14 de novembro de 2012 | nenhum comentário »

Organizações dizem que Brasil desperdiça potencial de energia limpa

Relatório de ONGs afirma que energias solar e eólica são subaproveitadas.
Texto aponta que sistema atual de geração de energia tem grandes perdas.

Relatório elaborado por organizações não governamentais, divulgado nesta segunda-feira (12), aponta que o Brasil não aproveita seu potencial de geração de energia solar e eólica devido à falta de infraestrutura.

De acordo com o documento “O setor elétrico brasileiro e a sustentabilidade no século 21: oportunidades e desafios”, produzido por especialistas da área ambiental e técnicos de ONGs como WWF, Greenpeace e Instituto Socioambiental (ISA), gargalos técnicos impedem o crescimento dessas modalidades consideradas limpas.

O texto diz que a falta de estrutura para transmissão e distribuição de energia eólica inviabiliza a instalação de mais torres pelo país. Segundo dados do Atlas Eólico Brasileiro, o país tem potencial para gerar 143 GW apenas com a força dos ventos, número que é 12 vezes maior que a capacidade instalada da futura usina hidrelétrica de Belo Monte, em construção no Rio Xingu, no Pará.

Outro entrave citado no documento está ligado à falta de mão-de-obra e de tecnologias para suprir o setor, o que inviabilizaria uma “arrancada” na expansão desta forma de geração de eletricidade. Sobre a energia solar, o relatório aponta que se fosse aproveitada a luz solar para consumo elétrico em menos de 3% da área urbanizada do Brasil, seria possível atender a 10% de toda a demanda atual de energia elétrica do país.

No entanto, projetos do governo que implantam placas solares em regiões distantes dos grandes centros consumidores torna inviável economicamente a construção de redes de transmissão. “Os maiores entraves ao aproveitamento e à expansão da energia solar no Brasil seguem sendo a falta de incentivos e políticas públicas que consolidem a indústria e o mercado”, informa o documento.

Desperdício e custo maior ao consumidor
O texto faz críticas à política brasileira de geração de energia por hidrelétricas e aponta possíveis prejuízos ao meio ambiente e a culturas indígenas devido a implantação de empreendimentos na Amazônia.

O relatório afirma também que o país tem registrado grandes perdas de quantidades de energia elétrica devido a problemas no sistema de transmissão elétrico. Baseado em dados Tribunal de Contas da União (TCU), o documento diz que em 2004 as perdas técnicas (causadas pelas peculiaridades do sistema) e comerciais (por exemplo, instalação de “gatos”) de energia no país foram de 20,28% do total gerado.

O índice supera em muito os registrados em países vizinhos como Chile (5,6%) e Colômbia somadas (11,5%%) no mesmo período. Ainda segundo o relatório, tais perdas teriam causado um reajuste de ao menos 5% na tarifa ao consumidor.

Perda é inevitável, diz operador nacional
De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a perda técnica é inevitável e está associada ao processo de transmissão. Segundo o órgão, o aquecimento dos cabos durante as transmissões provoca tais extravios, considerados naturais e com índices que se igualam a padrões mundiais.

Sobre as perdas comerciais, o ONS afirma que é um problema que deve ser resolvido pelas distribuidoras, já que seriam provocadas por vários fatores, entre eles, ligações clandestinas (conhecidas como gatos) em diversas cidades.

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), entre 2007 e 2010 as perdas técnicas de energia no país atingiram índice de 7%. A Aneel não divulgou o percentual de perdas comerciais para o mesmo período.

Usinas eólicas instaladas no Rio Grande do Sul (Foto: Divulgação/ABEEólica)

Usinas eólicas instaladas no Rio Grande do Sul (Foto: Divulgação/ABEEólica)

Energia solar é alternativa para obter eletricidade em meio à reserva ambiental (Foto: Mariane Rossi/G1)

Energia solar é alternativa para obter eletricidade em meio a reserva ambiental. Distância de grandes centros consumidores inviabiliza instalação de redes transmissoras (Foto: Mariane Rossi/G1)

Fonte: Globo Natureza


15 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Empresários discutem meios de conciliar produção e ambiente

A redução do consumo pelas pessoas, assim como a redução da produção por parte das empresas, não é o caminho para a transição para a economia verde, afirmou ontem (14) Tim Wall, representante do Fórum de Sustentabilidade Corporativa, evento da Rio+20 organizado pela ONU.

