17 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Mosca-das-frutas bebe álcool como remédio contra parasitas, diz estudo

Prática aumentaria taxa de sobrevivência do inseto.
Pesquisa questiona efeitos positivos do álcool para tratar doenças.

A larva de mosca da fruta poderia curar infecção por ovos de vespa através do consumo de álcool (Foto: Divulgação)

A mosca-das-frutas poderia curar parasitas através do consumo de álcool (Foto: Divulgação)

A mosca-das-frutas consome álcool quando está infectada por um tipo de parasita, para se automedicar. A afirmação é de um estudo da Universidade Emory, nos Estados Unidos, publicado na revista científica “Current Biology” nesta quinta-feira (16).

A ingestão de álcool permitiria a sobrevivência de 60% das moscas-das-frutas infectadas. Já os insetos que não bebem o líquido morrem, segundo o estudo.

O parasita em questão é a vespa, que injeta ovos nas larvas de mosca de fruta. Ela também deposita veneno com a função de bloquear o sistema imunológico do inseto, permitindo que os ovos se desenvolvam. Em seguida, larvas de vespa começam a comer a mosca-das-frutas de dentro para fora.

O álcool poderia bloquear o efeito do veneno e impedir a continuidade do ciclo de vida da vespa, de acordo com o estudo.

 

A hipótese dos pesquisadores era que as moscas-das-frutas consumem álcool para combater o parasita. Para testá-la, eles colocaram lado a lado alimento com e sem álcool. Após 24 horas, 80% dos insetos infectados por vespas comiam o alimento com álcool.

Os cientistas esperam que a pesquisa estimule mais estudos sobre o uso de álcool para controlar doenças em outros organismos, inclusive nos seres humanos.

“Apesar de muitos estudos em humanos demonstrarem a diminuição do sistema imunológico em consumidores crônicos de álcool, pouco tem sido feito para analisar qualquer efeito benéfico do consumo da substância”, afirmou Todd Schlenke, geneticista que conduziu o experimento, em material de divulgação.

Fonte: Globo Natureza, São Paulo

 


14 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Cientistas mantêm vivas larvas de moscas congeladas

Larvas foram alimentadas com substância que protege do frio.
Pesquisa é um passo para a conservação da vida pelo congelamento.

Imagens mostram congelamento gradual das larvas da mosca da fruta, de -1ºC até -4ºC (Foto: Divulgação)

Imagens mostram congelamento gradual das larvas da mosca da fruta, de -1ºC até -4ºC (Foto: Divulgação)

Cientistas conseguiram congelar larvas da mosca da fruta, com temperaturas abaixo de zero, e fazer com que elas continuassem vivas e capazes de voltar à temperatura normal. A pesquisa da Academia de Ciências da República Tcheca foi publicada nesta segunda-feira (13) pela revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”.

É um dos passos iniciais na direção da criogenia – a conservação da vida pelo congelamento, comum na ficção científica. “É um passo bem pequeno, mas bem importante”, disse ao G1 Vladimir Kostal, autor da pesquisa. Ele deixou claro que a aplicação da tecnologia em mamíferos está muito distante.

As larvas foram expostas a uma temperatura de cinco graus negativos, e metade da água em seus corpos virou gelo. Elas sobreviveram porque receberam dos cientistas uma dieta rica em prolina – um aminoácido comum nos seres vivos, que já tinha se mostrado útil contra o frio em uma pesquisa anteriore.

Estudando moscas nativas de regiões árticas, a equipe de Kostal havia descoberto que as larvas dessa espécie têm um grande estoque da substância. O entomologista não sabe explicar ao certo, no entanto, por que a prolina protege os insetos do frio.

A mosca da fruta é nativa da África e não sobreviveria ao inverno europeu na natureza – ela se adaptou ao continente porque se abriga em ambientes feitos pelo homem. Por isso, o sucesso da experiência de congelamento foi visto pelo próprio Kostal como uma “surpresa”.

