificou na questão do novo Código Florestal, mira no assunto da biodiversidade. Contra o desmatamento.

 

A intolerância dos ambientalistas agride os agricultores, como se do campo partisse todo o mal contra a natureza. Citadinos, eles poupam as desgraças ecológicas provocadas pela urbanização, a começar pelos escapamentos veiculares. Novos estímulos públicos ao setor automobilístico favoreceram agora as montadoras. Nenhum compromisso ambiental se firmou. Pouco importa, tristemente, aos radicais verdes.

 

Tal miopia do movimento ambiental, infelizmente, ajudará o governo a esconder, na Rio+20, o retrocesso na agenda do etanol. Seria interessante, aliás, como subproduto da reunião, discutir para onde caminha o ambientalismo brasileiro.

 

A incrível capacidade fotossintética do Brasil garante enorme vantagem na produção de biocombustível, energia renovável misturada com geração de empregos. Desprezá-la significa maltratar o etanol, um filho da Pátria.

 

* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

Fonte: Jornal da Ciência

 


23 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Recuperação de áreas de preservação permanente divide opiniões

As APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Onde hoje se vê mata fechada, só havia cana-de-açúcar dez anos atrás. Em uma fazenda foram plantadas quase um milhão de mudas de árvores para recuperar as áreas de preservação permanente.

APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Uma usina perdeu área de plantio de cana, mas conquistou o certificado de produção sustentável, valorizando a empresa no mercado internacional. “Ganhamos na exportação de álcool e de açúcar. O pessoal lá de fora quer saber se está fazendo preservação”, afirma Ricardo Ometto.

Em Iracemápolis, no interior de São Paulo, o desrespeito à APP deixou a represa que abastece o município desprotegida. Resultado: em 1985, a cidade ficou sem água. A área precisou ser recuperada em regime de urgência.

O plantio da cana-de-açúcar que ia até a beira da represa teve que recuar 100 metros. No local, foram plantadas árvores nativas. Nunca mais Iracemápolis teve problema de abastecimento de água.

Iracemápolis e a usina de cana são dois exemplos dos benefícios e da necessidade de se cuidar bem das APPs. O projeto do novo Código Florestal saiu da Câmara sem garantias de recuperação das APPs desmatadas antes de julho de 2008.

No Senado, a proposta evoluiu para assegurar que deve ser de 15 metros a faixa mínima de vegetação a ser recuperada às margens dos rios com até dez metros de largura. E os conselhos estaduais de meio ambiente ganham poder para ampliar a faixa de recuperação da mata ciliar, de acordo com as necessidades de cada área. No caso dos rios mais largos, pode chegar a 100 metros de extensão.

“Cabe à União Federal o estabelecimento de regras gerais para o país inteiro, mas o nosso país é um continente. Precisamos chamar os estados à responsabilidade de nos ajudar a fazer essa harmonia entre produção e conservação do meio ambiente”, afirmou o senador Jorge Viana (PT-AC), relator.

Uma das principais preocupações dos ambientalistas e da comunidade científica é garantir no Código Florestal a preservação das nascentes e córregos intermitentes que fornecem água apenas durante uma parte do ano, mas que são fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente.

O texto em debate no Senado ainda não garante a preservação das nascentes. Os ambientalistas vão apresentar uma emenda para resolver o problema. “A ideia é que se tenha um mínimo de 30 metros para as nascentes, os olhos d’água e demais rios. Isso é importante porque, como está previsto na regra que veio da Câmara, nascentes e os olhos d’água não teriam qualquer tipo de recuperação. O seria um absurdo porque é dali que nascem os rios”, explica Tasso Azevedo, ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) resiste à mudança, porque diz que ela atingiria pequenos e médios produtores. “Acho que seria interessante, por exemplo, excluirmos o plantio extensivo de milho, de algodão, de soja e abrir mão apenas para os pequenos e médios agricultores que têm uma pequena roça, uma pequena horta e uma pequena pastagem, uma campineira para seu gado de leite”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente do CNA.

Os ruralistas também não aceitam a retirada do gado das encostas dos morros, um ponto defendido pelos ambientalistas. “Gado e APP são duas coisas que se pudessem ser evitadas seria extremamente importante. O casco do gado gera um peso muito grande. Em geral, gera erosão, além de contaminar a água”, alerta Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama.

A pecuária é o principal uso da terra no Brasil. São 200 milhões de hectares de pastagem. A agricultura ocupa 65 milhões de hectares. A longo prazo, a solução é aumentar a produtividade da pecuária, inferior a uma cabeça de gado por hectare. Nas APPs à beira de rios, muitas áreas hoje ocupadas pelo gado poderiam ser restauradas sem grandes investimentos.

Há quatro anos, toda a área de uma propriedade era ocupada pelo pasto. Bastou tirar o gado para ver que as árvores cresceram naturalmente. A técnica pode ser aplicada com sucesso em 80% do país.

“Isso acontece na Amazônia, no Brasil central com os cerrados e em várias situações. Só 20% delas que foram muito degradadas historicamente é que, efetivamente, vão precisar de um investimento maior com o plantio de mudas”, explica Ricardo Rodrigues, professor – Esalq – USP.

Click e veja o vídeo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/11/recuperacao-de-areas-de-preservacao-permanente-divide-opinioes.html

Fonte: G1, Jornal Nacional


14 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Negócios e pesquisa em energia eólica no Brasil

Artigo de Alexandre Street, Delberis Lima e Bruno Fânzeres no Valor Econômico de sexta-feira (11).

No Brasil, as três principais fontes alternativas de energia elétrica são as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), a cogeração com biomassa derivada do bagaço da cana e a eólica, que há pouco ressurgiu com um forte papel. Elas são denominadas alternativas em relação às principais fontes convencionalmente utilizadas – as grandes usinas hidrelétricas e termelétricas.

 

Investir em fontes alternativas é positivo pois implica aumentar a diversidade da matriz energética brasileira. Ademais, tais fontes de energia também recebem o valioso sobrenome renovável, especialmente positivo por aproveitar os recursos naturais que podem ser renovados pela própria natureza no curto prazo.

 

Entre 2005 e 2010, foram realizados 14 leilões destinados à compra de contratos oriundos de novos empreendimentos de geração. Dos 18.500 megawatts médios (MWmed) negociados, 3.500 (19%) eram provenientes de fontes alternativas renováveis: 1% de PCHs, 9% de eólicas e 9% de biomassa da cana.

 

Contudo, esse montante contratado de energia eólica é proveniente sobretudo dos leilões realizados em 2009 e 2010, quando foram negociados 780 MWmed a um preço médio de R$ 148,39/MWh, e 1.160 MWmed, a R$ 130,86/MWh. Esse resultado positivo seguiu sendo observado nos leilões A-3 e de reserva deste ano, quando as eólicas surpreenderam o mercado movimentando quase 2.300 MWmed a um preço médio inferior a 100 R$/MWh.

 

Os dois principais fatores para o avanço significativo do interesse pela energia eólica são: 1) a crise mundial, que tornou o Brasil a válvula de escape dos fabricantes do mundo todo, aumentando o poder de negociação dos nossos investidores, o que faz o preço dos equipamentos caírem; e 2) recentes ajustes regulatórios, como incentivos fiscais e desenhos de contratos específicos para essa fonte, feitos para mitigar os riscos dos investidores.

 

Nos últimos três anos, contratos com cláusulas especiais foram utilizados a fim de mitigar o risco financeiro decorrente da grande incerteza e sazonalidade do insumo vento. Além disso, foi criada uma cláusula que trata da necessidade de comprar o montante contratado e não produzido ao preço de curto prazo, o temido preço de liquidação de diferenças (PLD).

 

Os geradores temem vender energia ao PLD, pois este é muito volátil, podendo chegar a valer até seis vezes o preço do contrato em tempos de crise, causando, nessas situações, uma grande perda financeira ao gerador que contratou de mais e produziu de menos. Por outro lado, na maior parte do tempo existe excesso de água nos reservatórios. Isso proporciona um PLD, que no Brasil é calculado como o custo de oportunidade do uso da água, muito baixo. Assim, vender energia sem um contrato, ao PLD, também não é boa ideia.