A busca por um novo modelo de negócios, que alie rentabilidade das empresas com desenvolvimento sustentável, será o objetivo fórum que começa nesta sexta-feira (15) e vai até o dia 18, no hotel Windsor Barra, zona oeste do Rio de Janeiro.

Wall, contudo, não deu uma receita de como alcançar o equilíbrio entre as necessidades básicas do capitalismo e os anseios ambientais.

No fórum, disse ele, serão discutidos o uso de materiais menos poluentes, reutilização de água e fontes mais limpas de geração de energia.

Também será debatido o papel dos governos no incentivo e promoção de práticas mais sustentáveis das empresas.

Ao final da conferência, que reunirá mais de mil empresas ao redor do mundo em cerca de cem palestras, um documento será apresentado aos chefes de Estado, que irão se reunir de 20 a 22, no Rio Centro.

“A crise financeira mostrou que a busca por lucros no curto prazo é insustentável. Não acho que a redução do consumo é o caminho para um novo modelo, mas isso não significa que tenhamos que discutir novas formas de fazer negócios”, disse, durante coletiva de imprensa no Palácio do Itamaraty, no Rio.

O evento é uma iniciativa do Pacto Global das Nações Unidas, que reúne cerca de 7.000 empresas signatárias. O objetivo é criar tendências de modelos de negócios menos impactantes. O Brasil possui 280 empresas signatárias.

Companhias brasileiras como Petrobras, Eletrobras e Vale farão palestras. A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster e o secretário-geral da presidência da República, Gilberto Carvalho, são dois dos convidados a falar.

Fonte: Folha.com

 


12 de março de 2012 | nenhum comentário »

É preciso correr, adverte a ciência

Artigo do jornalista Washington Novaes publicado no jornal O Estado de São Paulo de sexta-feira (9).

Deveria ser leitura obrigatória para todos os governantes, de todos os níveis, todos os lugares, o documento de 22 páginas entregue no último dia 20 de fevereiro, em Nairóbi, no Quênia, aos ministros reunidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, escrito e assinado por 20 dos mais destacados cientistas que já receberam o Prêmio Blue Planet, também chamado de Prêmio Nobel do Meio Ambiente. Entre eles estão a ex-primeira-ministra norueguesa, Gro Brundtland, coordenadora do primeiro relatório da ONU sobre desenvolvimento sustentável; James Lovelock, autor da “Teoria Gaia”; o professor José Goldemberg, ex-ministro brasileiro do Meio Ambiente; sir Nicholas Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial, consultor do governo britânico sobre clima; James Hansen, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais (Nasa); Bob Watson, conselheiro do governo britânico; Paul Ehrlich, da Universidade Stanford; Julia Marton-Lefèvre, da União Internacional para a Conservação da Natureza; Will Turner, da Conservação Internacional – e vários outros.

 

Nesse documento os cientistas traçam, com palavras sóbrias e cuidadosas, um panorama dramático da situação do mundo, hoje, em áreas vitais: clima; excesso de consumo e desperdício; fome; necessidade de aumentar a produção de alimentos e escassez de terras; desertificação e erosão; perda da biodiversidade e de outros recursos naturais; subsídios gigantescos nas áreas de transportes, energia, agricultura – e a necessidade de eliminá-los. Enfatizam a necessidade de “empoderamento” das mulheres e de grupos sociais marginalizados; substituir o produto interno bruto (PIB) como medida de riqueza e definir métodos que atribuam valor ao capital natural, humano e social; atribuir valor à biodiversidade e aos serviços dos ecossistemas e deles fazer a base da “economia verde”.

