14 de novembro de 2012 | nenhum comentário »

Oceanógrafo defende controle ambiental na área de exploração do pré-sal

A sustentabilidade dos oceanos é um dos principais temas de debate do 5º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO’2012), aberto nesta terça-feira (13), no Rio de Janeiro. Em entrevista à Agência Brasil, o presidente do congresso, Carlos Leandro da Silva Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano), defendeu controle ambiental na área de exploração do pré-sal.

“A gente tem visto aumento da produção de petróleo e a discussão no Congresso em torno da divisão dos royalties do petróleo, mas ninguém bota a questão ambiental no âmbito do pré-sal. Ou seja: o que está se fazendo na realidade para um bom monitoramento ambiental da região que ninguém conhece?”.

Leandro enfatizou a necessidade de se evitar o que ocorreu na Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro. Ali, disse, os trabalhos de exploração e perfuração começaram a ser efetuados antes da realização de estudos ambientais. Com isso, perderam-se as referências de como era o ambiente naquele local, indicou o presidente do CBO’2012.

Ele ressaltou a importância da linha base do processo de conhecimento, para evitar consequências negativas no futuro. “Como você vai preservar uma coisa que não conhece?”, indagou, para acrescentar: “A gente acha que antes de começar a produção e os investimentos, a preocupação deveria ser a realização de estudos em oceanografia para desenvolver o conhecimento na região, ter o mapeamento de tudo da área de biologia, de pesca, química, sísmica, para depois poder furar”. Prejuízos à flora e à fauna marinha serão abordados. “Não se pode mitigar alguma coisa sem conhecer antes”, reiterou.

Outra preocupação diz respeito à questão das energias renováveis nos oceanos. Isso envolve, segundo o presidente do congresso, a geração de energia a partir das ondas e a energia eólica no mar. “São temas que têm de ser discutidos”. Os corais encontrados em águas profundas e os impactos das mudanças climáticas nos corais são outros temas que serão debatidos durante o encontro, que se estenderá até o próximo dia 16.

Carlos Leandro salientou, ainda, a questão da gestão e da segurança dos portos. “Em um país como o nosso, que precisa crescer, porto é fundamental do ponto de vista de exportação e importação. O Brasil precisa ter bons portos, com segurança operacional, com conhecimento das áreas do entorno”. É preciso que os portos estejam preparados para grandes acidentes, com planos de emergência para as áreas, defendeu.

O monitoramento e a mitigação de vazamentos de óleo no mar serão examinados durante o congresso, para evitar que incidentes possam vir a afetar, inclusive, outros países, alertou o vice-presidente da Aoceano. É preciso, reforçou, que as pessoas atentem para o fato que o Brasil tem 8 mil quilômetros de costa e vejam a importância das espécies do oceano profundo e não somente das praias. “Tem que ver a importância do oceano no seu aspecto mais amplo”.

Além de workshops, visando à elaboração de propostas que serão encaminhadas à sociedade, o congresso contará com palestras de especialistas e apresentação de 1.360 trabalhos científicos. O evento conta com apoio da Marinha, da Petrobras, da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Está prevista palestra sobre a importância da oceanografia para a estratégia da Marinha. Durante o congresso, serão comemorados os 35 anos do curso de oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O CBO’2012 objetiva apresentar novos conhecimentos por meio de pesquisas técnicas e científicas na área dos oceanos. Esta é a primeira vez que o evento é promovido no Rio de Janeiro, estado considerado pela Aoceano uma referência no Brasil no que tange a questões no mar.

Em paralelo, ocorre a 7ª Feira Técnico-Científica Brasil Oceano, para apresentação, promoção e comercialização de novos produtos, serviços e tecnologias. Leandro revelou que a feira pretende estimular alunos do segundo grau de escolas públicas e privadas a conhecerem equipamentos usados em oceanografia, entre os quais um radar que mede correntes remotamente. A feira destaca também projetos ambientais desenvolvidos por organizações não governamentais (ONGs). “As ONGs não podem ficar fora do processo, porque além de formadoras de opinião, elas são uma forma de pressionar o setor produtivo a ter políticas ambientais”.

