14 de maio de 2012 | nenhum comentário »

Apesar de incertezas, dados sobre aquecimento estão cada vez mais fortes

Paulo Artaxo, físico da USP e membro do IPCC, o painel do clima da ONU, mostra o rascunho de um dos capítulos do próximo relatório do grupo, a ser lançado no ano que vem. O gráfico, uma estimativa da influência das nuvens e dos aerossóis (partículas em suspensão no ar) sobre o clima da Terra, pode parecer decepcionante para quem quer respostas prontas da ciência. Do último relatório do IPCC (de 2007) para cá, a incerteza sobre esse fator aumentou, em vez de cair.

Paradoxalmente, diz ele, isso se deu porque a ciência do clima melhorou, incorporando cada vez mais a complexidade da natureza em seus modelos computacionais, usados para prever como será a Terra do futuro.

O resultado desses avanços não deve fazer os céticos sobre o aquecimento global cantarem vitória. Incertezas à parte, é muito difícil abalar a alta probabilidade de que, ao longo deste século, o planeta vai esquentar mais alguns graus Celsius (algo entre 2º C e 5º C).

“Eu não acredito que isso seja um cenário de fim de mundo, mas as consequências sociais e econômicas vão ser sérias”, sentencia Artaxo.

Ele e outros pesquisadores de destaque da área, ouvidos pela Folha, são unânimes em dar de ombros diante do recente mea culpa do britânico James Lovelock.

GAIA E CIÊNCIA

Criador da célebre hipótese Gaia (que enxerga a Terra como um gigantesco ser vivo), ele causou barulho ao dizer, anos atrás, que o aquecimento global mataria bilhões de pessoas até 2100, confinando os poucos sobreviventes no Ártico.

No mês passado, ele se retratou, dizendo estranhar porque o planeta ainda não esquentou mais.

“Eu não sei se ele esperava um aquecimento maior, mas posso dizer que o aquecimento que de fato ocorreu [cerca de 1ºC] está perfeitamente de acordo com as previsões do IPCC”, diz Artaxo.

“E note que em nenhum momento ele nega que o aquecimento esteja ocorrendo ou seja causado pela ação humana”, completa Tercio Abrizzi, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

A temperatura global, neste começo de século 21, parece mais ou menos estacionada no nível mais quente alcançado no fim do século 20.

“É preciso lembrar, primeiro, que esses degraus são previstos nos modelos climáticos”, diz Abrizzi. “E há excelentes trabalhos recentes mostrando que as camadas superficiais do oceano estão ficando mais quentes.” É como se eles, temporariamente, funcionassem como um “amortecedor” do clima.

Outro possível amortecedor são os aerossóis, como as partículas de enxofre liberadas pela poluição industrial. Amargo paradoxo: tornar o ar das cidades mais respirável pode engatar a quinta marcha do aquecimento.

“Há inúmeros tipos de aerossóis e nuvens, que podem se comportar de um jeito no nível do mar, de outro a 1.000 m de altitude e de outro na estratosfera”, diz Artaxo.

É por causa dessa complexidade que a incerteza dos modelos cresce. Mas, como a proverbial faca, ela corta dos dois lados: pode muito bem revelar um risco ainda maior da mudança climática.

Editoria de Arte/Folhapress

Fonte: Folha.com


27 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Estudo registra derretimento de geleiras no Himalaia chinês

Estações a mais de 4.000 m registraram 1,7º de aquecimento em 47 anos.
Lagos alimentados pelo gelo das montanhas aumentaram de tamanho.

A rápida elevação das temperaturas, causada pelas mudanças climáticas, está provocando o derretimento das geleiras chinesas na Cordilheira do Himalaia, um impacto que ameaça habitats, o turismo e o desenvolvimento econômico da região, alerta um estudo publicado nesta terça-feira (25).

Das 111 estações meteorológicas espalhadas pelo sudoeste da China, 77% demonstraram elevações significativas de temperaturas entre 1961 e 2008, segundo o estudo, publicado no periódico britânico “Environmental Research Letters”.

Nas 14 estações de monitoramento acima dos 4.000 metros, o salto neste período foi de 1,73 grau Celsius, aproximadamente duas vezes a elevação média global registrada ao longo do último século.

Cientistas liderados por Li Zhongxing, da Academia Chinesa de Ciências, identificaram três alterações em curso nas geleiras que poderiam ser causadas, pelo menos em parte, por esta tendência constante de aquecimento.

Segundo eles, a maior parte das geleiras examinadas demonstrou um “recuo drástico”, além de uma grande perda de massa.

O estudo também demonstrou que lagos glaciais, alimentados pelo gelo derretido de geleiras, aumentaram de tamanho.

“As implicações destas mudanças são muito mais sérias do que uma mera alteração da paisagem”, alertaram os cientistas.

“As geleiras integram milhares de ecossistemas e desempenham um papel crucial no sustento de populações humanas”, acrescentaram.

O sudoeste da China tem 23.488 geleiras, cobrindo uma área de 29.523 quilômetros quadrados, através do Himalaia e das montanhas Nyainqntanglha, Tanggula e Hengduans.

Mudanças no padrão de chuvas e das nevascas foram menos marcantes, mas ainda consistentes com as previsões de modelos de mudanças climáticas, afirmaram.

“É imperativo que determinemos a relação entre as mudanças climáticas e variações nas geleiras, particularmente o papel das precipitações, uma vez que as consequências do recuo do gelo são muito abrangentes”, disse Li.