 

É um documento que, a cada parágrafo, provoca sustos e inquietações, ao traçar o panorama dramático que já vivemos em cada área e levar todo leitor a perguntar qual será o futuro de seus filhos e netos. “O atual sistema [no mundo] está falido”, diz Bob Watson. “Está conduzindo a humanidade para um futuro que é de 3 a 5 graus Celsius mais quente do que já tivemos; e está eliminando o ambiente natural, do qual dependem nossa saúde, riqueza e consciência. (…) Não podemos presumir que a tecnologia virá a tempo para resolver; ao contrário, precisamos de soluções humanas”.

 

“Temos um sonho”, afirma o documento. “De um mundo sem pobreza e equitativo – um mundo que respeite os direitos humanos – um mundo de comportamento ético mais amplo com relação à pobreza e aos recursos naturais – um mundo ambientalmente, socialmente e economicamente sustentável, onde desafios como mudanças climáticas, perda da biodiversidade e iniquidade social tenham sido enfrentados com êxito. Esse é um sonho realizável, mas o atual sistema está profundamente ferido e nossos caminhos atuais não o tornarão realidade”.

 

Segundo os cientistas, é urgente romper a relação entre produção e consumo, de um lado, e destruição ambiental, de outro: “Crescimento material sem limites num planeta com recursos naturais finitos e em geral frágeis será insustentável”, ainda mais com subsídios prejudiciais em áreas como energia (US$ 1 trilhão/ano), transporte e agricultura – “que deveriam ser eliminados”. A tese do documento é de que os custos ambientais e sociais deveriam ser internalizados em cada ação humana, cada projeto. Valores de bens e serviços dos ecossistemas precisam ser levados em conta na tomada de decisões. É algo na mesma direção das avaliações recentes de economistas e outros estudiosos, comentadas neste espaço, a respeito da finitude dos recursos naturais e da necessidade de recompor a vida econômica e social em função disso.

 

O balanço na área de energia é inquietador, com a dependência de combustíveis fósseis, danos para a saúde e as condições ambientais. Seria preciso proporcionar acesso universal de toda a população pobre aos formatos “limpos” e renováveis de energia – a transição para economia de “baixo carbono” -, assim como a formatos de captura e sepultamento de gases poluentes (ainda em avaliação). Como não caminhamos assim, as emissões de dióxido de carbono equivalente já chegam a 50 bilhões de toneladas anuais, com a atmosfera e os oceanos aumentando suas concentrações para 445 partes por milhão (ppm)- mais 2,5 ppm por ano, que desenham uma perspectiva de 750 ppm no fim do século. E com isso o aumento da temperatura poderá chegar a mais 5 graus Celsius.

 

Na área da biodiversidade, 15 dos 24 serviços de ecossistemas avaliados pelo Millenium Ecosystem Assessment estão em declínio – quando é preciso criar caminhos para atribuir valor à biodiversidade e seus serviços, base para uma “economia verde”. Mas para isso será preciso ter novos formatos de governança em todos os níveis – hoje as avaliações cabem a estruturas políticas, sociais, econômicas, ambientais, separadas e competindo entre elas.

 

E para que tudo isso seja possível, dizem os cientistas, se desejamos tornar reais os nossos sonhos, “o momento é agora” – enfrentando a inércia do sistema socioeconômico e impedindo que sejam irreversíveis as consequências das mudanças climáticas e da perda da biodiversidade. Se falharmos, vamos “empobrecer as atuais e as futuras gerações”. Esquecendo que vivemos em “uma sociedade global infestada pela crença irracional de que a economia física pode crescer sempre, deslembrada de que os ricos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento se tornam mais ricos e os pobres são deixados para trás”.

 

Não se trata de um manifesto de “ambientalistas”, “xiitas” ou hippies. São palavras de dezenas dos mais conceituados cientistas do mundo, que advertem: “A demora [em mudar] é perigosa e seria um erro profundo”. É preciso ler esse estudo (www.af-info.or.jp). Escutar. E dar consequências.