Nesse estudo, o acúmulo da prolina foi feito só pela alimentação, o que os pesquisadores consideram tecnologicamente simples, já que não envolve intervenções nas células nem engenharia genética, por exemplo.

Também por causa da alimentação, Kostal não trabalhou com moscas adultas nesse estudo. “É difícil fazer a experiência com adultos porque eles se alimentam bem menos. Como as larvas estão em fase de crescimento, absorvem mais as substâncias que damos”, explicou.

 

Fonte: Tadeu Meniconi, G1,  São Paulo


1 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Transgênicos podem afetar borboleta monarca

Não faz mais de uma década. As fazendas do Meio-Oeste dos Estados Unidos ficavam normalmente desfiguradas – ao menos na visão dos fazendeiros – por manchas rebeldes de asclépias entre fileiras perfeitas de plantações de milho e soja.

Isso não acontece mais. Agora, nos campos estão plantações de milho e soja geneticamente modificados e resistentes ao herbicida Roundup. Com isso, os fazendeiros podem pulverizar a substância química para erradicar ervas daninhas, inclusive a asclépia.

Embora para os fazendeiros isso soe como uma boa notícia, para um número crescente de cientistas a redução da asclépia pode por em perigo as borboletas-monarca. A migração espetacular desses animais fazem delas um dos insetos mais queridos – “o Bambi do mundo dos insetos”, como afirmou certa vez um entomólogo.

As monarcas depositam os ovos nas asclépias e as larvas depois as comem.

Esse indício é preliminar e vem sendo contestado por especialistas. Para o especialista em insetos Chip Taylor, o aumento da prática de culturas geneticamente modificadas põe em risco as borboletas de cor laranja e preta, por retirar seu habitat.

“A asclépia desapareceu de pelo menos 40,5 milhões de hectares de canteiros de cultivo”, afirmou Taylor, ecologista especialista em insetos da Universidade de Kansas e diretor de pesquisa e conservação do programa Monarch Watch. “A asclépia dela praticamente se foi”.

O principal indício de que a população de monarcas está diminuindo aparece em um novo estudo. Ele mostra que a área ocupada pelas monarcas no centro do México, onde muitas delas passam o inverno, diminuiu nos últimos 17 anos.

Acredita-se que a área ocupada pelas borboletas seja representativa do tamanho da sua população.

“Pela primeira vez nós temos dados que podem ser analisados estatisticamente e que mostram uma tendência de queda”, afirmou Ernest H. Williams, professor de biologia do Hamilton College e autor do estudo, junto com Taylor e outros autores.

O artigo, publicado online na revista Insect Conservation and Diversity, atribui essa diminuição em parte à falta da asclépia devido ao uso de culturas Roundup Ready. Outras causas, segundo o artigo, são o desaparecimento da asclépia devido ao desenvolvimento rural, o corte ilegal de árvores nos locais de invernada no México e o inverno rigoroso.

O estudo não sugere que a borboleta entrará em extinção. Porém, ele questiona a sustentabilidade da migração anual, do incentivo ao festival das borboletas nos Estados Unidos e das ondas de turismo no México.

Entretanto, o artigo não apresenta nenhum dado que fundamente o argumento de que as culturas geneticamente modificadas estejam reduzindo a população de monarcas. Alguns especialistas alegam que a população dessas borboletas não está diminuindo e que não está claro se existe qualquer consequência relacionada à biotecnologia agrícola.

Segundo Andrew K. Davis, pesquisador assistente da Universidade da Georgia, o recenseamento da monarca adulta, realizado todo fim de ano em Cape May, Nova Jersey, e em Península Point, em Michigan, não apresentou uma diminuição.

Pode ser que “mesmo que a população de invernada esteja diminuindo cada vez mais, elas recuperem esse número quando se dirigem para o norte, na primavera”, afirma Davis. O artigo de Davis, em que ele contesta que esteja ocorrendo uma diminuição da população da monarca, foi publicado online pela mesma revista.