 

Dentre as mudanças realizadas no contrato padrão, o chamado contrato de quantidade, está a possibilidade de comprar a diferença entre o contratado e o produzido ao preço do próprio contrato. Todos esses ajustes acarretaram em um ambiente menos arriscado aos investidores e impulsionaram a viabilização dessa fonte no ambiente de contratação regulado (ACR), onde os geradores vendem contratos para as distribuidoras através de leilões.

 

Contudo, existe outro mercado em que a eólica ainda não conseguiu se firmar: o ambiente de contratação livre (ACL). O ACL é um mercado do tipo balcão, onde contratos bilaterais são livremente negociados entre geradores e grandes consumidores como shoppings, supermercados e indústrias. Aí são negociados contratos de quantidade, sem o alívio da cláusula que obriga o gerador a comprar, a PLD, o déficit de produção com relação ao montante contratado.

 

A dificuldade que as eólicas sofrem no ACL não é exclusiva a essa fonte. As PCHs, com a alternância entre períodos secos e úmidos, e as usinas a biomassa, que produzem energia em função da safra da cana, também sofrem com a sazonalidade dos seus recursos e enfrentam os mesmos desafios ao vender contratos de quantidade nesse ambiente.

 

Mas a história não termina aí. O regime sazonal dos recursos, tanto da biomassa quanto da eólica, é fortemente complementar ao regime das hidrelétricas. No período de seca dos rios do Sudeste é quando venta no Nordeste e quando as usinas a biomassa do Sudeste e Centro-Oeste estão a todo vapor devido à safra da cana; a situação se inverte na outra metade do ano, no período úmido das hidrelétricas. Assim, a complementaridade entre os recursos renováveis aponta para uma nova possibilidade de negócio em um ambiente com grande crescimento e muito rentável, o ACL.

 

Ainda como uma prática incipiente, comercializadoras e grandes holdings de geração começam a criar carteiras otimizadas dessas fontes renováveis para revendê-las conjuntamente, mitigando o elevado risco financeiro de cada fonte. Esse movimento é apenas uma vertente de um conjunto de pesquisas que estão sendo realizadas neste momento pelos investidores através de universidades e empresas de consultoria.

 

Muitos outros desafios ainda devem ser vencidos para consolidar e atrair de modo sustentável o investimento em geradores eólicos no Brasil. Por exemplo: desafios regulatórios, como o desenho de leilões e a criação de mecanismos de troca de energia entre as usinas para mitigar a incerteza na geração; desafios no âmbito elétrico, como o dimensionamento das redes para receber uma injeção de potência variável ao sabor dos ventos; climatológico/estatísticos, como a previsão, certificação e simulação das velocidades dos ventos; e tecnológicos, como a tropicalização dos equipamentos para que se adaptem à realidade nacional.

 

Esses temas fazem parte de uma ampla área de pesquisa em que grupos isolados começam a atuar. Contudo, a criação de uma rede de pesquisa nacional, que gerencie de maneira coordenada e sinérgica a pesquisa de temas estratégicos para o segmento, é a principal arma para aproveitar e manter aberta a janela única de oportunidade que o Brasil vive: alto poder de negociação com os fornecedores e interesse das entidades reguladoras em desenvolver o segmento.

 

Alexandre Street e Delberis Lima são professores do Departamento de Engenharia Elétrica do CTC/PUC-Rio. Bruno Fânzeres é aluno de Iniciação Científica do CTC/PUC-Rio.]

Fonte: Jornal da Ciência


16 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Laboratórios focam o biocombustível de segunda geração

Avançam no País os estudos para o desenvolvimento de novas técnicas para a produção de biocombustíveis de segunda geração, aqueles produzidos a partir de biomassa e não por meio da fermentação do açúcar da cana.

Há duas rotas de desenvolvimento: os processos bioquímico e termoquímico. A mais avançada é a pesquisa de processos termoquímicos por meio da queima com pouco oxigênio do bagaço e da palha da cana.

 

Universidades e institutos de pesquisas, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), com apoio de empresas como Braskem, Oxiteno, Raizen (Shell e Cosan), Petrobras e Vale estão investindo em uma planta de gaseificação no campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba. O projeto exigirá investimentos de R$ 80 milhões – R$ 70 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Governo de São Paulo e R$ 10 milhões das empresas.

 

“Estamos negociando a propriedade intelectual com as empresas, um ponto fundamental para o BNDES, que pré-aprovou o projeto, liberar o financiamento”, diz Fernando Landgraf, diretor de inovação do IPT. O processo permitirá dobrar a produção de biocombustíveis como o etanol em menor área de plantio por aproveitar o bagaço e a palha da cana, que representam dois terços da parte sólida do vegetal.

 

“Cada empresa que está apoiando o projeto tem um interesse específico”, diz Landgraf. A Vale está de olho em todos os compostos que possam ser utilizados como fonte de energia, explica Ivo Fouto, diretor responsável pelos assuntos ligados a biocombustíveis na Vale e presidente da Biopalma. Esta vai atuar na produção de biodiesel a partir do óleo de dendê cultivado na região do Vale do Acará e Baixo Tocantins, abrangendo sete municípios no estado do Pará. Em janeiro, a Vale adquiriu participação de 70% do controle da Biopalma por US$ 173,5 milhões.

 

Segundo Fouto, a empresa já realizou a metade do plantio e a primeira das seis unidades de extração começa a operar no fim do ano. A planta de produção de biodiesel começa a funcionar em 2014. A expectativa é de atingir a produção anual de 500 mil toneladas em 2019, quando a lavoura atingir sua maturidade. O B20 (mistura de 20% de biodiesel e 80% de diesel comum) será utilizado para alimentar a frota de locomotivas, máquinas e os equipamentos de grande porte da Petrobras no Brasil. Esse biocombustível tem mais biodiesel que a mistura padrão brasileira, de 5%.

 

A mineradora também fomenta, por meio do Instituto Tecnológico, o desenvolvimento de novas técnicas que ainda estão em fase experimental. É o caso da produção de biocombustíveis de segunda geração pelo processo bioquímico enzimático e de síntese biológica.

 

Nessa área, uma das pesquisas mais avançadas é desenvolvida pela Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Universidade de Tingshua, na China, para a criação de um novo processo de utilização de enzimas na produção de biodiesel. A tecnologia será testada em usina piloto, a ser instalada no Instituto Internacional de Mudanças Globais (IVIG), e os pesquisadores da Coppe avaliarão os custos de produção de biodiesel com o uso dessa tecnologia, com base na realidade brasileira. Uma das vantagens é o melhor aproveitamento do óleo e seus resíduos. Segundo Luiz Pingueli Rosa, diretor da Coppe, a ideia é quebrar a hegemonia da soja na produção do biodiesel.

 

“A enzima permite processar uma variedade maior de insumos como o dendê que tem uma vantagem energética maior, com mais produtividade por hectare”, observa Rosa. Outro projeto, na área de biocombustíveis, desenvolvido no Brasil pela Coppe, em parceria com o Instituto de Química da UFRJ, também já suscitou o interesse dos chineses. Trata-se da produção de etanol a partir do bagaço de cana, que vai permitir duplicar a produtividade do etanol sem ser necessário aumentar a área plantada ou competir com a produção do açúcar ou qualquer outro alimento.

 

Na Coppe, o projeto está sendo desenvolvido por pesquisadores do IVIG. Eles querem combinar seu conhecimento sobre biodiesel com o do Instituto de Química sobre hidrólise, um processo químico estudado por diferentes grupos de pesquisa no Brasil, devido a sua aplicação na produção de etanol.