 

Fonte: Jornal da Ciência


11 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Curso de produção e comércio de mudas florestais nativas

O Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) realizará um curso de produção e comércio de mudas florestais nativas no dia 25 de fevereiro (sábado), no principal viveiro da instituição, localizado na cidade de Apucarana (PR). O objetivo é incentivar a oferta de mudas nativas no mercado para projetos de restauração florestal a partir de técnicas e métodos que garantam a melhor qualidade na produção para o mercado consumidor. Para participar, não é necessário conhecimento aprofundado sobre o tema, pois as aulas serão bastante práticas e dinâmicas. Ao final, os participantes receberão um referencial teórico para acompanhamento e o certificado de participação.

Mais informações pelo telefone (43) 3324-7551 ou pelos e-mails: thiago@plantearvore.com.brou marceli@plantearvore.com.br


23 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Recuperação de áreas de preservação permanente divide opiniões

As APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Onde hoje se vê mata fechada, só havia cana-de-açúcar dez anos atrás. Em uma fazenda foram plantadas quase um milhão de mudas de árvores para recuperar as áreas de preservação permanente.

APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Uma usina perdeu área de plantio de cana, mas conquistou o certificado de produção sustentável, valorizando a empresa no mercado internacional. “Ganhamos na exportação de álcool e de açúcar. O pessoal lá de fora quer saber se está fazendo preservação”, afirma Ricardo Ometto.

Em Iracemápolis, no interior de São Paulo, o desrespeito à APP deixou a represa que abastece o município desprotegida. Resultado: em 1985, a cidade ficou sem água. A área precisou ser recuperada em regime de urgência.

O plantio da cana-de-açúcar que ia até a beira da represa teve que recuar 100 metros. No local, foram plantadas árvores nativas. Nunca mais Iracemápolis teve problema de abastecimento de água.

Iracemápolis e a usina de cana são dois exemplos dos benefícios e da necessidade de se cuidar bem das APPs. O projeto do novo Código Florestal saiu da Câmara sem garantias de recuperação das APPs desmatadas antes de julho de 2008.

No Senado, a proposta evoluiu para assegurar que deve ser de 15 metros a faixa mínima de vegetação a ser recuperada às margens dos rios com até dez metros de largura. E os conselhos estaduais de meio ambiente ganham poder para ampliar a faixa de recuperação da mata ciliar, de acordo com as necessidades de cada área. No caso dos rios mais largos, pode chegar a 100 metros de extensão.

“Cabe à União Federal o estabelecimento de regras gerais para o país inteiro, mas o nosso país é um continente. Precisamos chamar os estados à responsabilidade de nos ajudar a fazer essa harmonia entre produção e conservação do meio ambiente”, afirmou o senador Jorge Viana (PT-AC), relator.

Uma das principais preocupações dos ambientalistas e da comunidade científica é garantir no Código Florestal a preservação das nascentes e córregos intermitentes que fornecem água apenas durante uma parte do ano, mas que são fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente.

O texto em debate no Senado ainda não garante a preservação das nascentes. Os ambientalistas vão apresentar uma emenda para resolver o problema. “A ideia é que se tenha um mínimo de 30 metros para as nascentes, os olhos d’água e demais rios. Isso é importante porque, como está previsto na regra que veio da Câmara, nascentes e os olhos d’água não teriam qualquer tipo de recuperação. O seria um absurdo porque é dali que nascem os rios”, explica Tasso Azevedo, ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) resiste à mudança, porque diz que ela atingiria pequenos e médios produtores. “Acho que seria interessante, por exemplo, excluirmos o plantio extensivo de milho, de algodão, de soja e abrir mão apenas para os pequenos e médios agricultores que têm uma pequena roça, uma pequena horta e uma pequena pastagem, uma campineira para seu gado de leite”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente do CNA.