Fonte: Alana Gandra/ Agência Brasil


6 de junho de 2011 | nenhum comentário »

“Coastal Blue Carbon” – ecossistemas costeiros vegetados, sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas

Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Climáticas – Mudanças Climáticas.

Embora a redução das emissões de gases do efeito estufa esteja no centro da discussão sobre mudanças climáticas, o papel dos oceanos e seus ecossistemas tem sido ainda vastamente desconsiderados (Nellman et al. 2009).

 

Do total de carbono capturado pelos produtores primários no globo por meio da fotossíntese, mais da metade é capturado por organismos marinhos. Enquanto uma parte do carbono fixado retorna ao ambiente através da respiração e oxidação, o remanescente é estocado na biomassa dos organismos e também nos sedimentos marinhos, contribuindo ao seqüestro de carbono.

 

Ecossistemas marinhos costeiros – particularmente ecossistemas vegetados como manguezais, marismas e bancos de plantas submersas – cobrem menos que 0,5% do fundo marinho. Entretanto, possuem uma alta capacidade de seqüestrar carbono tanto na biomassa vegetal como nas camadas do sedimento logo abaixo, podendo ser responsáveis por mais de 50% de todo o carbono estocado nos sedimentos marinhos.

 

Entretanto, enquanto inúmeros esforços têm sido feitos para desacelerar a degradação de ecossistemas terrestres, através da proteção de florestas tropicais como um meio para mitigar a mudança climática, o papel dos ecossistemas costeiros tem sido negligenciado deste processo.

 

Devido às altas taxas de produção primária pela biomassa, a habilidade de reter partículas em suspensão e a alta capacidade de armazenagem de nutrientes no sedimento, ecossistemas costeiros vegetados estão entre os maiores sumidouros de carbono do planeta e, portanto, podem ser de suma importância na captação dos gases de efeito estufa e para contrapor o aquecimento global. Algumas estimativas sugerem que estes sumidouros possam capturar e estocar anualmente entre 235 a 450 Teragramas (Tg) de carbono (C), o que equivale a um terço ou até metade das emissões globais do setor de transportes, estimadas em torno de 1.000 Tg C por ano.

 

A destruição e degradação de zonas costeiras podem converter esses sumidouros naturais em grandes fontes de carbono para a atmosfera e agravar ainda mais o efeito estufa, já que o carbono seqüestrado ao longo de centenas ou milhares de anos, e depositado em espessas camadas do sedimento, poderá ser liberado a médio e/ou longo prazo. A magnitude destas emissões tornou-se aparente apenas recentemente e tais fontes ainda não têm sido consideradas nas contabilidades nacionais das emissões e nas existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Embora os números pareçam surpreendentes, as estimativas globais são grosseiras e baseadas, na grande maioria, em estudos obtidos no Hemisfério Norte. Portanto há um número grande de incertezas científicas e muitas deficiências de conhecimento regionais a serem preenchidas. Os fluxos de carbono ainda são pouco compreendidos na maioria das regiões costeiras do globo, incluindo as taxas de fixação pelos produtores primários, respiração e consumo pela comunidade, taxas de sedimentação e de exportação da matéria orgânica para zonas profundas. A área global ocupada pela vegetação costeira também não é completamente conhecida, assim como as taxas de perda destes ecossistemas, com enormes lacunas existentes em regiões como o Sudeste Asiático, América do Sul e África, onde se situam muitos dos importantes “blue carbon hot spots”.

 

Para discutir algumas destas questões científicas e suas implicações ambientais e econômicas, as organizações International Oceanographic Comission (IOC-Unesco), Conservation International (CI), International Union for Conservation of Nature (IUCN) e outros parceiros estão elaborando o programa intitulado “Coastal Blue Carbon”. Este programa planeja fornecer recomendações e coordenar futuros projetos para a utilização do carbono costeiro, ou “coastal blue carbon”, como uma ferramenta de conservação e manejo, de maneira a contribuir com a mitigação da mudança climática.

 

Portanto, o programa visa dar bases científicas, econômicas e políticas para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados à conservação dos ecossistemas costeiros.

