8 de junho de 2011 | nenhum comentário »

Avistar 2011: Manchas verdes e a falsa idéia da biodiversidade

 Quem nunca fez uma trilha em uma área que parecia estar bem conservada de Mata Atlântica e saiu decepcionado por não ter visto um bicho sequer? Pois infelizmente isto já é bem conhecido dos estudiosos ligados às ciências da natureza e tem até nome, são as ‘Florestas Vazias’, onde as comunidades animais, especialmente de grandes indivíduos, foram dizimadas.

Nelas, os processos ecológicos são gradativamente perdidos, como as sementes que se acumulam no chão da floresta por falta de dispersores (exterminados) ou as populações de animais que acabam sumindo devido a pequena variabilidade genética regional.

A reintrodução destas espécies em seus ecossistemas originários é uma estratégia rotineira para recomposição em ambientes naturais de órgãos ambientais em vários países, como África do Sul, Nova Zelândia e Reino Unido.

Porém, segundo o Biólogo e Doutor em Zoologia Fábio Olmos, em contraposição, no Brasil pouco se pensa em projetos de reintrodução. Nem com as araras na Mata Atlântica, por exemplo, se têm o cuidado necessário para conseguir manter sua população em médio e longo prazo.

Os britânicos estão trabalhando para restaurar uma população de Grous (Grus grus), perdida na natureza há cerca de 400 anos devido à drenagem de áreas úmidas. A meta é que 100 aves sejam liberadas na natureza até 2015.

Os neo-zelandeses também estão realizando projetos de sucesso no reestabelecimento de populações de Kokako, dizimados pelo desmatamento e introdução de predadores exóticos pelas mãos dos homem (como ratos). Fábio contou, durante o 6º Encontro Brasileiro de Observação de Aves – AVISTAR2011, realizado em São Paulo nos dias 13 a 15 de maio, que na Nova Zelândia, as espécies exóticas são eliminadas, a vegetação nativa é reestabelecida e os animais reintroduzidos.

No Brasil, os exemplos de iniciativas do gênero são poucos, como no caso dos Guarás em Cubatão, onde foi feita uma soltura sem alguma metodologia numa época em que o zoológico de Santos não tinha mais espaço para tantos animais. Atualmente o manguezal da cidade conta com cerca de dois mil Guarás.

No caso dos Guarás, a estratégia utilizada não foi exatamente a mais adequada, apesar de ter dado certo, conta Fábio
É necessária uma base científica precisa para a reintrodução de espécies em áreas de mata nativa, do contrário, danos significativos podem ser infringidos às populações residentes, como a introdução de patógenos aos quais não têm imunidade ou o desequilíbrio populacional, quando não se tem conhecimento suficiente sobre o ecossistema que se pretende enriquecer.

O projeto Ninhos é um bom exemplo, que reintroduziu cinco Tucanos Toco (Ramphastos toco) apreendidos em fiscalização da Policia Ambiental em São Carlos, São Paulo, após reabilitação. A soltura simples dos tucanos foi feita com a ajuda de agricultores da região, com a instalação de um viveiro temporário em sua propriedade para que os animais se acostumassem novamente com o ambiente natural.

O monitoramento desses animais está em andamento e dados conclusivos sobre a permanência desses indivíduos em seus ecossistemas originais ainda são desconhecidos.

A base jurídica para a reintrodução de animais silvestres existe no Brasil, envolvendo a Constituição Federal (Artigo 225 § 1), a Lei de Crimes Ambientais (Cap. III, Art. 25 §1 e e Decreto 6.514/08) e a Instrução Normativa 179/2008 do IBAMA.

“O maior problema é o governo, sendo muito pouco proativo para juntar os diferentes atores e fazer com que funcione. Cada um acaba fazendo o que quer”, alertou Fábio.

Apesar da legislação, que prevê sanções aos crimes ambientais, mencionar uma multa maior aos crimes ambientais com espécies ameaçadas, os traficantes continuam sem uma punição real já que a pena de no máximo três anos de detenção pode ser objeto de transação penal e virar cestas básicas.

O comércio ilegal de animais silvestres é amplamente conhecido e repudiado pela população, entretanto ainda existem muitas pessoas que, por estarem longe da natureza, querem trazer um pedacinho dela para sua casa, mesmo vivendo no meio da cidade, e acabam contribuindo com este atividade extremamente cruel.

Segundo dados reunidos em São Paulo e compilados pelo IBAMA, cerca de 35 mil animais silvestres são apreendidos todos os anos apenas no estado. Isto é uma quantidade ínfima do que realmente é movimentado no país, um cenário arrebatador que passa longe do conhecimento de muitas pessoas que incentivam o comércio ilegal pensando estar comprando apenas “um bichinho”.

Vincent Lo, analista do IBAMA também presente no AVISTAR 2011, lamenta que mesmo dos 35 mil animais apreendidos, apenas cerca de 10 mil são recebidos pelos seis Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) de SP. Destes 10 mil, 30% acaba morrendo, 30% vai parar em cativeiros e 30% são soltos. Portanto, apenas uma quantidade ridícula dos animais consegue voltar aos seus ecossistemas originais e cumprir o seu papel ecológico.