Leslie Ries, professora pesquisadora da Universidade de Maryland, examinou outras contagens de borboletas e, segundo conta, não revelaram uma diminuição, mas sim variações de ano para ano. Como é improvável que a população de asclépias varie tanto, provavelmente isso não é o determinante principal da população de borboletas, conforme afirma.

Porém, dois pesquisadores, Karen Oberhauser, da Universidade de Minnesota, e John M. Pleasants, do estado do Iowa, citam outros indícios da diminuição: o número de ovos de monarca nos campos do Meio-Oeste americano. “A produção das monarcas vem diminuindo de maneira significativa”, afirma Pleasants.

“Essa redução é causada pela perda das reservas de asclépias disponíveis”.

Os dois cientistas apresentaram um artigo a uma revista científica e afirmaram que não discutirão sobre os dados apresentados antes da publicação.

As culturas Roundup Ready contêm um gene de bactéria que permite a elas resistir ao herbicida Roundup ou ao seu equivalente genérico, o glifosato.

Isso permite matar as ervas daninhas sem prejudicar a colheita.

Como tornam bem mais fácil o controle de ervas daninhas, essas culturas têm sido amplamente adotadas pelos fazendeiros. Este ano, 94 por cento da soja e 72 por cento do milho cultivados nos Estados Unidos eram tolerantes a herbicidas, de acordo com o Departamento de Agricultura.

Por sua vez, isso levou ao aumento súbito da utilização do glifosato, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental americana. A quantidade de herbicida utilizada em 2007 foi 5 vezes maior do que em 1997, um ano após a introdução das culturas Roundup Ready e, e aproximadamente 10 vezes maior do que em 1993.

Os fazendeiros, como se sabe, sempre tentaram eliminar as ervas daninhas tratando a terra ou pulverizando outros herbicidas, sendo que esses muitas vezes precisavam ser usados antes que as culturas brotassem do solo. O glifosato, no entanto, pode ser pulverizado no período vegetativo, pois não prejudica as culturas resistentes. Esse fato e a eficácia geral do glifosato resultaram em um controle maior das ervas daninhas.

“Ele mata tudo”, afirmou Lincoln P. Brower, entomólogo do Sweet Briar College e um dos autores do artigo que documenta a diminuição da população de monarcas no inverno mexicano. “É como um Armagedom absoluto da biodiversidade sobre uma enorme área”.

A quantidade de asclépias nas fazendas do estado do Iowa diminuiu 90 por cento entre 1999 e 2009, de acordo com Robert G. Hartzler, agrônomo do estado. Em seu estudo, publicado no ano passado na revista Crop Protection, ele encontrou asclépias em apenas 8 por cento dos campos de milho e soja em 2009, 51 por cento menos do que 1999.

Devido às práticas de controle de ervas daninhas – mesmo antes do advento dos cultivos Roundup Ready – é improvável que as fazendas abriguem tal quantidade de asclépias.

Porém, a grande quantidade de terras agrícolas no cinturão do milho demonstra que as fazendas no todo são as responsáveis pela maior parte dos nascimentos de monarcas, segundo outro estudo, publicado em 2001 por Oberhauser e seus colegas. Este estudo avaliou que em Iowa, as propriedades rurais produziram 78 vezes mais monarcas do que em áreas não cultivadas, e 73 vezes mais em Wisconsin e Minnesota.

Embora as monarcas venham de outras partes dos Estados Unidos, de modo geral acredita-se que a maioria delas seja incubada no Meio-Oeste. Porém, até mesmo Hartzler afirmou em seu artigo que seria difícil avaliar o impacto da diminuição da asclépia no Iowa sobre a população de monarcas.

O porta-voz da Monsanto, empresa criadora das culturas Roundup Ready e fabricante do Roundup, concorda. Segundo ele “ainda estão sendo desenvolvidos dados biológicos sobre os possíveis efeitos da agricultura de Iowa sobre a população de monarcas”. O que é válido para Iowa pode não valer para outras regiões, afirma.