 

Um das primeiras reuniões para discutir questões científicas relacionadas ao coastal blue carbon ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro de 2011 na sede da Unesco em Paris, reunindo pesquisadores de distintas regiões do globo. Além das organizações promotoras e das instituições de pesquisa, a reunião contou ainda com representantes da United Nation Environment Program (Unep), Global Environment Facility (GEF) e consultores ambientais e econômicos de organizações conservacionistas internacionais.

 

Esta reunião estabeleceu um Grupo de Trabalho para estudar e discutir, durante os próximos dois anos, questões relativas à contribuição dos ecossistemas costeiros – particularmente os vegetados – aos estoques globais de carbono e aos processos de seqüestro. Reconhecendo as lacunas regionais e a necessidade de maiores estudos o Grupo propôs, entre outras recomendações, a realização de inventários nacionais e globais sobre os estoques de carbono e o seu potencial de seqüestro, a identificação de áreas “hotspots” para conservação e/ou restauração e a quantificação de possíveis emissões associadas com a degradação dos ecossistemas costeiros. O Grupo ainda realizou recomendações para quantificar e monitorar o estoque de carbono e seus fluxos em várias escalas espaciais, assim como desenvolveu “guidelines” para a conservação dos depósitos costeiros.

 

Estas ações visam, a curto e médio prazo, promover a conservação e recuperação dos ecossistemas costeiros, como uma das estratégias viáveis de mitigação, inserindo o “blue carbon” dentro das existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Os resultados da reunião com as recomendações científicas serão inseridos em relatório elaborado pela CI e IOC-Unesco, previsto para ser lançado nos próximos meses.

 

Importância para o Brasil – O Brasil detém uma das mais extensas zonas costeiras e maiores áreas de manguezais do mundo, contendo inúmeros estuários e regiões de pradarias de plantas submersas, população concentrada na faixa litorânea e altas taxas de crescimento econômico nestas áreas. Portanto um “Hot Spot” em potencial para estudos e projetos demonstrativos dentro do tema “blue carbon”.

 

Entretanto, assim como para muitas outras regiões do globo, há uma enorme carência ou indisponibilidade de informações básicas, dificultando a realização imediata de um inventário nacional de emissões da zona costeira. Além disto, o rápido desenvolvimento da zona costeira ameaça drasticamente o restante da área existente e o papel destes ecossistemas.

 

O conceito “blue carbon” – carbono capturado e estocado pelas áreas costeiras vegetadas – fornece uma nova ênfase ao estudo e conservação das áreas úmidas vegetadas, propondo mudanças nos incentivos econômicos e novos mecanismos de valoração destes ecossistemas. Assim como no mecanismo Reed (Reduced Emissions from Deforestation and Degradation), o pagamento pelo “blue carbon” tem um grande potencial para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos destas áreas tão ameaçadas, em escala local e regional. O sucesso depende, entretanto, de um rearranjo que não tenha impactos negativos para a sobrevivência das populações locais, as quais dependem dos recursos destes ecossistemas.

 

Adicionalmente, o processo de construção da proposta e implementação futura deste mecanismo deve tomar um cuidado redobrado (assim como no Reed) para que as recomendações, e o reconhecimento do papel mitigatório destes ecossistemas, não sejam utilizados como uma “bengala” dentro do mercado de carbono, justificando menores taxas de redução ou “não redução” de emissões por países desenvolvidos.

 

Margareth Copertino é professora do Instituto de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e integrante do Blue Carbon International Scientific Working Group.

 

Mais informações – Murray et al. 2010. Payments for Blue Carbon: Potential for Protecting Threatened Coastal Habitats. Nicolas Institute Policy Brief. http://nicholasinstitute.duke.edu/oceans/marinees/blue-carbon.

 

Nellmann et al. (Eds). 2009 Blue Carbon. A Rapid Response Assessment. United Nations Environment Programme. http://www.grida.no/publications/rr/blue-carbon

Blue Carbon International Scientific Working Group. http://www.marineclimatechange.com/marineclimatechange/bluecarbon_2.html

Blue Carbon Portal. http://bluecarbonportal.org/?p=536

Fonte: Jornal da Ciência






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14 de novembro de 2012 | nenhum comentário »

Oceanógrafo defende controle ambiental na área de exploração do pré-sal

A sustentabilidade dos oceanos é um dos principais temas de debate do 5º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO’2012), aberto nesta terça-feira (13), no Rio de Janeiro. Em entrevista à Agência Brasil, o presidente do congresso, Carlos Leandro da Silva Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano), defendeu controle ambiental na área de exploração do pré-sal.