Os locais de soltura também são um obstáculo, pois precisam de uma série de requisitos para garantir que as espécies não sejam ameaçadas. No Estado de São Paulo, o Ibama tem incentivado a formação destas áreas de soltura em parceria com proprietários interessados em preservação e recomposição da fauna local.

A discussão sobre o direcionamento destas espécies capturadas no comércio ilegal para o repovoamento das ‘Florestas vazias’ é uma muito discutida entre os meios acadêmico e administrativo no Brasil, porém a burocracia e as duvidas procedurais quanto à soltura dos animais ainda impedem que grande parte volte para as florestas.

Cuidados sanitários, epidemiológicos e científicos devem ser tomados antes da soltura, mas é ainda mais urgente que sejam tomadas decisões concretas antes que seja tarde demais.

O governo precisa fazer o seu papel fortalecendo os CETAS (hoje muitos estão em estado de penúria), as polícias ambientais e os órgãos de fiscalização e ainda apoiando pesquisas epidemiológicas sobre doenças de animais silvestres e também sobre a composição dos próprios ecossistemas, ainda extremamente desconhecidos.

Mas não podemos esquecer que temos uma responsabilidade enorme que é a de conscientizar as pessoas ao nosso redor que o lugar de animais silvestres, mesmo que “bem tratados”, não é em nossas casas como animais de estimação e sim nos seus respectivos ambientes naturais, do qual eles dependem.

A domesticação de animais silvestres (como tartarugas, papagaios, dentre outros) é um perigo para a saúde dos ‘proprietários’, pois trazem consigo muitas doenças e têm comportamento naturalmente selvagem, podendo os machucar. A tentativa de sua ‘humanização’ é um stress desnecessário para o animal que deveria estar a quilômetros da cidade, cumprindo seu papel ecológico.

“Temos que incentivar o avistamento em vida livre, como atividades de Birdwatching (Observação de Aves), silvestre não é pet, a diversão humana não pode ser às custas dos animais”, ressaltou Vincent.

A remoção de animais silvestres dos seus ambientes é um problema sério e silencioso, pois muitos de nós têm a falta idéia ao ver áreas verdes que a biodiversidade está por todos os lados como há 500 anos. Mas a cada dia, filhotes são tirados das mães, comprados, e quando se percebe as dificuldades de criar um animal destes, ele é abandonado em CETAS e as florestas… ficam cada vez mais vazias.

Durante o AVISTAR 2011 diversos temas foram discutidos e apresentados norteando a relação entre as aves e os ecossistemas naturais no Brasil e no Mundo, mostrando sua importância como bioindicadoras e subsidiando à conservação ambiental através do conhecimento de seus hábitos, e dessa forma sensibilizando muitas pessoas a protegerem os biomas brasileiros, tão ameaçados.

Fonte: Mater Natura


6 de junho de 2011 | nenhum comentário »

“Coastal Blue Carbon” – ecossistemas costeiros vegetados, sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas

Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Climáticas – Mudanças Climáticas.

Embora a redução das emissões de gases do efeito estufa esteja no centro da discussão sobre mudanças climáticas, o papel dos oceanos e seus ecossistemas tem sido ainda vastamente desconsiderados (Nellman et al. 2009).

 

Do total de carbono capturado pelos produtores primários no globo por meio da fotossíntese, mais da metade é capturado por organismos marinhos. Enquanto uma parte do carbono fixado retorna ao ambiente através da respiração e oxidação, o remanescente é estocado na biomassa dos organismos e também nos sedimentos marinhos, contribuindo ao seqüestro de carbono.

 

Ecossistemas marinhos costeiros – particularmente ecossistemas vegetados como manguezais, marismas e bancos de plantas submersas – cobrem menos que 0,5% do fundo marinho. Entretanto, possuem uma alta capacidade de seqüestrar carbono tanto na biomassa vegetal como nas camadas do sedimento logo abaixo, podendo ser responsáveis por mais de 50% de todo o carbono estocado nos sedimentos marinhos.

 

Entretanto, enquanto inúmeros esforços têm sido feitos para desacelerar a degradação de ecossistemas terrestres, através da proteção de florestas tropicais como um meio para mitigar a mudança climática, o papel dos ecossistemas costeiros tem sido negligenciado deste processo.

 

Devido às altas taxas de produção primária pela biomassa, a habilidade de reter partículas em suspensão e a alta capacidade de armazenagem de nutrientes no sedimento, ecossistemas costeiros vegetados estão entre os maiores sumidouros de carbono do planeta e, portanto, podem ser de suma importância na captação dos gases de efeito estufa e para contrapor o aquecimento global. Algumas estimativas sugerem que estes sumidouros possam capturar e estocar anualmente entre 235 a 450 Teragramas (Tg) de carbono (C), o que equivale a um terço ou até metade das emissões globais do setor de transportes, estimadas em torno de 1.000 Tg C por ano.