 

O Instituto Nacional de Tecnologia também participa do projeto e integra um consórcio com uma empresa brasileira para disputar os recursos de uma chamada lançada pelo BNDES e a Finep no âmbito do Plano Conjunto BNDES/Finep de Apoio a Inovação Industrial dos setores sucroalcooleiro e sucroquímico (PAISS). Segundo Viridiana Santana Ferreira, pesquisadora do INT, o instituto estuda o uso do bagaço e da palha da cana para geração de biocombustivel por meio do processo de pré-tratamento e hidrólise enzimática. Esse processo vem sendo procurado por empresas estrangeiras interessadas nas pesquisas.

 

“Após os testes na planta piloto, que entrará em produção em 2012, a ideia é chegar na escala de demonstração que resultará na criação de uma mini usina de segunda geração. Ela será instalada ao lado de uma usina de primeira geração”, adianta.

 

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) é outro instituto que participa de consórcio para disputar os recursos do PAISS. Segundo Jaime Finguerut, gerente de desenvolvimento estratégico industrial, o CTC iniciou os estudos dos processos bioquímicos em 1997 em parceria com a Dedini. A linha adotada na época, baseada no uso de ácido como catalisador, não se mostrou economicamente viável.

 

Em 2007, os pesquisadores passaram a estudar o processo enzimático em parceira com a NovoZymes, fornecedora de enzimas. Pelo acordo, o CTC desenvolve o processo e a empresa, as enzimas adequadas. “O CTC já completou todo o processo em escala piloto. Agora, está trabalhando na engenharia da planta de demonstração que deverá ficar pronta em 2012. A expectativa é que o projeto trabalhe em escala industrial em 2014″, explica Finguerut.

Fonte: Valor Econômico


6 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Etanol – incertezas e indefinições

Artigo de Antônio Buainain e José da Silveira publicado no jornal O Estado de S. Paulo de hoje (6).

Há poucos anos o Brasil, eufórico, oferecia ao mundo o combustível verde de cana-de-açúcar, cujas vantagens ambientais e econômicas sobre os “similares” são tamanhas que nem as barreiras ao comércio poderiam nos afastar do destino de vir a ser a Arábia Saudita do biocombustível. Hoje o clima é outro: desde 2008 o setor entrou numa conjuntura de incertezas e indefinições que ao menos nos faz pensar se seremos capazes de levar adiante tal projeto.

Os consumidores se sentem enganados com o aumento do preço do etanol e as ameaças ao abastecimento; especialistas indicam, com ironia, que o País batalhou para criar o mercado internacional de álcool combustível de olho no potencial exportador, mas hoje é o maior importador de etanol de milho americano, produzido com base nos subsídios contra os quais temos lutado. Oscilações de preços e importações estabilizadoras são movimentos normais em mercados abertos, mais ainda no caso de um produto cuja produção depende de condições ambientais. O anormal é achar que os problemas se corrigirão por si sós, pela ação do mercado.

O mercado de energia, por ser estratégico, é fortemente condicionado pela política, pelos marcos regulatórios e instituições que formam as regras do jogo e definem investimentos cuja viabilidade depende da convergência de ações de múltiplos agentes. Embora o carro bicombustível tenha aumentado a flexibilidade do consumidor, isso não significa adesão perpétua nem disposição a pagar mais pelo veículo para o consumo apenas eventual do etanol. E em mercados complexos uma simples mudança de percepção do consumidor pode ser o detonador de um efeito dominó de grandes proporções.

As causas da situação atual são claras: redução do crescimento após 2008, de 10% ao ano, de 2000 a 2008, para menos de 3%, em 2009-2010; retração de investimentos em expansão de capacidade produtiva; elevação de custos de produção da cana-de-açúcar; problemas climáticos nas últimas duas safras; e queda de produtividade decorrente da perda de eficiência produtiva associada ao crescimento acelerado do período anterior e à contenção de custos que sacrifica adubação, renovação de canaviais, etc. O comportamento errático do governo em relação ao setor, marcado por algumas intervenções equivocadas e outras tardias, indica incompreensão da importância do setor, cujo crescimento sustentável não pode ser improvisado, mas pode ser facilmente comprometido por medidas casuísticas determinadas por motivações de curto prazo descoladas de uma visão estratégica.

A viabilidade do etanol depende da remuneração e atração dos investimentos na produção de cana-de-açúcar e na indústria, necessários para atender à crescente demanda mundial de açúcar, etanol e energia e para consolidar a bioenergia como um dos principais eixos de desenvolvimento do País. Em todo o mundo, os investimentos que constroem o futuro desejado são favorecidos com incentivos institucionais, incluindo reduções de impostos. O Brasil continua na contramão. Enquanto nos EUA e na União Europeia o etanol é subsidiado, aqui os impostos correspondem em média a 31% do preço do etanol na bomba e 42% da gasolina. A pequena diferença não reflete as reconhecidas externalidades ambientais, sociais e de saúde pública que o próprio governo usou em sua cruzada a favor do etanol. A diferenciação tributária poderia ser adotada de imediato, e contribuiria para melhorar a competitividade do setor.

Para dar segurança ao produtor de etanol, é preciso definir e manter regras claras, transparentes e estáveis para a formação do preço da gasolina, para a estrutura de impostos sobre os combustíveis e para o conjunto de regras que pautam o funcionamento do setor. É imperativo criar condições reais para a inovação tecnológica, sem a qual será impossível assegurar a viabilidade do biocombustível. Basta um exemplo: o orçamento da Embrapa bioenergia é inferior a 1/10 dos recursos aplicados pela Monsanto ou Syngenta apenas na pesquisa em cana-de-açúcar.

Antônio Buainain e José da Silveira são professores do Instituto de Economia da Unicamp (buainain@eco.unicamp.br /jmsilv@eco.unicamp.br).

Fonte: Jornal da Ciência


29 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Paraná desperdiça a “eletricidade de cana”

O Paraná tem condições de erguer um parque gerador de energia de até 600 megawatts (MW) a partir da queima da biomassa (no caso, o bagaço) da cana-de-açúcar. Esse potencial, originado a partir de uma fonte renovável de energia, equivale a pouco menos da capacidade de uma turbina de Itaipu – cada uma das 20 máquinas da usina tem 700 MW – e poderia gerar eletricidade suficiente para as cidades de Curitiba e São José dos Pinhais, que juntas têm cerca de 2 milhões de habitantes.

O setor sucroalcooleiro do estado, entretanto, ainda não se preparou para aproveitar esse tipo de geração. Apenas seis das 30 usinas em operação no Paraná produzem, a partir da biomassa, mais energia elétrica do que consomem, vendendo o excedente para a rede de distribuição. Em 2010, as usinas do grupo Alto Alegre (nas cidades de Santo Inácio e Colorado) e as do Santa Terezinha (em Paranacity, Itapejara, Cidade Gaúcha e Terra Rica) geraram 1,2 mil megawatts-hora (MWh), revendendo aproximadamente um terço dessa energia para distribuidoras.

Segundo o superintendente da Associação dos Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (Alcopar), José Adriano da Silva Dias, a falta de capital é o principal entrave para novos investimentos na geração de energia – os atuais equipamentos são capazes de gerá-la, mas são antigos e pouco eficientes.

“O bagaço, que era um resíduo, hoje é um subproduto. Mas para produzir energia é preciso readequar as fábricas [usinas]. O aumento na eficiência é para fazer sobrar bagaço e poder gerar energia excedente, mas isso tudo é investimento, e cada usina tem uma capacidade de endividamento diferente”, explica. Segundo Dias, alguns grupos acabam optando por investir o capital disponível para outras finalidades, como o aumento da área plantada ou outros equipamentos.

“É [necessário] muito dinheiro, esse é o problema. Para assinar um projeto desses há uma série de exigências, como capacidade de endividamento e de moagem de cana, para tornar o projeto viável. Vai da prioridade de cada um”, resume.

O potencial de energias renováveis para o setor de cana no Paraná foi calculado com base na safra de 2009 pela Diretoria de Engenharia da Companhia Paranaense de Energia (Copel). No início deste ano, a empresa abriu uma chamada pública para exposição de projetos de geração de energias renováveis – biomassa, eólica e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) – nos quais a companhia poderia se tornar sócia.