“A gente tem visto aumento da produção de petróleo e a discussão no Congresso em torno da divisão dos royalties do petróleo, mas ninguém bota a questão ambiental no âmbito do pré-sal. Ou seja: o que está se fazendo na realidade para um bom monitoramento ambiental da região que ninguém conhece?”.

Leandro enfatizou a necessidade de se evitar o que ocorreu na Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro. Ali, disse, os trabalhos de exploração e perfuração começaram a ser efetuados antes da realização de estudos ambientais. Com isso, perderam-se as referências de como era o ambiente naquele local, indicou o presidente do CBO’2012.

Ele ressaltou a importância da linha base do processo de conhecimento, para evitar consequências negativas no futuro. “Como você vai preservar uma coisa que não conhece?”, indagou, para acrescentar: “A gente acha que antes de começar a produção e os investimentos, a preocupação deveria ser a realização de estudos em oceanografia para desenvolver o conhecimento na região, ter o mapeamento de tudo da área de biologia, de pesca, química, sísmica, para depois poder furar”. Prejuízos à flora e à fauna marinha serão abordados. “Não se pode mitigar alguma coisa sem conhecer antes”, reiterou.

Outra preocupação diz respeito à questão das energias renováveis nos oceanos. Isso envolve, segundo o presidente do congresso, a geração de energia a partir das ondas e a energia eólica no mar. “São temas que têm de ser discutidos”. Os corais encontrados em águas profundas e os impactos das mudanças climáticas nos corais são outros temas que serão debatidos durante o encontro, que se estenderá até o próximo dia 16.

Carlos Leandro salientou, ainda, a questão da gestão e da segurança dos portos. “Em um país como o nosso, que precisa crescer, porto é fundamental do ponto de vista de exportação e importação. O Brasil precisa ter bons portos, com segurança operacional, com conhecimento das áreas do entorno”. É preciso que os portos estejam preparados para grandes acidentes, com planos de emergência para as áreas, defendeu.

O monitoramento e a mitigação de vazamentos de óleo no mar serão examinados durante o congresso, para evitar que incidentes possam vir a afetar, inclusive, outros países, alertou o vice-presidente da Aoceano. É preciso, reforçou, que as pessoas atentem para o fato que o Brasil tem 8 mil quilômetros de costa e vejam a importância das espécies do oceano profundo e não somente das praias. “Tem que ver a importância do oceano no seu aspecto mais amplo”.

Além de workshops, visando à elaboração de propostas que serão encaminhadas à sociedade, o congresso contará com palestras de especialistas e apresentação de 1.360 trabalhos científicos. O evento conta com apoio da Marinha, da Petrobras, da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Está prevista palestra sobre a importância da oceanografia para a estratégia da Marinha. Durante o congresso, serão comemorados os 35 anos do curso de oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O CBO’2012 objetiva apresentar novos conhecimentos por meio de pesquisas técnicas e científicas na área dos oceanos. Esta é a primeira vez que o evento é promovido no Rio de Janeiro, estado considerado pela Aoceano uma referência no Brasil no que tange a questões no mar.

Em paralelo, ocorre a 7ª Feira Técnico-Científica Brasil Oceano, para apresentação, promoção e comercialização de novos produtos, serviços e tecnologias. Leandro revelou que a feira pretende estimular alunos do segundo grau de escolas públicas e privadas a conhecerem equipamentos usados em oceanografia, entre os quais um radar que mede correntes remotamente. A feira destaca também projetos ambientais desenvolvidos por organizações não governamentais (ONGs). “As ONGs não podem ficar fora do processo, porque além de formadoras de opinião, elas são uma forma de pressionar o setor produtivo a ter políticas ambientais”.