 

A destruição e degradação de zonas costeiras podem converter esses sumidouros naturais em grandes fontes de carbono para a atmosfera e agravar ainda mais o efeito estufa, já que o carbono seqüestrado ao longo de centenas ou milhares de anos, e depositado em espessas camadas do sedimento, poderá ser liberado a médio e/ou longo prazo. A magnitude destas emissões tornou-se aparente apenas recentemente e tais fontes ainda não têm sido consideradas nas contabilidades nacionais das emissões e nas existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Embora os números pareçam surpreendentes, as estimativas globais são grosseiras e baseadas, na grande maioria, em estudos obtidos no Hemisfério Norte. Portanto há um número grande de incertezas científicas e muitas deficiências de conhecimento regionais a serem preenchidas. Os fluxos de carbono ainda são pouco compreendidos na maioria das regiões costeiras do globo, incluindo as taxas de fixação pelos produtores primários, respiração e consumo pela comunidade, taxas de sedimentação e de exportação da matéria orgânica para zonas profundas. A área global ocupada pela vegetação costeira também não é completamente conhecida, assim como as taxas de perda destes ecossistemas, com enormes lacunas existentes em regiões como o Sudeste Asiático, América do Sul e África, onde se situam muitos dos importantes “blue carbon hot spots”.

 

Para discutir algumas destas questões científicas e suas implicações ambientais e econômicas, as organizações International Oceanographic Comission (IOC-Unesco), Conservation International (CI), International Union for Conservation of Nature (IUCN) e outros parceiros estão elaborando o programa intitulado “Coastal Blue Carbon”. Este programa planeja fornecer recomendações e coordenar futuros projetos para a utilização do carbono costeiro, ou “coastal blue carbon”, como uma ferramenta de conservação e manejo, de maneira a contribuir com a mitigação da mudança climática.

 

Portanto, o programa visa dar bases científicas, econômicas e políticas para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados à conservação dos ecossistemas costeiros.

 

Um das primeiras reuniões para discutir questões científicas relacionadas ao coastal blue carbon ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro de 2011 na sede da Unesco em Paris, reunindo pesquisadores de distintas regiões do globo. Além das organizações promotoras e das instituições de pesquisa, a reunião contou ainda com representantes da United Nation Environment Program (Unep), Global Environment Facility (GEF) e consultores ambientais e econômicos de organizações conservacionistas internacionais.

 

Esta reunião estabeleceu um Grupo de Trabalho para estudar e discutir, durante os próximos dois anos, questões relativas à contribuição dos ecossistemas costeiros – particularmente os vegetados – aos estoques globais de carbono e aos processos de seqüestro. Reconhecendo as lacunas regionais e a necessidade de maiores estudos o Grupo propôs, entre outras recomendações, a realização de inventários nacionais e globais sobre os estoques de carbono e o seu potencial de seqüestro, a identificação de áreas “hotspots” para conservação e/ou restauração e a quantificação de possíveis emissões associadas com a degradação dos ecossistemas costeiros. O Grupo ainda realizou recomendações para quantificar e monitorar o estoque de carbono e seus fluxos em várias escalas espaciais, assim como desenvolveu “guidelines” para a conservação dos depósitos costeiros.

 

Estas ações visam, a curto e médio prazo, promover a conservação e recuperação dos ecossistemas costeiros, como uma das estratégias viáveis de mitigação, inserindo o “blue carbon” dentro das existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Os resultados da reunião com as recomendações científicas serão inseridos em relatório elaborado pela CI e IOC-Unesco, previsto para ser lançado nos próximos meses.

 

Importância para o Brasil – O Brasil detém uma das mais extensas zonas costeiras e maiores áreas de manguezais do mundo, contendo inúmeros estuários e regiões de pradarias de plantas submersas, população concentrada na faixa litorânea e altas taxas de crescimento econômico nestas áreas. Portanto um “Hot Spot” em potencial para estudos e projetos demonstrativos dentro do tema “blue carbon”.

 

Entretanto, assim como para muitas outras regiões do globo, há uma enorme carência ou indisponibilidade de informações básicas, dificultando a realização imediata de um inventário nacional de emissões da zona costeira. Além disto, o rápido desenvolvimento da zona costeira ameaça drasticamente o restante da área existente e o papel destes ecossistemas.

 

O conceito “blue carbon” – carbono capturado e estocado pelas áreas costeiras vegetadas – fornece uma nova ênfase ao estudo e conservação das áreas úmidas vegetadas, propondo mudanças nos incentivos econômicos e novos mecanismos de valoração destes ecossistemas. Assim como no mecanismo Reed (Reduced Emissions from Deforestation and Degradation), o pagamento pelo “blue carbon” tem um grande potencial para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos destas áreas tão ameaçadas, em escala local e regional. O sucesso depende, entretanto, de um rearranjo que não tenha impactos negativos para a sobrevivência das populações locais, as quais dependem dos recursos destes ecossistemas.

 

Adicionalmente, o processo de construção da proposta e implementação futura deste mecanismo deve tomar um cuidado redobrado (assim como no Reed) para que as recomendações, e o reconhecimento do papel mitigatório destes ecossistemas, não sejam utilizados como uma “bengala” dentro do mercado de carbono, justificando menores taxas de redução ou “não redução” de emissões por países desenvolvidos.