Não é a primeira vez que as culturas geneticamente modificadas são consideradas uma ameaça para as monarcas. Em 1999, pesquisadores da Universidade Cornell relataram que as lagartas das monarcas podiam morrer caso se alimentassem de asclépia polvilhada com pólen do também geneticamente modificado milho BT. Esse milho possui um gene de bactéria conhecido por produzir uma toxina que mata certos tipos de pragas.

Contudo, pesquisas posteriores, financiadas em parte pela indústria de biotecnologia, descobriram que as lagartas provavelmente não seriam expostas a quantidades letais de pólen de milho BT sob condições reais do campo. A preocupação diminuiu.

Segundo os cientistas, o efeito sobre os insetos de impedir o crescimento das ervas daninhas não é uma surpresa e, provavelmente, não atinge apenas a monarca.

A Academia Americana de Ciências examinou este efeito em 2007, em um relatório sobre abelhas e outros animais que polinizam as culturas. O relatório cita a descoberta de um estudo britânico de que nos campos onde são cultivadas beterraba e canola geneticamente modificadas, existem menos borboletas do que nos campos de culturas não modificadas.

Isso produz a ideia um tanto quanto radical de que as ervas daninhas das fazendas talvez devessem ser protegidas. “Está ocorrendo uma mudança na forma de pensar a agricultura, porque os campos sem ervas daninhas eram a referência”, afirmou May Berenbaum, chefe do departamento de entomologia da Universidade de Illinois.

Entretanto, May e outros especialistas em insetos acreditam ser ilusório supor que os fazendeiros irão abrir mão das culturas tolerantes a herbicidas. Por isso, deve-se tentar proteger as que existem ou germinar asclépias em outros locais, talvez em terras reservadas para a preservação.

A Monarch Watch está encorajando os jardineiros a cultivar asclépias.

Taylor, da Monarch Watch, fez uma proposta simples e talvez irônica às empresas de biotecnologia. “Peço encarecidamente que desenvolvam uma asclépia resistente ao Roundup”, afirmou.

Fonte: Portal iG






Categorias

Tópicos recentes

Meta

 

dezembro 2018
S T Q Q S S D
« mar    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

17 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Mosca-das-frutas bebe álcool como remédio contra parasitas, diz estudo

Prática aumentaria taxa de sobrevivência do inseto.
Pesquisa questiona efeitos positivos do álcool para tratar doenças.

A larva de mosca da fruta poderia curar infecção por ovos de vespa através do consumo de álcool (Foto: Divulgação)

A mosca-das-frutas poderia curar parasitas através do consumo de álcool (Foto: Divulgação)

A mosca-das-frutas consome álcool quando está infectada por um tipo de parasita, para se automedicar. A afirmação é de um estudo da Universidade Emory, nos Estados Unidos, publicado na revista científica “Current Biology” nesta quinta-feira (16).

A ingestão de álcool permitiria a sobrevivência de 60% das moscas-das-frutas infectadas. Já os insetos que não bebem o líquido morrem, segundo o estudo.

O parasita em questão é a vespa, que injeta ovos nas larvas de mosca de fruta. Ela também deposita veneno com a função de bloquear o sistema imunológico do inseto, permitindo que os ovos se desenvolvam. Em seguida, larvas de vespa começam a comer a mosca-das-frutas de dentro para fora.

O álcool poderia bloquear o efeito do veneno e impedir a continuidade do ciclo de vida da vespa, de acordo com o estudo.

 

A hipótese dos pesquisadores era que as moscas-das-frutas consumem álcool para combater o parasita. Para testá-la, eles colocaram lado a lado alimento com e sem álcool. Após 24 horas, 80% dos insetos infectados por vespas comiam o alimento com álcool.

Os cientistas esperam que a pesquisa estimule mais estudos sobre o uso de álcool para controlar doenças em outros organismos, inclusive nos seres humanos.

“Apesar de muitos estudos em humanos demonstrarem a diminuição do sistema imunológico em consumidores crônicos de álcool, pouco tem sido feito para analisar qualquer efeito benéfico do consumo da substância”, afirmou Todd Schlenke, geneticista que conduziu o experimento, em material de divulgação.