Fonte: Alana Gandra/ Agência Brasil


6 de junho de 2011 | nenhum comentário »

“Coastal Blue Carbon” – ecossistemas costeiros vegetados, sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas

Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Climáticas – Mudanças Climáticas.

Embora a redução das emissões de gases do efeito estufa esteja no centro da discussão sobre mudanças climáticas, o papel dos oceanos e seus ecossistemas tem sido ainda vastamente desconsiderados (Nellman et al. 2009).

 

Do total de carbono capturado pelos produtores primários no globo por meio da fotossíntese, mais da metade é capturado por organismos marinhos. Enquanto uma parte do carbono fixado retorna ao ambiente através da respiração e oxidação, o remanescente é estocado na biomassa dos organismos e também nos sedimentos marinhos, contribuindo ao seqüestro de carbono.

 

Ecossistemas marinhos costeiros – particularmente ecossistemas vegetados como manguezais, marismas e bancos de plantas submersas – cobrem menos que 0,5% do fundo marinho. Entretanto, possuem uma alta capacidade de seqüestrar carbono tanto na biomassa vegetal como nas camadas do sedimento logo abaixo, podendo ser responsáveis por mais de 50% de todo o carbono estocado nos sedimentos marinhos.

 

Entretanto, enquanto inúmeros esforços têm sido feitos para desacelerar a degradação de ecossistemas terrestres, através da proteção de florestas tropicais como um meio para mitigar a mudança climática, o papel dos ecossistemas costeiros tem sido negligenciado deste processo.

 

Devido às altas taxas de produção primária pela biomassa, a habilidade de reter partículas em suspensão e a alta capacidade de armazenagem de nutrientes no sedimento, ecossistemas costeiros vegetados estão entre os maiores sumidouros de carbono do planeta e, portanto, podem ser de suma importância na captação dos gases de efeito estufa e para contrapor o aquecimento global. Algumas estimativas sugerem que estes sumidouros possam capturar e estocar anualmente entre 235 a 450 Teragramas (Tg) de carbono (C), o que equivale a um terço ou até metade das emissões globais do setor de transportes, estimadas em torno de 1.000 Tg C por ano.

 

A destruição e degradação de zonas costeiras podem converter esses sumidouros naturais em grandes fontes de carbono para a atmosfera e agravar ainda mais o efeito estufa, já que o carbono seqüestrado ao longo de centenas ou milhares de anos, e depositado em espessas camadas do sedimento, poderá ser liberado a médio e/ou longo prazo. A magnitude destas emissões tornou-se aparente apenas recentemente e tais fontes ainda não têm sido consideradas nas contabilidades nacionais das emissões e nas existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Embora os números pareçam surpreendentes, as estimativas globais são grosseiras e baseadas, na grande maioria, em estudos obtidos no Hemisfério Norte. Portanto há um número grande de incertezas científicas e muitas deficiências de conhecimento regionais a serem preenchidas. Os fluxos de carbono ainda são pouco compreendidos na maioria das regiões costeiras do globo, incluindo as taxas de fixação pelos produtores primários, respiração e consumo pela comunidade, taxas de sedimentação e de exportação da matéria orgânica para zonas profundas. A área global ocupada pela vegetação costeira também não é completamente conhecida, assim como as taxas de perda destes ecossistemas, com enormes lacunas existentes em regiões como o Sudeste Asiático, América do Sul e África, onde se situam muitos dos importantes “blue carbon hot spots”.

 

Para discutir algumas destas questões científicas e suas implicações ambientais e econômicas, as organizações International Oceanographic Comission (IOC-Unesco), Conservation International (CI), International Union for Conservation of Nature (IUCN) e outros parceiros estão elaborando o programa intitulado “Coastal Blue Carbon”. Este programa planeja fornecer recomendações e coordenar futuros projetos para a utilização do carbono costeiro, ou “coastal blue carbon”, como uma ferramenta de conservação e manejo, de maneira a contribuir com a mitigação da mudança climática.

 

Portanto, o programa visa dar bases científicas, econômicas e políticas para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados à conservação dos ecossistemas costeiros.