 

Margareth Copertino é professora do Instituto de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e integrante do Blue Carbon International Scientific Working Group.

 

Mais informações – Murray et al. 2010. Payments for Blue Carbon: Potential for Protecting Threatened Coastal Habitats. Nicolas Institute Policy Brief. http://nicholasinstitute.duke.edu/oceans/marinees/blue-carbon.

 

Nellmann et al. (Eds). 2009 Blue Carbon. A Rapid Response Assessment. United Nations Environment Programme. http://www.grida.no/publications/rr/blue-carbon

Blue Carbon International Scientific Working Group. http://www.marineclimatechange.com/marineclimatechange/bluecarbon_2.html

Blue Carbon Portal. http://bluecarbonportal.org/?p=536

Fonte: Jornal da Ciência


15 de outubro de 2010 | nenhum comentário »

Biodiversidade desconhecida, editorial de “O Estado de SP”

“É quase total a falta de conhecimento do país sobre sua diversidade marinha – e sem conhecer é impossível proteger”

Leia o editorial:

 

País com mais de 10 mil quilômetros de costa e uma das maiores e mais diversificadas combinações de ecossistemas costeiros e marítimos do mundo, o Brasil apresentará na próxima reunião de avaliação das metas da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) um relatório pobre, que é quase uma confissão: colocou sob proteção legal apenas 1,5% desses ecossistemas, bem menos do que a meta de 10% que havia fixado, e conhece muito pouco de suas espécies marinhas.

 

A décima Conferência das Partes (COP 10) signatárias da CDB – documento aprovado na Conferência Rio-92 – será realizada no fim deste mês na cidade japonesa de Nagoya, com a presença de representantes de mais de 190 países. Eles avaliarão quanto se avançou no cumprimento das metas de preservação da fauna e da flora assumidas nas reuniões anteriores e definirão objetivos para os próximos dez anos.

 

Uma das metas mais relevantes anunciadas pelo Brasil era colocar 30% da Amazônia sob alguma forma de proteção legal. Esta foi alcançada, até com alguma folga, pois mais de 40% da área florestal está protegida, segundo o relatório a ser apresentado em Nagoya pelo governo brasileiro. A área protegida inclui terras indígenas e unidades de conservação estaduais e federais, como mostrou o repórter Herton Escobar, na edição de 3 de outubro do Estado.

 

Mas uma área de grande importância ambiental e econômica, os 4,2 milhões de quilômetros quadrados de território brasileiro cobertos pelo mar, continuou esquecida. Da pequena fatia de ecossistemas que o país conseguiu colocar sob proteção, a maior parte está em ambientes terrestres ligados ao mar, como restingas, praias e manguezais.

 

Não há nenhuma área de conservação inteiramente coberta pelo mar. O Ministério do Meio Ambiente reconhece que o bioma marinho constituiu “a grande lacuna” do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc).

 

A biodiversidade marinha brasileira já conhecida é considerada relativamente pobre, quando comparada à de outros países. Mesmo assim, estima-se que estão no Brasil cerca de 6% das espécies existentes no mundo de invertebrados “não insetos”, a maioria dos quais vive no mar.

 

Pobreza muito maior do que a de espécies marinhas é a de pesquisas e de pesquisadores, diz o biólogo Antonio Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Considero isso uma vergonha”, confessa. Além de escasso, o conhecimento é muito concentrado geograficamente. As pesquisas se limitam ao litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. “Sobre o Nordeste, ainda sabemos muito pouco. E, sobre o Norte, quase nada.”

 

É quase total a falta de conhecimento do país sobre sua diversidade marinha – e sem conhecer é impossível proteger.

 

É difícil, porém, dizer que o desconhecimento seja o pior dos aspectos da ação do governo brasileiro na preservação da biodiversidade marinha. Nos poucos casos de conhecimento relativamente extenso de espécies marinhas, que geralmente são as de maior valor comercial, pouco ou nada se faz para protegê-las.

 

Entre 1995 e 2006, o governo executou o Programa de Avaliação do Potencial dos Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva, que era mais um balanço do estoque pesqueiro do que uma tentativa de conhecimento da biodiversidade marinha. O programa constatou que cerca de 80% das espécies pescadas comercialmente eram sobre-exploradas ou plenamente exploradas.

 

Desde a conclusão do estudo, nada foi feito ou anunciado pelo governo para assegurar a recuperação desses estoques. “A gestão pesqueira no Brasil está um caos”, diz o pesquisador José Angel Alvarez Perez, da Universidade do Vale do Itajaí, de Santa Catarina. O caos é o resultado prático da ação de um governo que não tem uma política definida para a área.

 

De um lado, o Ministério do Meio Ambiente busca assegurar a manutenção dos estoques das espécies de maior valor comercial; de outro, o Ministério da Pesca estimula a pesca, sem levar em conta a ameaça à sobrevivência das espécies.

 

Esse conflito mostra que falta ao governo um rumo na questão da biodiversidade marinha.