Geleira no sul da China, quase na fronteira com o Nepal. (Foto: AFP)

Geleira no sul da China, quase na fronteira com o Nepal. (Foto: AFP)

Fonte: AFP






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14 de maio de 2012 | nenhum comentário »

Apesar de incertezas, dados sobre aquecimento estão cada vez mais fortes

Paulo Artaxo, físico da USP e membro do IPCC, o painel do clima da ONU, mostra o rascunho de um dos capítulos do próximo relatório do grupo, a ser lançado no ano que vem. O gráfico, uma estimativa da influência das nuvens e dos aerossóis (partículas em suspensão no ar) sobre o clima da Terra, pode parecer decepcionante para quem quer respostas prontas da ciência. Do último relatório do IPCC (de 2007) para cá, a incerteza sobre esse fator aumentou, em vez de cair.

Paradoxalmente, diz ele, isso se deu porque a ciência do clima melhorou, incorporando cada vez mais a complexidade da natureza em seus modelos computacionais, usados para prever como será a Terra do futuro.

O resultado desses avanços não deve fazer os céticos sobre o aquecimento global cantarem vitória. Incertezas à parte, é muito difícil abalar a alta probabilidade de que, ao longo deste século, o planeta vai esquentar mais alguns graus Celsius (algo entre 2º C e 5º C).

“Eu não acredito que isso seja um cenário de fim de mundo, mas as consequências sociais e econômicas vão ser sérias”, sentencia Artaxo.

Ele e outros pesquisadores de destaque da área, ouvidos pela Folha, são unânimes em dar de ombros diante do recente mea culpa do britânico James Lovelock.

GAIA E CIÊNCIA

Criador da célebre hipótese Gaia (que enxerga a Terra como um gigantesco ser vivo), ele causou barulho ao dizer, anos atrás, que o aquecimento global mataria bilhões de pessoas até 2100, confinando os poucos sobreviventes no Ártico.

No mês passado, ele se retratou, dizendo estranhar porque o planeta ainda não esquentou mais.

“Eu não sei se ele esperava um aquecimento maior, mas posso dizer que o aquecimento que de fato ocorreu [cerca de 1ºC] está perfeitamente de acordo com as previsões do IPCC”, diz Artaxo.

“E note que em nenhum momento ele nega que o aquecimento esteja ocorrendo ou seja causado pela ação humana”, completa Tercio Abrizzi, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

A temperatura global, neste começo de século 21, parece mais ou menos estacionada no nível mais quente alcançado no fim do século 20.

“É preciso lembrar, primeiro, que esses degraus são previstos nos modelos climáticos”, diz Abrizzi. “E há excelentes trabalhos recentes mostrando que as camadas superficiais do oceano estão ficando mais quentes.” É como se eles, temporariamente, funcionassem como um “amortecedor” do clima.

Outro possível amortecedor são os aerossóis, como as partículas de enxofre liberadas pela poluição industrial. Amargo paradoxo: tornar o ar das cidades mais respirável pode engatar a quinta marcha do aquecimento.

“Há inúmeros tipos de aerossóis e nuvens, que podem se comportar de um jeito no nível do mar, de outro a 1.000 m de altitude e de outro na estratosfera”, diz Artaxo.

É por causa dessa complexidade que a incerteza dos modelos cresce. Mas, como a proverbial faca, ela corta dos dois lados: pode muito bem revelar um risco ainda maior da mudança climática.

Editoria de Arte/Folhapress

Fonte: Folha.com


27 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Estudo registra derretimento de geleiras no Himalaia chinês

Estações a mais de 4.000 m registraram 1,7º de aquecimento em 47 anos.
Lagos alimentados pelo gelo das montanhas aumentaram de tamanho.

A rápida elevação das temperaturas, causada pelas mudanças climáticas, está provocando o derretimento das geleiras chinesas na Cordilheira do Himalaia, um impacto que ameaça habitats, o turismo e o desenvolvimento econômico da região, alerta um estudo publicado nesta terça-feira (25).

Das 111 estações meteorológicas espalhadas pelo sudoeste da China, 77% demonstraram elevações significativas de temperaturas entre 1961 e 2008, segundo o estudo, publicado no periódico britânico “Environmental Research Letters”.

Nas 14 estações de monitoramento acima dos 4.000 metros, o salto neste período foi de 1,73 grau Celsius, aproximadamente duas vezes a elevação média global registrada ao longo do último século.

Cientistas liderados por Li Zhongxing, da Academia Chinesa de Ciências, identificaram três alterações em curso nas geleiras que poderiam ser causadas, pelo menos em parte, por esta tendência constante de aquecimento.

Segundo eles, a maior parte das geleiras examinadas demonstrou um “recuo drástico”, além de uma grande perda de massa.

O estudo também demonstrou que lagos glaciais, alimentados pelo gelo derretido de geleiras, aumentaram de tamanho.

“As implicações destas mudanças são muito mais sérias do que uma mera alteração da paisagem”, alertaram os cientistas.

“As geleiras integram milhares de ecossistemas e desempenham um papel crucial no sustento de populações humanas”, acrescentaram.

O sudoeste da China tem 23.488 geleiras, cobrindo uma área de 29.523 quilômetros quadrados, através do Himalaia e das montanhas Nyainqntanglha, Tanggula e Hengduans.

Mudanças no padrão de chuvas e das nevascas foram menos marcantes, mas ainda consistentes com as previsões de modelos de mudanças climáticas, afirmaram.

“É imperativo que determinemos a relação entre as mudanças climáticas e variações nas geleiras, particularmente o papel das precipitações, uma vez que as consequências do recuo do gelo são muito abrangentes”, disse Li.

Geleira no sul da China, quase na fronteira com o Nepal. (Foto: AFP)

Geleira no sul da China, quase na fronteira com o Nepal. (Foto: AFP)

Fonte: AFP