 

Um das primeiras reuniões para discutir questões científicas relacionadas ao coastal blue carbon ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro de 2011 na sede da Unesco em Paris, reunindo pesquisadores de distintas regiões do globo. Além das organizações promotoras e das instituições de pesquisa, a reunião contou ainda com representantes da United Nation Environment Program (Unep), Global Environment Facility (GEF) e consultores ambientais e econômicos de organizações conservacionistas internacionais.

 

Esta reunião estabeleceu um Grupo de Trabalho para estudar e discutir, durante os próximos dois anos, questões relativas à contribuição dos ecossistemas costeiros – particularmente os vegetados – aos estoques globais de carbono e aos processos de seqüestro. Reconhecendo as lacunas regionais e a necessidade de maiores estudos o Grupo propôs, entre outras recomendações, a realização de inventários nacionais e globais sobre os estoques de carbono e o seu potencial de seqüestro, a identificação de áreas “hotspots” para conservação e/ou restauração e a quantificação de possíveis emissões associadas com a degradação dos ecossistemas costeiros. O Grupo ainda realizou recomendações para quantificar e monitorar o estoque de carbono e seus fluxos em várias escalas espaciais, assim como desenvolveu “guidelines” para a conservação dos depósitos costeiros.

 

Estas ações visam, a curto e médio prazo, promover a conservação e recuperação dos ecossistemas costeiros, como uma das estratégias viáveis de mitigação, inserindo o “blue carbon” dentro das existentes regulamentações e políticas sobre mudanças climáticas.

 

Os resultados da reunião com as recomendações científicas serão inseridos em relatório elaborado pela CI e IOC-Unesco, previsto para ser lançado nos próximos meses.

 

Importância para o Brasil – O Brasil detém uma das mais extensas zonas costeiras e maiores áreas de manguezais do mundo, contendo inúmeros estuários e regiões de pradarias de plantas submersas, população concentrada na faixa litorânea e altas taxas de crescimento econômico nestas áreas. Portanto um “Hot Spot” em potencial para estudos e projetos demonstrativos dentro do tema “blue carbon”.

 

Entretanto, assim como para muitas outras regiões do globo, há uma enorme carência ou indisponibilidade de informações básicas, dificultando a realização imediata de um inventário nacional de emissões da zona costeira. Além disto, o rápido desenvolvimento da zona costeira ameaça drasticamente o restante da área existente e o papel destes ecossistemas.

 

O conceito “blue carbon” – carbono capturado e estocado pelas áreas costeiras vegetadas – fornece uma nova ênfase ao estudo e conservação das áreas úmidas vegetadas, propondo mudanças nos incentivos econômicos e novos mecanismos de valoração destes ecossistemas. Assim como no mecanismo Reed (Reduced Emissions from Deforestation and Degradation), o pagamento pelo “blue carbon” tem um grande potencial para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos destas áreas tão ameaçadas, em escala local e regional. O sucesso depende, entretanto, de um rearranjo que não tenha impactos negativos para a sobrevivência das populações locais, as quais dependem dos recursos destes ecossistemas.

 

Adicionalmente, o processo de construção da proposta e implementação futura deste mecanismo deve tomar um cuidado redobrado (assim como no Reed) para que as recomendações, e o reconhecimento do papel mitigatório destes ecossistemas, não sejam utilizados como uma “bengala” dentro do mercado de carbono, justificando menores taxas de redução ou “não redução” de emissões por países desenvolvidos.

 

Margareth Copertino é professora do Instituto de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e integrante do Blue Carbon International Scientific Working Group.

 

Mais informações – Murray et al. 2010. Payments for Blue Carbon: Potential for Protecting Threatened Coastal Habitats. Nicolas Institute Policy Brief. http://nicholasinstitute.duke.edu/oceans/marinees/blue-carbon.

 

Nellmann et al. (Eds). 2009 Blue Carbon. A Rapid Response Assessment. United Nations Environment Programme. http://www.grida.no/publications/rr/blue-carbon

Blue Carbon International Scientific Working Group. http://www.marineclimatechange.com/marineclimatechange/bluecarbon_2.html

Blue Carbon Portal. http://bluecarbonportal.org/?p=536

Fonte: Jornal da Ciência