(O Estado de SP, 12/10)






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8 de junho de 2011 | nenhum comentário »

Avistar 2011: Manchas verdes e a falsa idéia da biodiversidade

 Quem nunca fez uma trilha em uma área que parecia estar bem conservada de Mata Atlântica e saiu decepcionado por não ter visto um bicho sequer? Pois infelizmente isto já é bem conhecido dos estudiosos ligados às ciências da natureza e tem até nome, são as ‘Florestas Vazias’, onde as comunidades animais, especialmente de grandes indivíduos, foram dizimadas.

Nelas, os processos ecológicos são gradativamente perdidos, como as sementes que se acumulam no chão da floresta por falta de dispersores (exterminados) ou as populações de animais que acabam sumindo devido a pequena variabilidade genética regional.

A reintrodução destas espécies em seus ecossistemas originários é uma estratégia rotineira para recomposição em ambientes naturais de órgãos ambientais em vários países, como África do Sul, Nova Zelândia e Reino Unido.

Porém, segundo o Biólogo e Doutor em Zoologia Fábio Olmos, em contraposição, no Brasil pouco se pensa em projetos de reintrodução. Nem com as araras na Mata Atlântica, por exemplo, se têm o cuidado necessário para conseguir manter sua população em médio e longo prazo.

Os britânicos estão trabalhando para restaurar uma população de Grous (Grus grus), perdida na natureza há cerca de 400 anos devido à drenagem de áreas úmidas. A meta é que 100 aves sejam liberadas na natureza até 2015.

Os neo-zelandeses também estão realizando projetos de sucesso no reestabelecimento de populações de Kokako, dizimados pelo desmatamento e introdução de predadores exóticos pelas mãos dos homem (como ratos). Fábio contou, durante o 6º Encontro Brasileiro de Observação de Aves – AVISTAR2011, realizado em São Paulo nos dias 13 a 15 de maio, que na Nova Zelândia, as espécies exóticas são eliminadas, a vegetação nativa é reestabelecida e os animais reintroduzidos.

No Brasil, os exemplos de iniciativas do gênero são poucos, como no caso dos Guarás em Cubatão, onde foi feita uma soltura sem alguma metodologia numa época em que o zoológico de Santos não tinha mais espaço para tantos animais. Atualmente o manguezal da cidade conta com cerca de dois mil Guarás.

No caso dos Guarás, a estratégia utilizada não foi exatamente a mais adequada, apesar de ter dado certo, conta Fábio
É necessária uma base científica precisa para a reintrodução de espécies em áreas de mata nativa, do contrário, danos significativos podem ser infringidos às populações residentes, como a introdução de patógenos aos quais não têm imunidade ou o desequilíbrio populacional, quando não se tem conhecimento suficiente sobre o ecossistema que se pretende enriquecer.

O projeto Ninhos é um bom exemplo, que reintroduziu cinco Tucanos Toco (Ramphastos toco) apreendidos em fiscalização da Policia Ambiental em São Carlos, São Paulo, após reabilitação. A soltura simples dos tucanos foi feita com a ajuda de agricultores da região, com a instalação de um viveiro temporário em sua propriedade para que os animais se acostumassem novamente com o ambiente natural.

O monitoramento desses animais está em andamento e dados conclusivos sobre a permanência desses indivíduos em seus ecossistemas originais ainda são desconhecidos.

A base jurídica para a reintrodução de animais silvestres existe no Brasil, envolvendo a Constituição Federal (Artigo 225 § 1), a Lei de Crimes Ambientais (Cap. III, Art. 25 §1 e e Decreto 6.514/08) e a Instrução Normativa 179/2008 do IBAMA.

“O maior problema é o governo, sendo muito pouco proativo para juntar os diferentes atores e fazer com que funcione. Cada um acaba fazendo o que quer”, alertou Fábio.

Apesar da legislação, que prevê sanções aos crimes ambientais, mencionar uma multa maior aos crimes ambientais com espécies ameaçadas, os traficantes continuam sem uma punição real já que a pena de no máximo três anos de detenção pode ser objeto de transação penal e virar cestas básicas.

O comércio ilegal de animais silvestres é amplamente conhecido e repudiado pela população, entretanto ainda existem muitas pessoas que, por estarem longe da natureza, querem trazer um pedacinho dela para sua casa, mesmo vivendo no meio da cidade, e acabam contribuindo com este atividade extremamente cruel.

Segundo dados reunidos em São Paulo e compilados pelo IBAMA, cerca de 35 mil animais silvestres são apreendidos todos os anos apenas no estado. Isto é uma quantidade ínfima do que realmente é movimentado no país, um cenário arrebatador que passa longe do conhecimento de muitas pessoas que incentivam o comércio ilegal pensando estar comprando apenas “um bichinho”.

Vincent Lo, analista do IBAMA também presente no AVISTAR 2011, lamenta que mesmo dos 35 mil animais apreendidos, apenas cerca de 10 mil são recebidos pelos seis Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) de SP. Destes 10 mil, 30% acaba morrendo, 30% vai parar em cativeiros e 30% são soltos. Portanto, apenas uma quantidade ridícula dos animais consegue voltar aos seus ecossistemas originais e cumprir o seu papel ecológico.