Há cerca de três meses, durante uma conferência com analistas e investidores, o presidente da Copel, Lindolfo Zimmer, revelou que a empresa tem em mãos “mais de uma centena de proposições” para projetos de parcerias. Mas a empresa disse que não poderia, por regras de mercado, informar quantos projetos são de biomassa.

Fonte: Gazeta do Povo/PR


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Floresta intercalada a plantações de cana reduz emissões de CO2

O Brasil precisa ter áreas significativas de florestas ao redor das plantações de cana para ter mais eficiência no sequestro de carbono.

Essa é a conclusão de um grupo de cientistas liderado pelo biólogo da USP Marcos Buckeridge, diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia.

Em artigo aprovado pela revista Global Change Biology Bioenergy, ele e colegas afirmam que áreas florestais intercaladas com a cana, técnica batizada de caminho de meio, reduziria o impacto da produção quanto às emissões de carbono.

Isso aconteceria principalmente onde ainda são feitas queimadas após a colheita.

EMISSÕES

Hoje, 75% das emissões de carbono do Brasil vêm da atividade agropecuária.

A cana consegue absorver cerca de 7,4 toneladas de carbono por hectare a cada ano.

Em média, estima-se que a plantação emita 800 kg de carbono a mais por ano do que é capaz de absorver, por causa das emissões do transporte e da queima.

As florestas absorvem 17 vezes mais: 140 toneladas ao ano. Essa taxa é ainda maior nas florestas mais novas (de até 30 anos) e em fase de crescimento.

Os pesquisadores querem agora a área de floresta necessária para reduzir os impactos da produção.

Vamos levantar quantas florestas ainda existem na região dos canaviais de São Paulo para ver quanto mais teríamos de plantar, afirma Buckeridge.

Ele participou de um evento internacional da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) sobre Bioetanol, que vai até amanhã, em Campos do Jordão (SP).

O biólogo quer calcular quanto carbono é armazenado por esses fragmentos de floresta e analisar os benefícios que a presença de áreas florestadas podem trazer ao cultivo.

Esse trabalho será feito em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e deve ficar pronto em dois meses.

É uma pena não termos os dados antes da votação do Código Florestal [que tramita no Senado].

O novo código prevê a redução de áreas florestais para aumentar atividade agropecuária em regiões como margens de rios.


Fonte: Sabine Righetti, enviada a Campos de Jordão(SP), Folha.com


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


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20 de maio de 2013 | nenhum comentário »

Proposta de plantio de cana na Amazônia é aprovada em comissão do Senado

O Senado aprovou nesta terça-feira projeto que autoriza o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, em áreas desmatadas. O objetivo da proposta, atacada por ambientalistas, é ampliar a produção de biocombustíveis no país –especialmente o etanol.

Além das terras desmatadas, o projeto também autoriza o plantio da cana nos biomas cerrado e campos gerais da Amazônia. Como foi aprovado em caráter terminativo pela Comissão de Meio Ambiente do Senado, segue para votação na Câmara se não houver recurso para ser votado em plenário.

Autor do projeto, o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) defende o plantio na Amazônia para estimular a produção de biocombustíveis. Ele diz que decreto editado em 2009 pelo governo federal aprovou o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar no país, mas excluiu a Amazônia –área que, segundo ele, tem o potencial para o plantio por ter terras desmatadas e biomas de cerrado e campos gerais.

“A conseqüência para essas regiões foi imediata: o produtor não pode receber crédito rural para o plantio da cana-de-açúcar, não se pode implantar usinas de produção de açúcar e etanol nessas regiões e, tão maléfico quanto essa vedação, as mencionadas regiões ficarão alijadas da possibilidade de exportar etanol”, afirmou o senador.

O projeto determina que o plantio deve observar critérios como a proteção ao meio ambiente, a conservação da biodiversidade e uso de tecnologia apropriada. O texto também fixa como regra a utilização dos recursos naturais e a ocupação prioritária de áreas degradadas ou de pastagens —mas não fixa regras para fiscalização ou punições a quem desrespeitar o projeto.
A proposta também determina que o plantio considere as normas do Código Florestal, aprovado no ano passado pelo Congresso.

A única regulamentação mencionada no projeto é para a concessão de crédito rural e agroindustrial para o cultivo da cana, o que deve ser feito após a sua aprovação.

DIVISÃO

Relator do projeto na comissão, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO) defendeu a sua aprovação por considerar que a expansão do cultivo da cana em bases “sustentáveis” vai permitir o aumento da produção de etanol. “É um importante biocombustível da matriz energética nacional e menos poluente que os combustíveis fósseis”, afirmou.

Contrário à aprovação do projeto, o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) disse que a autorização do plantio da cana deveria ser mantida, já que a área foi excluída do zoneamento ecológico feito pela Embrapa.

 

Fonte: Folha.com


21 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Cai o uso de energia renovável no Brasil, diz IBGE

Estudo também mostra queda no desmatamento e na poluição urbana

Segundo um novo estudo do IBGE, o Brasil está usando menos energia renovável. O trabalho mostra que, em 2010, 45,5% da energia utilizada no Brasil vinha de fontes renováveis, como hidrelétricas e derivados da cana-de-açúcar. A porcentagem é menor do que nos dois anos anteriores: em 2009, 47,2% da energia usada no país vinha dessas fontes e, em 2008, o índice foi 45,9%. Esse tipo de fonte pode fornecer energia continuamente, se usado de modo sustentável.

A estatística faz parte do estudo Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, lançado pelo IBGE nesta segunda-feira. A queda no uso dessas fontes de energia vai contra uma tendência de crescimento que vinha desde 2001, quando o índice era menor do que 40%. Entre os responsáveis por essa mudança, está uma menor participação dos derivados de cana-de-açúcar, que caíram de 18,2% para 17,8%, e da energia hidráulica, que foi de 15,2% para 14%. Ao mesmo tempo, subiu o uso do gás natural e do carvão mineral no país.

Camada de ozônio — Apesar disso, o estudo traz alguns dados mais animadores. Ele mostra que, por exemplo, o país conseguiu reduzir o consumo de substâncias destruidoras da camada de ozônio. O Brasil superou, inclusive, as metas estabelecidas no Protocolo de Montreal, que foi firmado por mais de 150 países em 1987. Segundo o IBGE, o consumo desses compostos caiu de 11.099 t PDO (toneladas de Potencial de Destruição da Camada de Ozônio), em 2000, para 1.208 t PDO em 2010. Essa tendência é clara desde o final dos anos 90.

Além disso, o estudo mostra que caiu quase pela metade o número de focos de queimadas e incêndios nas florestas brasileiras entre 2010 e 2011. O número caiu de 133.133 para 61.687. A área desflorestada da Amazônia se aproxima de 20% da área da florestal original.

Poluição — O estudo também avaliou a qualidade do ar nas cidades brasileiras e mostrou que houve uma melhora, apesar de ainda estar abaixo do ideal. Segundo a pesquisa, caiu o nível de partículas totais em suspensão e de partículas inaláveis na maioria das cidades. Parte desse resultado pode ser explicado pelo controle maior na emissão dos veículos. Esse valor, no entanto, ainda é mais alto do que o recomendado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente em cidades como Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória, além do Distrito Federal.

Se as cidades viram uma pequena melhora, o mesmo não se pode dizer dos rios. Eles não chegaram a ficar mais poluídos, mas continuaram igualmente sujos. Segundo o estudo, as fontes de água doce do país ainda têm muitas substâncias orgânicas e baixo índice de qualidade. Os casos mais graves são os do Tietê, em São Paulo, e do Iguaçu, em Curitiba. O estudo aponta a falta de tratamento dos esgotos como responsável pela poluição dos rios.

