18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


10 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Etanol sem efeitos sobre plantio de grãos

Cientistas descobrem que a agave, usada para fazer tequila, pode ser transformada em etanol com uma série de vantagens em relação à cana-de-açúcar. A principal é a viabilidade para ser plantada em regiões semiáridas, não adequadas ao cultivo de alimentos.

As plantas do gênero agave, encontradas em grande quantidade no México, são normalmente usadas para fazer o combustível que costuma animar festas no ritmo da salsa e do merengue: a tequila. Pesquisadores das universidades de Oxford, no Reino Unido, e de Sydney, na Austrália, descobriram, entretanto, que esses vegetais podem ser transformados em combustível de verdade, ou, mais especificamente, no bioetanol.

No estudo, publicado na revista Energy and environmental science, investigadores britânicos e australianos perceberam que o cultivo da agave apresenta uma série de vantagens em relação à produção de etanol a partir do milho e da cana-de açúcar. “Além de crescer em terras com limitada quantidade de água, essa planta evita a competição com a produção de alimentos, já que certos tipos de grãos podem ser cultivados na mesma área da agave sem problemas”, exemplifica Daniel Tan, um dos autores da pesquisa, em entrevista ao Correio.

O estudo surgiu de uma reflexão da equipe sobre a crescente escassez de petróleo no mundo e a dependência da população em usar combustíveis fósseis, que poluem o ar e são uns dos principais causadores do efeito estufa. Nessa análise – que, segundo Tan, foi a primeira do ciclo de vida do agave como matéria-prima do bioetanol -, a equipe plantou o vegetal na Austrália, no estado de Queensland. Foram estudados o processo de cultivo da planta, a remoção de ervas daninhas, a colheita do material e sua transformação em álcool anidro e hidratado. O biocombustível feito da planta que dá origem à tequila, da espécie Agave tequilana, mostra que a liberação de dióxido de carbono para o ambiente (calculado na proporção de 35 gramas para cada megajoule produzido) é menor do que ao fabricar etanol a partir do milho, cuja emissão é de 85g/MJ.

Para comparar, a queima do petróleo para ser transformado em gasolina lança no ar cerca de 100g/MJ. No entanto, o produto ainda é mais poluente do que o derivado da cana-de-açúcar, que tem proporção de 20g/MJ. “O etanol derivado da agave tem um equilíbrio energético positivo: a energia criada é cinco vezes maior do que a necessária para produzi-lo”, ressalta Tan, doutor em fisiologia de plantas pela Universidade de Sydney.

“Ela demonstra que é possível ter resultados duplamente benéficos. Com o combustível, principalmente o álcool hidratado, você pode abastecer veículos e também reduzir a emissão de carbono na atmosfera”, comemora.

Facilidade – A maior vantagem da agave em relação à cana-de-açúcar, base do álcool combustível no Brasil, seria a capacidade de o vegetal se desenvolver em ambientes semiáridos. No caso da cana, é necessário haver água em grandes quantidades e solo fértil para um cultivo eficiente. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o cientista da Universidade de Oxford Andrew Smith destacou que, diferentemente do vegetal brasileiro, a planta presente em maior quantidade no México se adapta às mudanças climáticas. “Em um mundo onde terras aráveis e recursos hídricos estão cada vez mais escassos, a capacidade de sobreviver em diferentes ambientes é um atributo-chave na discussão da produção de alimentos contra combustíveis.”

A pesquisa também revela que a Agave sislana, que dá origem ao sisal, pode ser uma outra fonte de etanol. Tan afirma que há um estudo em andamento sobre o uso da biomassa do sisal para essa produção, já que, após a extração da fibra para fazer fios, 96% da planta são descartados em lagoas, rios e mares, poluindo o meio ambiente. O projeto estudado é uma parceria do Instituto de Inovação em Produção da Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, com a Universidade de Aalborg, na Dinamarca.