Os locais de soltura também são um obstáculo, pois precisam de uma série de requisitos para garantir que as espécies não sejam ameaçadas. No Estado de São Paulo, o Ibama tem incentivado a formação destas áreas de soltura em parceria com proprietários interessados em preservação e recomposição da fauna local.

A discussão sobre o direcionamento destas espécies capturadas no comércio ilegal para o repovoamento das ‘Florestas vazias’ é uma muito discutida entre os meios acadêmico e administrativo no Brasil, porém a burocracia e as duvidas procedurais quanto à soltura dos animais ainda impedem que grande parte volte para as florestas.

Cuidados sanitários, epidemiológicos e científicos devem ser tomados antes da soltura, mas é ainda mais urgente que sejam tomadas decisões concretas antes que seja tarde demais.

O governo precisa fazer o seu papel fortalecendo os CETAS (hoje muitos estão em estado de penúria), as polícias ambientais e os órgãos de fiscalização e ainda apoiando pesquisas epidemiológicas sobre doenças de animais silvestres e também sobre a composição dos próprios ecossistemas, ainda extremamente desconhecidos.

Mas não podemos esquecer que temos uma responsabilidade enorme que é a de conscientizar as pessoas ao nosso redor que o lugar de animais silvestres, mesmo que “bem tratados”, não é em nossas casas como animais de estimação e sim nos seus respectivos ambientes naturais, do qual eles dependem.

A domesticação de animais silvestres (como tartarugas, papagaios, dentre outros) é um perigo para a saúde dos ‘proprietários’, pois trazem consigo muitas doenças e têm comportamento naturalmente selvagem, podendo os machucar. A tentativa de sua ‘humanização’ é um stress desnecessário para o animal que deveria estar a quilômetros da cidade, cumprindo seu papel ecológico.

“Temos que incentivar o avistamento em vida livre, como atividades de Birdwatching (Observação de Aves), silvestre não é pet, a diversão humana não pode ser às custas dos animais”, ressaltou Vincent.

A remoção de animais silvestres dos seus ambientes é um problema sério e silencioso, pois muitos de nós têm a falta idéia ao ver áreas verdes que a biodiversidade está por todos os lados como há 500 anos. Mas a cada dia, filhotes são tirados das mães, comprados, e quando se percebe as dificuldades de criar um animal destes, ele é abandonado em CETAS e as florestas… ficam cada vez mais vazias.

Durante o AVISTAR 2011 diversos temas foram discutidos e apresentados norteando a relação entre as aves e os ecossistemas naturais no Brasil e no Mundo, mostrando sua importância como bioindicadoras e subsidiando à conservação ambiental através do conhecimento de seus hábitos, e dessa forma sensibilizando muitas pessoas a protegerem os biomas brasileiros, tão ameaçados.

Fonte: Mater Natura


6 de junho de 2011 | nenhum comentário »

“Coastal Blue Carbon” – ecossistemas costeiros vegetados, sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas

Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Climáticas – Mudanças Climáticas.

Embora a redução das emissões de gases do efeito estufa esteja no centro da discussão sobre mudanças climáticas, o papel dos oceanos e seus ecossistemas tem sido ainda vastamente desconsiderados (Nellman et al. 2009).

 

Do total de carbono capturado pelos produtores primários no globo por meio da fotossíntese, mais da metade é capturado por organismos marinhos. Enquanto uma parte do carbono fixado retorna ao ambiente através da respiração e oxidação, o remanescente é estocado na biomassa dos organismos e também nos sedimentos marinhos, contribuindo ao seqüestro de carbono.

 

Ecossistemas marinhos costeiros – particularmente ecossistemas vegetados como manguezais, marismas e bancos de plantas submersas – cobrem menos que 0,5% do fundo marinho. Entretanto, possuem uma alta capacidade de seqüestrar carbono tanto na biomassa vegetal como nas camadas do sedimento logo abaixo, podendo ser responsáveis por mais de 50% de todo o carbono estocado nos sedimentos marinhos.

 

Entretanto, enquanto inúmeros esforços têm sido feitos para desacelerar a degradação de ecossistemas terrestres, através da proteção de florestas tropicais como um meio para mitigar a mudança climática, o papel dos ecossistemas costeiros tem sido negligenciado deste processo.

 

Devido às altas taxas de produção primária pela biomassa, a habilidade de reter partículas em suspensão e a alta capacidade de armazenagem de nutrientes no sedimento, ecossistemas costeiros vegetados estão entre os maiores sumidouros de carbono do planeta e, portanto, podem ser de suma importância na captação dos gases de efeito estufa e para contrapor o aquecimento global. Algumas estimativas sugerem que estes sumidouros possam capturar e estocar anualmente entre 235 a 450 Teragramas (Tg) de carbono (C), o que equivale a um terço ou até metade das emissões globais do setor de transportes, estimadas em torno de 1.000 Tg C por ano.