Moradia — Por fim, a pesquisa também mostrou que o número de domicílios considerados adequados tem crescido no país. Para chegar a esse valor, os pesquisadores consideraram a densidade de moradores na casa, a coleta de lixo, o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. De 1992 a 2009, o índice de casas adequadas foi de 36,8% para 56,8%. No Distrito Federal este valor alcançou 80,6% e em São Paulo 76,8%. Em Rondônia e Alagoas, no entanto, os percentuais foram de 11,9% e 21,1%, respectivamente.

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Usina Hidrelétrica de Itaipu. A porcentagem de energia hidráulica usada no país caiu no último ano. Imagem: Veja Ciência

A coleta de lixo está presente em 87,9% das casas, enquanto o abastecimento de água atinge 84,4%. A quantidade do esgotamento sanitário é mais preocupante. Em 2008 o índice de domicílios com esgoto era 73,2%, mas caiu para 72,3% em 2009.

Fonte: Veja Ciência


13 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Vexame ambiental, artigo de Xico Graziano

Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de ontem (12).

Que Código Florestal, nada. O grande fiasco brasileiro na Rio+20 se esconde no etanol. O país que ensinou ao mundo como trocar a gasolina fóssil pelo álcool renovável engata marcha ré na utilização do combustível limpo. Um vexame ambiental.

 

Pode-se comprovar facilmente esse retrocesso na bioenergia. Em 2011, o consumo dos combustíveis derivados de petróleo – gasolina principalmente – cresceu 19%, enquanto o uso do etanol nos veículos despencou 29%. Não precisa dizer mais nada. Anda na contramão da história a matriz energética dos transportes no Brasil.

 

Aconteceu que os consumidores reagiram ao desequilíbrio de preços a favor da gasolina. Duas razões básicas explicam a mudança do mercado. Primeiro, o governo federal tem reduzido o encargo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, taxa que nos últimos anos recuou de 14% para 2,6%. Em consequência, acabaram praticamente equiparados os custos tributários de ambos os combustíveis. Uma política moderna de sustentabilidade, como buscada em todo o mundo, procederia ao contrário, ou seja, reduziria a carga tributária sobre o biocombustível, não sobre o derivado de petróleo.

 

Trata-se, obviamente, de uma decisão política, arcada pelo governo federal desde 2002. Com a redução da referida taxa, a Petrobrás, que normalmente deveria ter elevado o preço dos derivados de petróleo para manter sua competitividade global, se compensa pela perda de rentabilidade recolhendo menos imposto ao governo. Tudo dissimulado. Conta paga pela sociedade.

 

Em segundo lugar, a gasolina barata segura, obviamente, o preço do etanol na bomba, roubando margem dos produtores. Pouco lucrativa, a atividade alcooleira vê sua matéria-prima se direcionar para a fabricação de açúcar, movimento que se observa há tempos nas usinas. Bastante rentável no mercado internacional, o açúcar estimula a pauta das exportações. Resultado: a oferta de etanol se retrai, tendendo a elevar seu preço no posto de combustível, espantando a freguesia. Elementar.

 

O Brasil produziu cerca de 28 bilhões de litros de etanol nesta última safra (2010/2011). Nos EUA o volume já ultrapassou 50 bilhões de litros. Incrível. O país que inventou o Proálcool, obtido a partir da cana-de-açúcar, está tomando poeira dos gringos, que destinam 40% de sua safra de milho para a fermentação alcoólica. Mais ainda. A necessidade de manutenção de estoques confiáveis começou a exigir volumosas importações de etanol. Sabem de quem? Dos norte-americanos, claro. No ano passado, o Brasil comprou acima de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA. Acredite se quiser.

 

Não é à toa que paira desilusão no setor sucroalcooleiro. Estimulados pela agenda da economia verde, nos transportes viabilizada definitivamente com a geração dos motores flex fuel, inéditos e fortes grupos, nacionais e multinacionais, entraram na atividade. Anunciaram planos formidáveis que, após quatro anos, micaram, roubando o fôlego do parque alcooleiro. Notícia ruim chega dos canaviais. E quem pensa que é chororô de usineiro se engana feio. Corretores garantem que 20% das usinas do Centro-Sul estão à venda. Sem comprador. As chamadas greenfields, novas plantas a serem construídas, em vários Estados, ficaram no papel. O pouco dinamismo existente advém da ampliação e modernização de fábricas já instaladas. Passos de tartaruga no etanol.

 

Milhares de estudiosos, ambientalistas e jornalistas se encontrarão logo mais na Rio+20. O governo brasileiro fará ginástica para justificar o inexplicável. Enquanto as nações se debruçam para encontrar soluções capazes de esverdear sua (suja) matriz energética, por aqui se desperdiça uma oportunidade de ouro, retrocedendo no uso do combustível renovável.

 

Os produtores de cana-de-açúcar e os usineiros de etanol, por sua vez, lançaram por aqui o Movimento Mais Etanol, querendo influenciar a mídia e sensibilizar o governo para sua agenda. Eles se propõem a dobrar de tamanho até 2020 – o que, ademais, geraria 350 mil empregos diretos -, mas precisam viabilizar uma estratégia de política pública que devolva ao etanol a competitividade roubada pelo controle dos preços da gasolina. Basta, de cara, reduzir a carga tributária sobre o biocombustível.

 

Gasolina barata e etanol caro acabam criando um círculo vicioso contra o meio ambiente, prejudicando a saúde pública. Segundo a Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA, na sigla em inglês), o etanol derivado da cana-de-açúcar pode ajudar a reduzir até 91% o efeito estufa da Terra, quando comparado com as emissões advindas da queima de gasolina. Mas, curiosamente, o ambientalismo pouca bola dá para essa tragédia da poluição urbana. O foco de sua ferrenha atuação, conforme se verificou na questão do novo Código Florestal, mira no assunto da biodiversidade. Contra o desmatamento.

 

A intolerância dos ambientalistas agride os agricultores, como se do campo partisse todo o mal contra a natureza. Citadinos, eles poupam as desgraças ecológicas provocadas pela urbanização, a começar pelos escapamentos veiculares. Novos estímulos públicos ao setor automobilístico favoreceram agora as montadoras. Nenhum compromisso ambiental se firmou. Pouco importa, tristemente, aos radicais verdes.

 

Tal miopia do movimento ambiental, infelizmente, ajudará o governo a esconder, na Rio+20, o retrocesso na agenda do etanol. Seria interessante, aliás, como subproduto da reunião, discutir para onde caminha o ambientalismo brasileiro.

 

A incrível capacidade fotossintética do Brasil garante enorme vantagem na produção de biocombustível, energia renovável misturada com geração de empregos. Desprezá-la significa maltratar o etanol, um filho da Pátria.

 

* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

Fonte: Jornal da Ciência

 


23 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Recuperação de áreas de preservação permanente divide opiniões

As APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Onde hoje se vê mata fechada, só havia cana-de-açúcar dez anos atrás. Em uma fazenda foram plantadas quase um milhão de mudas de árvores para recuperar as áreas de preservação permanente.

APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Uma usina perdeu área de plantio de cana, mas conquistou o certificado de produção sustentável, valorizando a empresa no mercado internacional. “Ganhamos na exportação de álcool e de açúcar. O pessoal lá de fora quer saber se está fazendo preservação”, afirma Ricardo Ometto.

Em Iracemápolis, no interior de São Paulo, o desrespeito à APP deixou a represa que abastece o município desprotegida. Resultado: em 1985, a cidade ficou sem água. A área precisou ser recuperada em regime de urgência.

O plantio da cana-de-açúcar que ia até a beira da represa teve que recuar 100 metros. No local, foram plantadas árvores nativas. Nunca mais Iracemápolis teve problema de abastecimento de água.

Iracemápolis e a usina de cana são dois exemplos dos benefícios e da necessidade de se cuidar bem das APPs. O projeto do novo Código Florestal saiu da Câmara sem garantias de recuperação das APPs desmatadas antes de julho de 2008.

No Senado, a proposta evoluiu para assegurar que deve ser de 15 metros a faixa mínima de vegetação a ser recuperada às margens dos rios com até dez metros de largura. E os conselhos estaduais de meio ambiente ganham poder para ampliar a faixa de recuperação da mata ciliar, de acordo com as necessidades de cada área. No caso dos rios mais largos, pode chegar a 100 metros de extensão.