Para Tan, o uso de bioetanol é apenas uma parte da solução para a questão dos combustíveis renováveis. “Eu e toda a equipe esperamos que, futuramente, carros elétricos híbridos e carros movidos a células de hidrogênio sejam baratos o suficiente para se espalhar entre a população mundial. Isso seria mais eficiente”, acredita.

A pesquisa destaca, ainda, que a produção de biogás ou bioeletricidade a partir do bagaço da agave poderia ser benéfica para países em desenvolvimento, que poderiam reduzir, a longo prazo, o custo da energia elétrica em fábricas e usinas. Daniel Tan afirma que esse pode ser o foco de um novo estudo sobre a Agave tequilana, no qual pretende associar o conhecimento de agrônomos, tecnólogos e biólogos em geral. Outros usos alternativos dos resíduos da agave observados no estudo consistem em ração animal, papel, bioplástico e carbono ativado.

Nos postos – O álcool anidro tem, em sua composição, 99,5% de álcool puro e 0,5% de água. Esse produto, no Brasil, é misturado à gasolina vendida nos postos de combustíveis, representando entre 18% e 25% da solução. Se adicionado em pequenas proporções na gasolina, não afeta o desempenho dos motores de veículos. Já o álcool hidratado é formado por 96% de álcool puro e 4% de água. É o etanol presente nos postos, que também pode ser usado para abastecer automóveis que têm motor bicombustível, mais conhecido como flex.

Fonte: Correio Braziliense


9 de maio de 2011 | nenhum comentário »

Nova vítima do aquecimento global é o pão francês

A principal matéria-prima do pão francês é a mais nova vítima do aquecimento global: o trigo está sendo afetado pelo aumento da temperatura, e as lavouras de milho seguem a mesma tendência.

Não que as safras estejam diminuindo. Pelo contrário, estão aumentando devido aos avanços nas tecnologias de produção. O que acontece é que, com o aquecimento, esse aumento é menor do que aconteceria normalmente.

A afirmação é de cientistas das universidades Stanford e Columbia, nos EUA, que analisaram o impacto das mudanças climáticas nas quatro culturas que representam 75% das calorias consumidas pelos seres humanos: arroz, trigo, milho e soja.

Os cientistas usaram dados de temperatura e chuva do período entre 1980 e 2008, além de informações sobre colheitas em todo o mundo. Com isso, eles projetaram o resultado das lavouras sem o aquecimento e o compararam com o que realmente aconteceu nos campos.

A produção de trigo foi 5,5% menor do que seria se os termômetros não tivessem subido. A de milho também foi afetada, encolhendo 3,8%. Já lavouras de soja e de arroz não tiveram alterações.

Embora a redução ainda possa ser considerada modesta, ela já serve de alerta.

“Em alguns países, as tendências climáticas foram fortes o suficiente para compensar parcela significativa do aumento de produção das lavouras trazido pela tecnologia, fertilização com dióxido de carbono e outros fatores”, diz o trabalho, publicado na versão online da “Science”.

Para o climatologista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) José Marengo, a pesquisa é válida, mas deveria considerar um período de tempo maior.

“Os anos estudados são os extremos mais quentes. Eles deveriam ter considerado também as décadas de 1960 e 1970, mais frias. Isso poderia ter mostrado uma redução potencial menor das culturas”, disse à Folha.

Marengo também criticou os cientistas por dar “pouca importância” ao trabalho de adaptação das lavouras, como investimento em criação de variedades mais resistentes e outras tecnologias. “Enquanto não podemos reverter o aquecimento, é esse o caminho”, afirmou.

Ironicamente, os EUA, que no período foram os maiores poluidores do planeta, não tiveram aumento de temperatura e, consequentemente, perda potencial de produção.

No Brasil, a produção de trigo foi a mais afetada, seguida por uma queda mais modesta na de milho.

Locais muito frios para a agricultura, como partes do Canadá e áreas do Ártico, por outro lado, podem sair beneficiados com surgimento de zonas quentes agricultáveis.