 

A destruição e degradação de zonas costeiras podem converter esses sumidouros naturais em grandes fontes de carbono para a atmosfera e agravar ainda mais o efeito estufa, já que o carbono seqüestrado ao longo de centenas ou milhares de anos, e depositado em espessas camadas do sedimento, poderá ser liberado a médio e/ou longo prazo. A magnitude destas emissões tornou-se aparente apenas recentemente e tais fontes ainda não têm sido consideradas nas contabilidades nacionais das emissões e nas existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Embora os números pareçam surpreendentes, as estimativas globais são grosseiras e baseadas, na grande maioria, em estudos obtidos no Hemisfério Norte. Portanto há um número grande de incertezas científicas e muitas deficiências de conhecimento regionais a serem preenchidas. Os fluxos de carbono ainda são pouco compreendidos na maioria das regiões costeiras do globo, incluindo as taxas de fixação pelos produtores primários, respiração e consumo pela comunidade, taxas de sedimentação e de exportação da matéria orgânica para zonas profundas. A área global ocupada pela vegetação costeira também não é completamente conhecida, assim como as taxas de perda destes ecossistemas, com enormes lacunas existentes em regiões como o Sudeste Asiático, América do Sul e África, onde se situam muitos dos importantes “blue carbon hot spots”.

 

Para discutir algumas destas questões científicas e suas implicações ambientais e econômicas, as organizações International Oceanographic Comission (IOC-Unesco), Conservation International (CI), International Union for Conservation of Nature (IUCN) e outros parceiros estão elaborando o programa intitulado “Coastal Blue Carbon”. Este programa planeja fornecer recomendações e coordenar futuros projetos para a utilização do carbono costeiro, ou “coastal blue carbon”, como uma ferramenta de conservação e manejo, de maneira a contribuir com a mitigação da mudança climática.

 

Portanto, o programa visa dar bases científicas, econômicas e políticas para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados à conservação dos ecossistemas costeiros.

 

Um das primeiras reuniões para discutir questões científicas relacionadas ao coastal blue carbon ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro de 2011 na sede da Unesco em Paris, reunindo pesquisadores de distintas regiões do globo. Além das organizações promotoras e das instituições de pesquisa, a reunião contou ainda com representantes da United Nation Environment Program (Unep), Global Environment Facility (GEF) e consultores ambientais e econômicos de organizações conservacionistas internacionais.

 

Esta reunião estabeleceu um Grupo de Trabalho para estudar e discutir, durante os próximos dois anos, questões relativas à contribuição dos ecossistemas costeiros – particularmente os vegetados – aos estoques globais de carbono e aos processos de seqüestro. Reconhecendo as lacunas regionais e a necessidade de maiores estudos o Grupo propôs, entre outras recomendações, a realização de inventários nacionais e globais sobre os estoques de carbono e o seu potencial de seqüestro, a identificação de áreas “hotspots” para conservação e/ou restauração e a quantificação de possíveis emissões associadas com a degradação dos ecossistemas costeiros. O Grupo ainda realizou recomendações para quantificar e monitorar o estoque de carbono e seus fluxos em várias escalas espaciais, assim como desenvolveu “guidelines” para a conservação dos depósitos costeiros.

 

Estas ações visam, a curto e médio prazo, promover a conservação e recuperação dos ecossistemas costeiros, como uma das estratégias viáveis de mitigação, inserindo o “blue carbon” dentro das existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Os resultados da reunião com as recomendações científicas serão inseridos em relatório elaborado pela CI e IOC-Unesco, previsto para ser lançado nos próximos meses.

 

Importância para o Brasil – O Brasil detém uma das mais extensas zonas costeiras e maiores áreas de manguezais do mundo, contendo inúmeros estuários e regiões de pradarias de plantas submersas, população concentrada na faixa litorânea e altas taxas de crescimento econômico nestas áreas. Portanto um “Hot Spot” em potencial para estudos e projetos demonstrativos dentro do tema “blue carbon”.

 

Entretanto, assim como para muitas outras regiões do globo, há uma enorme carência ou indisponibilidade de informações básicas, dificultando a realização imediata de um inventário nacional de emissões da zona costeira. Além disto, o rápido desenvolvimento da zona costeira ameaça drasticamente o restante da área existente e o papel destes ecossistemas.

 

O conceito “blue carbon” – carbono capturado e estocado pelas áreas costeiras vegetadas – fornece uma nova ênfase ao estudo e conservação das áreas úmidas vegetadas, propondo mudanças nos incentivos econômicos e novos mecanismos de valoração destes ecossistemas. Assim como no mecanismo Reed (Reduced Emissions from Deforestation and Degradation), o pagamento pelo “blue carbon” tem um grande potencial para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos destas áreas tão ameaçadas, em escala local e regional. O sucesso depende, entretanto, de um rearranjo que não tenha impactos negativos para a sobrevivência das populações locais, as quais dependem dos recursos destes ecossistemas.

 

Adicionalmente, o processo de construção da proposta e implementação futura deste mecanismo deve tomar um cuidado redobrado (assim como no Reed) para que as recomendações, e o reconhecimento do papel mitigatório destes ecossistemas, não sejam utilizados como uma “bengala” dentro do mercado de carbono, justificando menores taxas de redução ou “não redução” de emissões por países desenvolvidos.