“Cabe à União Federal o estabelecimento de regras gerais para o país inteiro, mas o nosso país é um continente. Precisamos chamar os estados à responsabilidade de nos ajudar a fazer essa harmonia entre produção e conservação do meio ambiente”, afirmou o senador Jorge Viana (PT-AC), relator.

Uma das principais preocupações dos ambientalistas e da comunidade científica é garantir no Código Florestal a preservação das nascentes e córregos intermitentes que fornecem água apenas durante uma parte do ano, mas que são fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente.

O texto em debate no Senado ainda não garante a preservação das nascentes. Os ambientalistas vão apresentar uma emenda para resolver o problema. “A ideia é que se tenha um mínimo de 30 metros para as nascentes, os olhos d’água e demais rios. Isso é importante porque, como está previsto na regra que veio da Câmara, nascentes e os olhos d’água não teriam qualquer tipo de recuperação. O seria um absurdo porque é dali que nascem os rios”, explica Tasso Azevedo, ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) resiste à mudança, porque diz que ela atingiria pequenos e médios produtores. “Acho que seria interessante, por exemplo, excluirmos o plantio extensivo de milho, de algodão, de soja e abrir mão apenas para os pequenos e médios agricultores que têm uma pequena roça, uma pequena horta e uma pequena pastagem, uma campineira para seu gado de leite”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente do CNA.

Os ruralistas também não aceitam a retirada do gado das encostas dos morros, um ponto defendido pelos ambientalistas. “Gado e APP são duas coisas que se pudessem ser evitadas seria extremamente importante. O casco do gado gera um peso muito grande. Em geral, gera erosão, além de contaminar a água”, alerta Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama.

A pecuária é o principal uso da terra no Brasil. São 200 milhões de hectares de pastagem. A agricultura ocupa 65 milhões de hectares. A longo prazo, a solução é aumentar a produtividade da pecuária, inferior a uma cabeça de gado por hectare. Nas APPs à beira de rios, muitas áreas hoje ocupadas pelo gado poderiam ser restauradas sem grandes investimentos.

Há quatro anos, toda a área de uma propriedade era ocupada pelo pasto. Bastou tirar o gado para ver que as árvores cresceram naturalmente. A técnica pode ser aplicada com sucesso em 80% do país.

“Isso acontece na Amazônia, no Brasil central com os cerrados e em várias situações. Só 20% delas que foram muito degradadas historicamente é que, efetivamente, vão precisar de um investimento maior com o plantio de mudas”, explica Ricardo Rodrigues, professor – Esalq – USP.

Click e veja o vídeo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/11/recuperacao-de-areas-de-preservacao-permanente-divide-opinioes.html

Fonte: G1, Jornal Nacional


14 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Negócios e pesquisa em energia eólica no Brasil

Artigo de Alexandre Street, Delberis Lima e Bruno Fânzeres no Valor Econômico de sexta-feira (11).

No Brasil, as três principais fontes alternativas de energia elétrica são as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), a cogeração com biomassa derivada do bagaço da cana e a eólica, que há pouco ressurgiu com um forte papel. Elas são denominadas alternativas em relação às principais fontes convencionalmente utilizadas – as grandes usinas hidrelétricas e termelétricas.

 

Investir em fontes alternativas é positivo pois implica aumentar a diversidade da matriz energética brasileira. Ademais, tais fontes de energia também recebem o valioso sobrenome renovável, especialmente positivo por aproveitar os recursos naturais que podem ser renovados pela própria natureza no curto prazo.

 

Entre 2005 e 2010, foram realizados 14 leilões destinados à compra de contratos oriundos de novos empreendimentos de geração. Dos 18.500 megawatts médios (MWmed) negociados, 3.500 (19%) eram provenientes de fontes alternativas renováveis: 1% de PCHs, 9% de eólicas e 9% de biomassa da cana.

 

Contudo, esse montante contratado de energia eólica é proveniente sobretudo dos leilões realizados em 2009 e 2010, quando foram negociados 780 MWmed a um preço médio de R$ 148,39/MWh, e 1.160 MWmed, a R$ 130,86/MWh. Esse resultado positivo seguiu sendo observado nos leilões A-3 e de reserva deste ano, quando as eólicas surpreenderam o mercado movimentando quase 2.300 MWmed a um preço médio inferior a 100 R$/MWh.

 

Os dois principais fatores para o avanço significativo do interesse pela energia eólica são: 1) a crise mundial, que tornou o Brasil a válvula de escape dos fabricantes do mundo todo, aumentando o poder de negociação dos nossos investidores, o que faz o preço dos equipamentos caírem; e 2) recentes ajustes regulatórios, como incentivos fiscais e desenhos de contratos específicos para essa fonte, feitos para mitigar os riscos dos investidores.

 

Nos últimos três anos, contratos com cláusulas especiais foram utilizados a fim de mitigar o risco financeiro decorrente da grande incerteza e sazonalidade do insumo vento. Além disso, foi criada uma cláusula que trata da necessidade de comprar o montante contratado e não produzido ao preço de curto prazo, o temido preço de liquidação de diferenças (PLD).

 

Os geradores temem vender energia ao PLD, pois este é muito volátil, podendo chegar a valer até seis vezes o preço do contrato em tempos de crise, causando, nessas situações, uma grande perda financeira ao gerador que contratou de mais e produziu de menos. Por outro lado, na maior parte do tempo existe excesso de água nos reservatórios. Isso proporciona um PLD, que no Brasil é calculado como o custo de oportunidade do uso da água, muito baixo. Assim, vender energia sem um contrato, ao PLD, também não é boa ideia.

 

Dentre as mudanças realizadas no contrato padrão, o chamado contrato de quantidade, está a possibilidade de comprar a diferença entre o contratado e o produzido ao preço do próprio contrato. Todos esses ajustes acarretaram em um ambiente menos arriscado aos investidores e impulsionaram a viabilização dessa fonte no ambiente de contratação regulado (ACR), onde os geradores vendem contratos para as distribuidoras através de leilões.

 

Contudo, existe outro mercado em que a eólica ainda não conseguiu se firmar: o ambiente de contratação livre (ACL). O ACL é um mercado do tipo balcão, onde contratos bilaterais são livremente negociados entre geradores e grandes consumidores como shoppings, supermercados e indústrias. Aí são negociados contratos de quantidade, sem o alívio da cláusula que obriga o gerador a comprar, a PLD, o déficit de produção com relação ao montante contratado.

 

A dificuldade que as eólicas sofrem no ACL não é exclusiva a essa fonte. As PCHs, com a alternância entre períodos secos e úmidos, e as usinas a biomassa, que produzem energia em função da safra da cana, também sofrem com a sazonalidade dos seus recursos e enfrentam os mesmos desafios ao vender contratos de quantidade nesse ambiente.

 

Mas a história não termina aí. O regime sazonal dos recursos, tanto da biomassa quanto da eólica, é fortemente complementar ao regime das hidrelétricas. No período de seca dos rios do Sudeste é quando venta no Nordeste e quando as usinas a biomassa do Sudeste e Centro-Oeste estão a todo vapor devido à safra da cana; a situação se inverte na outra metade do ano, no período úmido das hidrelétricas. Assim, a complementaridade entre os recursos renováveis aponta para uma nova possibilidade de negócio em um ambiente com grande crescimento e muito rentável, o ACL.

 

Ainda como uma prática incipiente, comercializadoras e grandes holdings de geração começam a criar carteiras otimizadas dessas fontes renováveis para revendê-las conjuntamente, mitigando o elevado risco financeiro de cada fonte. Esse movimento é apenas uma vertente de um conjunto de pesquisas que estão sendo realizadas neste momento pelos investidores através de universidades e empresas de consultoria.