Fonte: Giuliana Miranda, de São Paulo






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18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


10 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Etanol sem efeitos sobre plantio de grãos

Cientistas descobrem que a agave, usada para fazer tequila, pode ser transformada em etanol com uma série de vantagens em relação à cana-de-açúcar. A principal é a viabilidade para ser plantada em regiões semiáridas, não adequadas ao cultivo de alimentos.

As plantas do gênero agave, encontradas em grande quantidade no México, são normalmente usadas para fazer o combustível que costuma animar festas no ritmo da salsa e do merengue: a tequila. Pesquisadores das universidades de Oxford, no Reino Unido, e de Sydney, na Austrália, descobriram, entretanto, que esses vegetais podem ser transformados em combustível de verdade, ou, mais especificamente, no bioetanol.

No estudo, publicado na revista Energy and environmental science, investigadores britânicos e australianos perceberam que o cultivo da agave apresenta uma série de vantagens em relação à produção de etanol a partir do milho e da cana-de açúcar. “Além de crescer em terras com limitada quantidade de água, essa planta evita a competição com a produção de alimentos, já que certos tipos de grãos podem ser cultivados na mesma área da agave sem problemas”, exemplifica Daniel Tan, um dos autores da pesquisa, em entrevista ao Correio.

O estudo surgiu de uma reflexão da equipe sobre a crescente escassez de petróleo no mundo e a dependência da população em usar combustíveis fósseis, que poluem o ar e são uns dos principais causadores do efeito estufa. Nessa análise – que, segundo Tan, foi a primeira do ciclo de vida do agave como matéria-prima do bioetanol -, a equipe plantou o vegetal na Austrália, no estado de Queensland. Foram estudados o processo de cultivo da planta, a remoção de ervas daninhas, a colheita do material e sua transformação em álcool anidro e hidratado. O biocombustível feito da planta que dá origem à tequila, da espécie Agave tequilana, mostra que a liberação de dióxido de carbono para o ambiente (calculado na proporção de 35 gramas para cada megajoule produzido) é menor do que ao fabricar etanol a partir do milho, cuja emissão é de 85g/MJ.

Para comparar, a queima do petróleo para ser transformado em gasolina lança no ar cerca de 100g/MJ. No entanto, o produto ainda é mais poluente do que o derivado da cana-de-açúcar, que tem proporção de 20g/MJ. “O etanol derivado da agave tem um equilíbrio energético positivo: a energia criada é cinco vezes maior do que a necessária para produzi-lo”, ressalta Tan, doutor em fisiologia de plantas pela Universidade de Sydney.

“Ela demonstra que é possível ter resultados duplamente benéficos. Com o combustível, principalmente o álcool hidratado, você pode abastecer veículos e também reduzir a emissão de carbono na atmosfera”, comemora.

Facilidade – A maior vantagem da agave em relação à cana-de-açúcar, base do álcool combustível no Brasil, seria a capacidade de o vegetal se desenvolver em ambientes semiáridos. No caso da cana, é necessário haver água em grandes quantidades e solo fértil para um cultivo eficiente. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o cientista da Universidade de Oxford Andrew Smith destacou que, diferentemente do vegetal brasileiro, a planta presente em maior quantidade no México se adapta às mudanças climáticas. “Em um mundo onde terras aráveis e recursos hídricos estão cada vez mais escassos, a capacidade de sobreviver em diferentes ambientes é um atributo-chave na discussão da produção de alimentos contra combustíveis.”

A pesquisa também revela que a Agave sislana, que dá origem ao sisal, pode ser uma outra fonte de etanol. Tan afirma que há um estudo em andamento sobre o uso da biomassa do sisal para essa produção, já que, após a extração da fibra para fazer fios, 96% da planta são descartados em lagoas, rios e mares, poluindo o meio ambiente. O projeto estudado é uma parceria do Instituto de Inovação em Produção da Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, com a Universidade de Aalborg, na Dinamarca.