Fonte: Globo Natureza, São Paulo

 


14 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Cientistas mantêm vivas larvas de moscas congeladas

Larvas foram alimentadas com substância que protege do frio.
Pesquisa é um passo para a conservação da vida pelo congelamento.

Imagens mostram congelamento gradual das larvas da mosca da fruta, de -1ºC até -4ºC (Foto: Divulgação)

Imagens mostram congelamento gradual das larvas da mosca da fruta, de -1ºC até -4ºC (Foto: Divulgação)

Cientistas conseguiram congelar larvas da mosca da fruta, com temperaturas abaixo de zero, e fazer com que elas continuassem vivas e capazes de voltar à temperatura normal. A pesquisa da Academia de Ciências da República Tcheca foi publicada nesta segunda-feira (13) pela revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”.

É um dos passos iniciais na direção da criogenia – a conservação da vida pelo congelamento, comum na ficção científica. “É um passo bem pequeno, mas bem importante”, disse ao G1 Vladimir Kostal, autor da pesquisa. Ele deixou claro que a aplicação da tecnologia em mamíferos está muito distante.

As larvas foram expostas a uma temperatura de cinco graus negativos, e metade da água em seus corpos virou gelo. Elas sobreviveram porque receberam dos cientistas uma dieta rica em prolina – um aminoácido comum nos seres vivos, que já tinha se mostrado útil contra o frio em uma pesquisa anteriore.

Estudando moscas nativas de regiões árticas, a equipe de Kostal havia descoberto que as larvas dessa espécie têm um grande estoque da substância. O entomologista não sabe explicar ao certo, no entanto, por que a prolina protege os insetos do frio.

A mosca da fruta é nativa da África e não sobreviveria ao inverno europeu na natureza – ela se adaptou ao continente porque se abriga em ambientes feitos pelo homem. Por isso, o sucesso da experiência de congelamento foi visto pelo próprio Kostal como uma “surpresa”.

Nesse estudo, o acúmulo da prolina foi feito só pela alimentação, o que os pesquisadores consideram tecnologicamente simples, já que não envolve intervenções nas células nem engenharia genética, por exemplo.

Também por causa da alimentação, Kostal não trabalhou com moscas adultas nesse estudo. “É difícil fazer a experiência com adultos porque eles se alimentam bem menos. Como as larvas estão em fase de crescimento, absorvem mais as substâncias que damos”, explicou.

 

Fonte: Tadeu Meniconi, G1,  São Paulo


1 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Transgênicos podem afetar borboleta monarca

Não faz mais de uma década. As fazendas do Meio-Oeste dos Estados Unidos ficavam normalmente desfiguradas – ao menos na visão dos fazendeiros – por manchas rebeldes de asclépias entre fileiras perfeitas de plantações de milho e soja.

Isso não acontece mais. Agora, nos campos estão plantações de milho e soja geneticamente modificados e resistentes ao herbicida Roundup. Com isso, os fazendeiros podem pulverizar a substância química para erradicar ervas daninhas, inclusive a asclépia.

Embora para os fazendeiros isso soe como uma boa notícia, para um número crescente de cientistas a redução da asclépia pode por em perigo as borboletas-monarca. A migração espetacular desses animais fazem delas um dos insetos mais queridos – “o Bambi do mundo dos insetos”, como afirmou certa vez um entomólogo.

As monarcas depositam os ovos nas asclépias e as larvas depois as comem.

Esse indício é preliminar e vem sendo contestado por especialistas. Para o especialista em insetos Chip Taylor, o aumento da prática de culturas geneticamente modificadas põe em risco as borboletas de cor laranja e preta, por retirar seu habitat.

“A asclépia desapareceu de pelo menos 40,5 milhões de hectares de canteiros de cultivo”, afirmou Taylor, ecologista especialista em insetos da Universidade de Kansas e diretor de pesquisa e conservação do programa Monarch Watch. “A asclépia dela praticamente se foi”.