 

Muitos outros desafios ainda devem ser vencidos para consolidar e atrair de modo sustentável o investimento em geradores eólicos no Brasil. Por exemplo: desafios regulatórios, como o desenho de leilões e a criação de mecanismos de troca de energia entre as usinas para mitigar a incerteza na geração; desafios no âmbito elétrico, como o dimensionamento das redes para receber uma injeção de potência variável ao sabor dos ventos; climatológico/estatísticos, como a previsão, certificação e simulação das velocidades dos ventos; e tecnológicos, como a tropicalização dos equipamentos para que se adaptem à realidade nacional.

 

Esses temas fazem parte de uma ampla área de pesquisa em que grupos isolados começam a atuar. Contudo, a criação de uma rede de pesquisa nacional, que gerencie de maneira coordenada e sinérgica a pesquisa de temas estratégicos para o segmento, é a principal arma para aproveitar e manter aberta a janela única de oportunidade que o Brasil vive: alto poder de negociação com os fornecedores e interesse das entidades reguladoras em desenvolver o segmento.

 

Alexandre Street e Delberis Lima são professores do Departamento de Engenharia Elétrica do CTC/PUC-Rio. Bruno Fânzeres é aluno de Iniciação Científica do CTC/PUC-Rio.]

Fonte: Jornal da Ciência


16 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Laboratórios focam o biocombustível de segunda geração

Avançam no País os estudos para o desenvolvimento de novas técnicas para a produção de biocombustíveis de segunda geração, aqueles produzidos a partir de biomassa e não por meio da fermentação do açúcar da cana.

Há duas rotas de desenvolvimento: os processos bioquímico e termoquímico. A mais avançada é a pesquisa de processos termoquímicos por meio da queima com pouco oxigênio do bagaço e da palha da cana.

 

Universidades e institutos de pesquisas, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), com apoio de empresas como Braskem, Oxiteno, Raizen (Shell e Cosan), Petrobras e Vale estão investindo em uma planta de gaseificação no campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba. O projeto exigirá investimentos de R$ 80 milhões – R$ 70 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Governo de São Paulo e R$ 10 milhões das empresas.

 

“Estamos negociando a propriedade intelectual com as empresas, um ponto fundamental para o BNDES, que pré-aprovou o projeto, liberar o financiamento”, diz Fernando Landgraf, diretor de inovação do IPT. O processo permitirá dobrar a produção de biocombustíveis como o etanol em menor área de plantio por aproveitar o bagaço e a palha da cana, que representam dois terços da parte sólida do vegetal.

 

“Cada empresa que está apoiando o projeto tem um interesse específico”, diz Landgraf. A Vale está de olho em todos os compostos que possam ser utilizados como fonte de energia, explica Ivo Fouto, diretor responsável pelos assuntos ligados a biocombustíveis na Vale e presidente da Biopalma. Esta vai atuar na produção de biodiesel a partir do óleo de dendê cultivado na região do Vale do Acará e Baixo Tocantins, abrangendo sete municípios no estado do Pará. Em janeiro, a Vale adquiriu participação de 70% do controle da Biopalma por US$ 173,5 milhões.

 

Segundo Fouto, a empresa já realizou a metade do plantio e a primeira das seis unidades de extração começa a operar no fim do ano. A planta de produção de biodiesel começa a funcionar em 2014. A expectativa é de atingir a produção anual de 500 mil toneladas em 2019, quando a lavoura atingir sua maturidade. O B20 (mistura de 20% de biodiesel e 80% de diesel comum) será utilizado para alimentar a frota de locomotivas, máquinas e os equipamentos de grande porte da Petrobras no Brasil. Esse biocombustível tem mais biodiesel que a mistura padrão brasileira, de 5%.

 

A mineradora também fomenta, por meio do Instituto Tecnológico, o desenvolvimento de novas técnicas que ainda estão em fase experimental. É o caso da produção de biocombustíveis de segunda geração pelo processo bioquímico enzimático e de síntese biológica.

 

Nessa área, uma das pesquisas mais avançadas é desenvolvida pela Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Universidade de Tingshua, na China, para a criação de um novo processo de utilização de enzimas na produção de biodiesel. A tecnologia será testada em usina piloto, a ser instalada no Instituto Internacional de Mudanças Globais (IVIG), e os pesquisadores da Coppe avaliarão os custos de produção de biodiesel com o uso dessa tecnologia, com base na realidade brasileira. Uma das vantagens é o melhor aproveitamento do óleo e seus resíduos. Segundo Luiz Pingueli Rosa, diretor da Coppe, a ideia é quebrar a hegemonia da soja na produção do biodiesel.

 

“A enzima permite processar uma variedade maior de insumos como o dendê que tem uma vantagem energética maior, com mais produtividade por hectare”, observa Rosa. Outro projeto, na área de biocombustíveis, desenvolvido no Brasil pela Coppe, em parceria com o Instituto de Química da UFRJ, também já suscitou o interesse dos chineses. Trata-se da produção de etanol a partir do bagaço de cana, que vai permitir duplicar a produtividade do etanol sem ser necessário aumentar a área plantada ou competir com a produção do açúcar ou qualquer outro alimento.

 

Na Coppe, o projeto está sendo desenvolvido por pesquisadores do IVIG. Eles querem combinar seu conhecimento sobre biodiesel com o do Instituto de Química sobre hidrólise, um processo químico estudado por diferentes grupos de pesquisa no Brasil, devido a sua aplicação na produção de etanol.

 

O Instituto Nacional de Tecnologia também participa do projeto e integra um consórcio com uma empresa brasileira para disputar os recursos de uma chamada lançada pelo BNDES e a Finep no âmbito do Plano Conjunto BNDES/Finep de Apoio a Inovação Industrial dos setores sucroalcooleiro e sucroquímico (PAISS). Segundo Viridiana Santana Ferreira, pesquisadora do INT, o instituto estuda o uso do bagaço e da palha da cana para geração de biocombustivel por meio do processo de pré-tratamento e hidrólise enzimática. Esse processo vem sendo procurado por empresas estrangeiras interessadas nas pesquisas.

 

“Após os testes na planta piloto, que entrará em produção em 2012, a ideia é chegar na escala de demonstração que resultará na criação de uma mini usina de segunda geração. Ela será instalada ao lado de uma usina de primeira geração”, adianta.

 

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) é outro instituto que participa de consórcio para disputar os recursos do PAISS. Segundo Jaime Finguerut, gerente de desenvolvimento estratégico industrial, o CTC iniciou os estudos dos processos bioquímicos em 1997 em parceria com a Dedini. A linha adotada na época, baseada no uso de ácido como catalisador, não se mostrou economicamente viável.

 

Em 2007, os pesquisadores passaram a estudar o processo enzimático em parceira com a NovoZymes, fornecedora de enzimas. Pelo acordo, o CTC desenvolve o processo e a empresa, as enzimas adequadas. “O CTC já completou todo o processo em escala piloto. Agora, está trabalhando na engenharia da planta de demonstração que deverá ficar pronta em 2012. A expectativa é que o projeto trabalhe em escala industrial em 2014″, explica Finguerut.

Fonte: Valor Econômico


6 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Etanol – incertezas e indefinições

Artigo de Antônio Buainain e José da Silveira publicado no jornal O Estado de S. Paulo de hoje (6).

Há poucos anos o Brasil, eufórico, oferecia ao mundo o combustível verde de cana-de-açúcar, cujas vantagens ambientais e econômicas sobre os “similares” são tamanhas que nem as barreiras ao comércio poderiam nos afastar do destino de vir a ser a Arábia Saudita do biocombustível. Hoje o clima é outro: desde 2008 o setor entrou numa conjuntura de incertezas e indefinições que ao menos nos faz pensar se seremos capazes de levar adiante tal projeto.

Os consumidores se sentem enganados com o aumento do preço do etanol e as ameaças ao abastecimento; especialistas indicam, com ironia, que o País batalhou para criar o mercado internacional de álcool combustível de olho no potencial exportador, mas hoje é o maior importador de etanol de milho americano, produzido com base nos subsídios contra os quais temos lutado. Oscilações de preços e importações estabilizadoras são movimentos normais em mercados abertos, mais ainda no caso de um produto cuja produção depende de condições ambientais. O anormal é achar que os problemas se corrigirão por si sós, pela ação do mercado.