Os ruralistas também não aceitam a retirada do gado das encostas dos morros, um ponto defendido pelos ambientalistas. “Gado e APP são duas coisas que se pudessem ser evitadas seria extremamente importante. O casco do gado gera um peso muito grande. Em geral, gera erosão, além de contaminar a água”, alerta Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama.

A pecuária é o principal uso da terra no Brasil. São 200 milhões de hectares de pastagem. A agricultura ocupa 65 milhões de hectares. A longo prazo, a solução é aumentar a produtividade da pecuária, inferior a uma cabeça de gado por hectare. Nas APPs à beira de rios, muitas áreas hoje ocupadas pelo gado poderiam ser restauradas sem grandes investimentos.

Há quatro anos, toda a área de uma propriedade era ocupada pelo pasto. Bastou tirar o gado para ver que as árvores cresceram naturalmente. A técnica pode ser aplicada com sucesso em 80% do país.

“Isso acontece na Amazônia, no Brasil central com os cerrados e em várias situações. Só 20% delas que foram muito degradadas historicamente é que, efetivamente, vão precisar de um investimento maior com o plantio de mudas”, explica Ricardo Rodrigues, professor – Esalq – USP.

Click e veja o vídeo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/11/recuperacao-de-areas-de-preservacao-permanente-divide-opinioes.html

Fonte: G1, Jornal Nacional


26 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Biodiesel de Algas: Promessa ou Futuro?

Confira o editorial do Journal of the Brazilian Chemical Society.

A demanda crescente por combustíveis “verdes” para a substituição dos combustíveis fósseis levou, em todo o mundo, ao lançamento de programas para a produção de biocombustíveis. O governo brasileiro, ao lançar primeiro o programa do álcool e depois o do biodiesel, saiu na frente nessa corrida. Hoje, no Brasil, é obrigatória a adição de álcool à gasolina (em teor que varia de 20 a 25% de acordo com a oferta de etanol anidro no mercado) e de biodiesel ao diesel (com teor fixo de 5%)¹. Para atender a demanda anual por mais de 40 bilhões de litros da mistura diesel/biodiesel, a produção desse biocombustível no Brasil já passou de 2 bilhões de litros ao ano, com uma forte tendência de aumento para conseguir acompanhar o crescente consumo da mistura diesel/biodiesel, que hoje cresce a uma taxa de quase 1% ao mês.

 

A vantagem dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis é a diminuição de emissão de CO2, SOx, fuligem e hidrocarbonetos. No entanto, se por um lado os biocombustíveis são menos poluidores, por outro a sua produção exige grandes áreas de terras agricultáveis. Como a demanda por combustíveis para transporte aumenta anualmente, a produção de biocombustíveis exigirá cada vez mais terras aráveis, e isso começa a ameaçar a segurança alimentar, porque produzir mais álcool significa produzir menos açúcar, e também porque, no Brasil, a maior parte do biodiesel é feita a partir do óleo de soja. Para que esse problema não se agrave, será necessário desenvolver novas tecnologias e, principalmente, passar a usar resíduos urbanos, industriais e agrícolas, além de novas fontes de biomassa como matéria-prima para a produção de biocombustíveis².

 

Entre as muitas alternativas de produção de biocombustíveis, o cultivo intensivo de algas e fungos vem recebendo especial atenção devido à possibilidade de se produzir até 200 vezes mais óleo ou açúcar por hectare, sem a necessidade do uso de terras férteis.

Tanto as algas como os fungos podem ser colhidos em poucos dias, o que não exige infraestrutura para armazenamento.

 

Esse fato levou pequenas e grandes empresas e muitos acadêmicos, em todo o mundo, a investirem recursos e muito tempo às pesquisas com algas como fonte de óleo e açúcar.

Os resultados alcançados, em pequena escala de laboratório, são animadores. Entretanto, todas as experiências com algas, em grande escala, para a produção de óleo visando a biocombustíveis falharam.