O principal indício de que a população de monarcas está diminuindo aparece em um novo estudo. Ele mostra que a área ocupada pelas monarcas no centro do México, onde muitas delas passam o inverno, diminuiu nos últimos 17 anos.

Acredita-se que a área ocupada pelas borboletas seja representativa do tamanho da sua população.

“Pela primeira vez nós temos dados que podem ser analisados estatisticamente e que mostram uma tendência de queda”, afirmou Ernest H. Williams, professor de biologia do Hamilton College e autor do estudo, junto com Taylor e outros autores.

O artigo, publicado online na revista Insect Conservation and Diversity, atribui essa diminuição em parte à falta da asclépia devido ao uso de culturas Roundup Ready. Outras causas, segundo o artigo, são o desaparecimento da asclépia devido ao desenvolvimento rural, o corte ilegal de árvores nos locais de invernada no México e o inverno rigoroso.

O estudo não sugere que a borboleta entrará em extinção. Porém, ele questiona a sustentabilidade da migração anual, do incentivo ao festival das borboletas nos Estados Unidos e das ondas de turismo no México.

Entretanto, o artigo não apresenta nenhum dado que fundamente o argumento de que as culturas geneticamente modificadas estejam reduzindo a população de monarcas. Alguns especialistas alegam que a população dessas borboletas não está diminuindo e que não está claro se existe qualquer consequência relacionada à biotecnologia agrícola.

Segundo Andrew K. Davis, pesquisador assistente da Universidade da Georgia, o recenseamento da monarca adulta, realizado todo fim de ano em Cape May, Nova Jersey, e em Península Point, em Michigan, não apresentou uma diminuição.

Pode ser que “mesmo que a população de invernada esteja diminuindo cada vez mais, elas recuperem esse número quando se dirigem para o norte, na primavera”, afirma Davis. O artigo de Davis, em que ele contesta que esteja ocorrendo uma diminuição da população da monarca, foi publicado online pela mesma revista.

Leslie Ries, professora pesquisadora da Universidade de Maryland, examinou outras contagens de borboletas e, segundo conta, não revelaram uma diminuição, mas sim variações de ano para ano. Como é improvável que a população de asclépias varie tanto, provavelmente isso não é o determinante principal da população de borboletas, conforme afirma.

Porém, dois pesquisadores, Karen Oberhauser, da Universidade de Minnesota, e John M. Pleasants, do estado do Iowa, citam outros indícios da diminuição: o número de ovos de monarca nos campos do Meio-Oeste americano. “A produção das monarcas vem diminuindo de maneira significativa”, afirma Pleasants.

“Essa redução é causada pela perda das reservas de asclépias disponíveis”.

Os dois cientistas apresentaram um artigo a uma revista científica e afirmaram que não discutirão sobre os dados apresentados antes da publicação.

As culturas Roundup Ready contêm um gene de bactéria que permite a elas resistir ao herbicida Roundup ou ao seu equivalente genérico, o glifosato.

Isso permite matar as ervas daninhas sem prejudicar a colheita.

Como tornam bem mais fácil o controle de ervas daninhas, essas culturas têm sido amplamente adotadas pelos fazendeiros. Este ano, 94 por cento da soja e 72 por cento do milho cultivados nos Estados Unidos eram tolerantes a herbicidas, de acordo com o Departamento de Agricultura.

Por sua vez, isso levou ao aumento súbito da utilização do glifosato, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental americana. A quantidade de herbicida utilizada em 2007 foi 5 vezes maior do que em 1997, um ano após a introdução das culturas Roundup Ready e, e aproximadamente 10 vezes maior do que em 1993.

Os fazendeiros, como se sabe, sempre tentaram eliminar as ervas daninhas tratando a terra ou pulverizando outros herbicidas, sendo que esses muitas vezes precisavam ser usados antes que as culturas brotassem do solo. O glifosato, no entanto, pode ser pulverizado no período vegetativo, pois não prejudica as culturas resistentes. Esse fato e a eficácia geral do glifosato resultaram em um controle maior das ervas daninhas.