O mercado de energia, por ser estratégico, é fortemente condicionado pela política, pelos marcos regulatórios e instituições que formam as regras do jogo e definem investimentos cuja viabilidade depende da convergência de ações de múltiplos agentes. Embora o carro bicombustível tenha aumentado a flexibilidade do consumidor, isso não significa adesão perpétua nem disposição a pagar mais pelo veículo para o consumo apenas eventual do etanol. E em mercados complexos uma simples mudança de percepção do consumidor pode ser o detonador de um efeito dominó de grandes proporções.

As causas da situação atual são claras: redução do crescimento após 2008, de 10% ao ano, de 2000 a 2008, para menos de 3%, em 2009-2010; retração de investimentos em expansão de capacidade produtiva; elevação de custos de produção da cana-de-açúcar; problemas climáticos nas últimas duas safras; e queda de produtividade decorrente da perda de eficiência produtiva associada ao crescimento acelerado do período anterior e à contenção de custos que sacrifica adubação, renovação de canaviais, etc. O comportamento errático do governo em relação ao setor, marcado por algumas intervenções equivocadas e outras tardias, indica incompreensão da importância do setor, cujo crescimento sustentável não pode ser improvisado, mas pode ser facilmente comprometido por medidas casuísticas determinadas por motivações de curto prazo descoladas de uma visão estratégica.

A viabilidade do etanol depende da remuneração e atração dos investimentos na produção de cana-de-açúcar e na indústria, necessários para atender à crescente demanda mundial de açúcar, etanol e energia e para consolidar a bioenergia como um dos principais eixos de desenvolvimento do País. Em todo o mundo, os investimentos que constroem o futuro desejado são favorecidos com incentivos institucionais, incluindo reduções de impostos. O Brasil continua na contramão. Enquanto nos EUA e na União Europeia o etanol é subsidiado, aqui os impostos correspondem em média a 31% do preço do etanol na bomba e 42% da gasolina. A pequena diferença não reflete as reconhecidas externalidades ambientais, sociais e de saúde pública que o próprio governo usou em sua cruzada a favor do etanol. A diferenciação tributária poderia ser adotada de imediato, e contribuiria para melhorar a competitividade do setor.

Para dar segurança ao produtor de etanol, é preciso definir e manter regras claras, transparentes e estáveis para a formação do preço da gasolina, para a estrutura de impostos sobre os combustíveis e para o conjunto de regras que pautam o funcionamento do setor. É imperativo criar condições reais para a inovação tecnológica, sem a qual será impossível assegurar a viabilidade do biocombustível. Basta um exemplo: o orçamento da Embrapa bioenergia é inferior a 1/10 dos recursos aplicados pela Monsanto ou Syngenta apenas na pesquisa em cana-de-açúcar.

Antônio Buainain e José da Silveira são professores do Instituto de Economia da Unicamp (buainain@eco.unicamp.br /jmsilv@eco.unicamp.br).

Fonte: Jornal da Ciência


29 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Paraná desperdiça a “eletricidade de cana”

O Paraná tem condições de erguer um parque gerador de energia de até 600 megawatts (MW) a partir da queima da biomassa (no caso, o bagaço) da cana-de-açúcar. Esse potencial, originado a partir de uma fonte renovável de energia, equivale a pouco menos da capacidade de uma turbina de Itaipu – cada uma das 20 máquinas da usina tem 700 MW – e poderia gerar eletricidade suficiente para as cidades de Curitiba e São José dos Pinhais, que juntas têm cerca de 2 milhões de habitantes.

O setor sucroalcooleiro do estado, entretanto, ainda não se preparou para aproveitar esse tipo de geração. Apenas seis das 30 usinas em operação no Paraná produzem, a partir da biomassa, mais energia elétrica do que consomem, vendendo o excedente para a rede de distribuição. Em 2010, as usinas do grupo Alto Alegre (nas cidades de Santo Inácio e Colorado) e as do Santa Terezinha (em Paranacity, Itapejara, Cidade Gaúcha e Terra Rica) geraram 1,2 mil megawatts-hora (MWh), revendendo aproximadamente um terço dessa energia para distribuidoras.

Segundo o superintendente da Associação dos Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (Alcopar), José Adriano da Silva Dias, a falta de capital é o principal entrave para novos investimentos na geração de energia – os atuais equipamentos são capazes de gerá-la, mas são antigos e pouco eficientes.

“O bagaço, que era um resíduo, hoje é um subproduto. Mas para produzir energia é preciso readequar as fábricas [usinas]. O aumento na eficiência é para fazer sobrar bagaço e poder gerar energia excedente, mas isso tudo é investimento, e cada usina tem uma capacidade de endividamento diferente”, explica. Segundo Dias, alguns grupos acabam optando por investir o capital disponível para outras finalidades, como o aumento da área plantada ou outros equipamentos.

“É [necessário] muito dinheiro, esse é o problema. Para assinar um projeto desses há uma série de exigências, como capacidade de endividamento e de moagem de cana, para tornar o projeto viável. Vai da prioridade de cada um”, resume.

O potencial de energias renováveis para o setor de cana no Paraná foi calculado com base na safra de 2009 pela Diretoria de Engenharia da Companhia Paranaense de Energia (Copel). No início deste ano, a empresa abriu uma chamada pública para exposição de projetos de geração de energias renováveis – biomassa, eólica e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) – nos quais a companhia poderia se tornar sócia.

Há cerca de três meses, durante uma conferência com analistas e investidores, o presidente da Copel, Lindolfo Zimmer, revelou que a empresa tem em mãos “mais de uma centena de proposições” para projetos de parcerias. Mas a empresa disse que não poderia, por regras de mercado, informar quantos projetos são de biomassa.

Fonte: Gazeta do Povo/PR


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Floresta intercalada a plantações de cana reduz emissões de CO2

O Brasil precisa ter áreas significativas de florestas ao redor das plantações de cana para ter mais eficiência no sequestro de carbono.

Essa é a conclusão de um grupo de cientistas liderado pelo biólogo da USP Marcos Buckeridge, diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia.

Em artigo aprovado pela revista Global Change Biology Bioenergy, ele e colegas afirmam que áreas florestais intercaladas com a cana, técnica batizada de caminho de meio, reduziria o impacto da produção quanto às emissões de carbono.

Isso aconteceria principalmente onde ainda são feitas queimadas após a colheita.

EMISSÕES

Hoje, 75% das emissões de carbono do Brasil vêm da atividade agropecuária.

A cana consegue absorver cerca de 7,4 toneladas de carbono por hectare a cada ano.

Em média, estima-se que a plantação emita 800 kg de carbono a mais por ano do que é capaz de absorver, por causa das emissões do transporte e da queima.

As florestas absorvem 17 vezes mais: 140 toneladas ao ano. Essa taxa é ainda maior nas florestas mais novas (de até 30 anos) e em fase de crescimento.

Os pesquisadores querem agora a área de floresta necessária para reduzir os impactos da produção.

Vamos levantar quantas florestas ainda existem na região dos canaviais de São Paulo para ver quanto mais teríamos de plantar, afirma Buckeridge.

Ele participou de um evento internacional da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) sobre Bioetanol, que vai até amanhã, em Campos do Jordão (SP).

O biólogo quer calcular quanto carbono é armazenado por esses fragmentos de floresta e analisar os benefícios que a presença de áreas florestadas podem trazer ao cultivo.

Esse trabalho será feito em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e deve ficar pronto em dois meses.

É uma pena não termos os dados antes da votação do Código Florestal [que tramita no Senado].

O novo código prevê a redução de áreas florestais para aumentar atividade agropecuária em regiões como margens de rios.


Fonte: Sabine Righetti, enviada a Campos de Jordão(SP), Folha.com


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


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