 

Margareth Copertino é professora do Instituto de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e integrante do Blue Carbon International Scientific Working Group.

 

Mais informações – Murray et al. 2010. Payments for Blue Carbon: Potential for Protecting Threatened Coastal Habitats. Nicolas Institute Policy Brief. http://nicholasinstitute.duke.edu/oceans/marinees/blue-carbon.

 

Nellmann et al. (Eds). 2009 Blue Carbon. A Rapid Response Assessment. United Nations Environment Programme. http://www.grida.no/publications/rr/blue-carbon

Blue Carbon International Scientific Working Group. http://www.marineclimatechange.com/marineclimatechange/bluecarbon_2.html

Blue Carbon Portal. http://bluecarbonportal.org/?p=536

Fonte: Jornal da Ciência


15 de outubro de 2010 | nenhum comentário »

Biodiversidade desconhecida, editorial de “O Estado de SP”

“É quase total a falta de conhecimento do país sobre sua diversidade marinha – e sem conhecer é impossível proteger”

Leia o editorial:

 

País com mais de 10 mil quilômetros de costa e uma das maiores e mais diversificadas combinações de ecossistemas costeiros e marítimos do mundo, o Brasil apresentará na próxima reunião de avaliação das metas da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) um relatório pobre, que é quase uma confissão: colocou sob proteção legal apenas 1,5% desses ecossistemas, bem menos do que a meta de 10% que havia fixado, e conhece muito pouco de suas espécies marinhas.

 

A décima Conferência das Partes (COP 10) signatárias da CDB – documento aprovado na Conferência Rio-92 – será realizada no fim deste mês na cidade japonesa de Nagoya, com a presença de representantes de mais de 190 países. Eles avaliarão quanto se avançou no cumprimento das metas de preservação da fauna e da flora assumidas nas reuniões anteriores e definirão objetivos para os próximos dez anos.

 

Uma das metas mais relevantes anunciadas pelo Brasil era colocar 30% da Amazônia sob alguma forma de proteção legal. Esta foi alcançada, até com alguma folga, pois mais de 40% da área florestal está protegida, segundo o relatório a ser apresentado em Nagoya pelo governo brasileiro. A área protegida inclui terras indígenas e unidades de conservação estaduais e federais, como mostrou o repórter Herton Escobar, na edição de 3 de outubro do Estado.

 

Mas uma área de grande importância ambiental e econômica, os 4,2 milhões de quilômetros quadrados de território brasileiro cobertos pelo mar, continuou esquecida. Da pequena fatia de ecossistemas que o país conseguiu colocar sob proteção, a maior parte está em ambientes terrestres ligados ao mar, como restingas, praias e manguezais.

 

Não há nenhuma área de conservação inteiramente coberta pelo mar. O Ministério do Meio Ambiente reconhece que o bioma marinho constituiu “a grande lacuna” do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc).

 

A biodiversidade marinha brasileira já conhecida é considerada relativamente pobre, quando comparada à de outros países. Mesmo assim, estima-se que estão no Brasil cerca de 6% das espécies existentes no mundo de invertebrados “não insetos”, a maioria dos quais vive no mar.

 

Pobreza muito maior do que a de espécies marinhas é a de pesquisas e de pesquisadores, diz o biólogo Antonio Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Considero isso uma vergonha”, confessa. Além de escasso, o conhecimento é muito concentrado geograficamente. As pesquisas se limitam ao litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. “Sobre o Nordeste, ainda sabemos muito pouco. E, sobre o Norte, quase nada.”

 

É quase total a falta de conhecimento do país sobre sua diversidade marinha – e sem conhecer é impossível proteger.

 

É difícil, porém, dizer que o desconhecimento seja o pior dos aspectos da ação do governo brasileiro na preservação da biodiversidade marinha. Nos poucos casos de conhecimento relativamente extenso de espécies marinhas, que geralmente são as de maior valor comercial, pouco ou nada se faz para protegê-las.

 

Entre 1995 e 2006, o governo executou o Programa de Avaliação do Potencial dos Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva, que era mais um balanço do estoque pesqueiro do que uma tentativa de conhecimento da biodiversidade marinha. O programa constatou que cerca de 80% das espécies pescadas comercialmente eram sobre-exploradas ou plenamente exploradas.

 

Desde a conclusão do estudo, nada foi feito ou anunciado pelo governo para assegurar a recuperação desses estoques. “A gestão pesqueira no Brasil está um caos”, diz o pesquisador José Angel Alvarez Perez, da Universidade do Vale do Itajaí, de Santa Catarina. O caos é o resultado prático da ação de um governo que não tem uma política definida para a área.

 

De um lado, o Ministério do Meio Ambiente busca assegurar a manutenção dos estoques das espécies de maior valor comercial; de outro, o Ministério da Pesca estimula a pesca, sem levar em conta a ameaça à sobrevivência das espécies.

 

Esse conflito mostra que falta ao governo um rumo na questão da biodiversidade marinha.

(O Estado de SP, 12/10)