“Ele mata tudo”, afirmou Lincoln P. Brower, entomólogo do Sweet Briar College e um dos autores do artigo que documenta a diminuição da população de monarcas no inverno mexicano. “É como um Armagedom absoluto da biodiversidade sobre uma enorme área”.

A quantidade de asclépias nas fazendas do estado do Iowa diminuiu 90 por cento entre 1999 e 2009, de acordo com Robert G. Hartzler, agrônomo do estado. Em seu estudo, publicado no ano passado na revista Crop Protection, ele encontrou asclépias em apenas 8 por cento dos campos de milho e soja em 2009, 51 por cento menos do que 1999.

Devido às práticas de controle de ervas daninhas – mesmo antes do advento dos cultivos Roundup Ready – é improvável que as fazendas abriguem tal quantidade de asclépias.

Porém, a grande quantidade de terras agrícolas no cinturão do milho demonstra que as fazendas no todo são as responsáveis pela maior parte dos nascimentos de monarcas, segundo outro estudo, publicado em 2001 por Oberhauser e seus colegas. Este estudo avaliou que em Iowa, as propriedades rurais produziram 78 vezes mais monarcas do que em áreas não cultivadas, e 73 vezes mais em Wisconsin e Minnesota.

Embora as monarcas venham de outras partes dos Estados Unidos, de modo geral acredita-se que a maioria delas seja incubada no Meio-Oeste. Porém, até mesmo Hartzler afirmou em seu artigo que seria difícil avaliar o impacto da diminuição da asclépia no Iowa sobre a população de monarcas.

O porta-voz da Monsanto, empresa criadora das culturas Roundup Ready e fabricante do Roundup, concorda. Segundo ele “ainda estão sendo desenvolvidos dados biológicos sobre os possíveis efeitos da agricultura de Iowa sobre a população de monarcas”. O que é válido para Iowa pode não valer para outras regiões, afirma.

Não é a primeira vez que as culturas geneticamente modificadas são consideradas uma ameaça para as monarcas. Em 1999, pesquisadores da Universidade Cornell relataram que as lagartas das monarcas podiam morrer caso se alimentassem de asclépia polvilhada com pólen do também geneticamente modificado milho BT. Esse milho possui um gene de bactéria conhecido por produzir uma toxina que mata certos tipos de pragas.

Contudo, pesquisas posteriores, financiadas em parte pela indústria de biotecnologia, descobriram que as lagartas provavelmente não seriam expostas a quantidades letais de pólen de milho BT sob condições reais do campo. A preocupação diminuiu.

Segundo os cientistas, o efeito sobre os insetos de impedir o crescimento das ervas daninhas não é uma surpresa e, provavelmente, não atinge apenas a monarca.

A Academia Americana de Ciências examinou este efeito em 2007, em um relatório sobre abelhas e outros animais que polinizam as culturas. O relatório cita a descoberta de um estudo britânico de que nos campos onde são cultivadas beterraba e canola geneticamente modificadas, existem menos borboletas do que nos campos de culturas não modificadas.

Isso produz a ideia um tanto quanto radical de que as ervas daninhas das fazendas talvez devessem ser protegidas. “Está ocorrendo uma mudança na forma de pensar a agricultura, porque os campos sem ervas daninhas eram a referência”, afirmou May Berenbaum, chefe do departamento de entomologia da Universidade de Illinois.

Entretanto, May e outros especialistas em insetos acreditam ser ilusório supor que os fazendeiros irão abrir mão das culturas tolerantes a herbicidas. Por isso, deve-se tentar proteger as que existem ou germinar asclépias em outros locais, talvez em terras reservadas para a preservação.

A Monarch Watch está encorajando os jardineiros a cultivar asclépias.

Taylor, da Monarch Watch, fez uma proposta simples e talvez irônica às empresas de biotecnologia. “Peço encarecidamente que desenvolvam uma asclépia resistente ao Roundup”, afirmou.

Fonte: Portal iG