Para Tan, o uso de bioetanol é apenas uma parte da solução para a questão dos combustíveis renováveis. “Eu e toda a equipe esperamos que, futuramente, carros elétricos híbridos e carros movidos a células de hidrogênio sejam baratos o suficiente para se espalhar entre a população mundial. Isso seria mais eficiente”, acredita.

A pesquisa destaca, ainda, que a produção de biogás ou bioeletricidade a partir do bagaço da agave poderia ser benéfica para países em desenvolvimento, que poderiam reduzir, a longo prazo, o custo da energia elétrica em fábricas e usinas. Daniel Tan afirma que esse pode ser o foco de um novo estudo sobre a Agave tequilana, no qual pretende associar o conhecimento de agrônomos, tecnólogos e biólogos em geral. Outros usos alternativos dos resíduos da agave observados no estudo consistem em ração animal, papel, bioplástico e carbono ativado.

Nos postos – O álcool anidro tem, em sua composição, 99,5% de álcool puro e 0,5% de água. Esse produto, no Brasil, é misturado à gasolina vendida nos postos de combustíveis, representando entre 18% e 25% da solução. Se adicionado em pequenas proporções na gasolina, não afeta o desempenho dos motores de veículos. Já o álcool hidratado é formado por 96% de álcool puro e 4% de água. É o etanol presente nos postos, que também pode ser usado para abastecer automóveis que têm motor bicombustível, mais conhecido como flex.

Fonte: Correio Braziliense


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Nova vítima do aquecimento global é o pão francês

A principal matéria-prima do pão francês é a mais nova vítima do aquecimento global: o trigo está sendo afetado pelo aumento da temperatura, e as lavouras de milho seguem a mesma tendência.

Não que as safras estejam diminuindo. Pelo contrário, estão aumentando devido aos avanços nas tecnologias de produção. O que acontece é que, com o aquecimento, esse aumento é menor do que aconteceria normalmente.

A afirmação é de cientistas das universidades Stanford e Columbia, nos EUA, que analisaram o impacto das mudanças climáticas nas quatro culturas que representam 75% das calorias consumidas pelos seres humanos: arroz, trigo, milho e soja.

Os cientistas usaram dados de temperatura e chuva do período entre 1980 e 2008, além de informações sobre colheitas em todo o mundo. Com isso, eles projetaram o resultado das lavouras sem o aquecimento e o compararam com o que realmente aconteceu nos campos.

A produção de trigo foi 5,5% menor do que seria se os termômetros não tivessem subido. A de milho também foi afetada, encolhendo 3,8%. Já lavouras de soja e de arroz não tiveram alterações.

Embora a redução ainda possa ser considerada modesta, ela já serve de alerta.

“Em alguns países, as tendências climáticas foram fortes o suficiente para compensar parcela significativa do aumento de produção das lavouras trazido pela tecnologia, fertilização com dióxido de carbono e outros fatores”, diz o trabalho, publicado na versão online da “Science”.

Para o climatologista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) José Marengo, a pesquisa é válida, mas deveria considerar um período de tempo maior.

“Os anos estudados são os extremos mais quentes. Eles deveriam ter considerado também as décadas de 1960 e 1970, mais frias. Isso poderia ter mostrado uma redução potencial menor das culturas”, disse à Folha.

Marengo também criticou os cientistas por dar “pouca importância” ao trabalho de adaptação das lavouras, como investimento em criação de variedades mais resistentes e outras tecnologias. “Enquanto não podemos reverter o aquecimento, é esse o caminho”, afirmou.

Ironicamente, os EUA, que no período foram os maiores poluidores do planeta, não tiveram aumento de temperatura e, consequentemente, perda potencial de produção.

No Brasil, a produção de trigo foi a mais afetada, seguida por uma queda mais modesta na de milho.

Locais muito frios para a agricultura, como partes do Canadá e áreas do Ártico, por outro lado, podem sair beneficiados com surgimento de zonas quentes agricultáveis.

Fonte: Giuliana Miranda, de São Paulo