 

As principais razões dessas falhas foram:

1 – ataque de cepas selvagens não produtoras de óleo;

2 – preço alto dos nutrientes;

3 – o óleo obtido geralmente tem alto teor de ácidos graxos livres e elevado índice de iodo;

4 – dificuldades em se desidratar a alga para extração do óleo;

5 – controle difícil dos parâmetros acidez, temperatura e nutrientes para evitar quedas bruscas na produção e até mesmo a extinção dos cultivares das algas.

 

Como a tecnologia para a produção de biodiesel foi toda desenvolvida com base em catalisadores básicos³ o alto teor de ácidos graxos no óleo obtido de algas encarece o seu processo de produção, pois são necessárias onerosas etapas prévias de purificação. Esse problema é agravado pelo alto grau de insaturação do óleo que, por isso, é muito sensível à oxidação, sendo necessária a modificação do óleo antes de seu processamento ou o uso de aditivos antioxidantes. Em consequência, o custo de produção de óleo a partir de algas é hoje cerca de 20 vezes superior, por exemplo, ao do óleo de soja.

 

As algas têm grande potencial como futura fonte de matéria-prima para a produção de biodiesel. Entretanto, para que esse futuro se torne realidade, é necessário que se encontre condições adequadas para seu crescimento em grande escala, para que a produção de óleo seja viável economicamente. Até que isso aconteça, a produção de biodiesel a partir de algas deve ser encarada como uma solução de longo prazo. É por essas e outras razões que grandes empresas anunciaram recentemente que vão interromper suas pesquisas neste campo.

 

Hoje, a produção de biodiesel a partir de algas depende fortemente da pesquisa fundamental e de desenvolvimento tecnológico. Se as agências de fomento tiverem linhas de financiamento para estudos com algas para a produção de óleo, o Brasil poderá ganhar mais essa corrida dos biocombustíveis e começar, talvez, o que se pode chamar de uma segunda “revolução verde”.

 

Os programas do álcool e do biodiesel, além dos dividendos econômicos que renderam ao País, serviram para mostrar que sempre que há financiamento, os pesquisadores brasileiros se destacam no cenário internacional. O melhor exemplo é a liderança brasileira no ranking mundial das publicações científicas envolvendo estudos sobre biodiesel.

 

Referências

1. Pousa, G.P.A.G.; Santos, A.L.F.;Suarez, P.A.Z.; Energy Policy 2007, 35, 5393.

2. Suarez, P.A.Z.; Santos A.L.F.; Rodrigues J.P.; Alves, M. B.; Quim. Nova 2009, 32, 768.

3. Pinto, A. C.; Guarieiro, L. L. N.; Rezende, M. J. C.; Ribeiro, N. M.; Torres, E. A.; Lopes, W. A.; Pereira, P. A. P; de Andrade, J. B.; J. Braz. Chem. Soc. 2005, 16, 1313.

 

Editorial assinado pelos professores Paulo A. Z. Suarez (Universidade de Brasília) e Angelo C. Pinto (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Editor JBCS).

Fonte: Jornal da Ciência


10 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Vai faltar árvore no mercado?

Para especialistas, projetos de compensação ambiental no País podem entrar em crise com a escassez de mudas de espécies nativas

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“A prioridade é para espécies nativas, mas algumas importadas podem ser aceitas” Murilo Bustamante, promotor do Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro.(Foto: ISTOÉ)

O cenário não poderia ser mais favorável: há dinheiro, vontade e mão de obra capacitada para promover uma grande recuperação das florestas nativas brasileiras no rastro das ecologicamente corretas compensações ambientais. No entanto, especialistas na flora nacional estão preocupados, e não otimistas, porque a falta de matéria-prima pode comprometer os projetos de reflorestamento previstos para os próximos anos no País. Técnicos do governo e produtores que atuam no segmento verde alertam que a produção de mudas de espécies brasileiras não será suficiente para atender à demanda que se desenha. E, na falta de espécies nacionais, as árvores exóticas (naturais de outros países) podem ocupar o lugar da flora nacional. “A prioridade nos reflorestamentos é para as espécies nativas, mas algumas exóticas podem ser aceitas, caso o plantio seja aprovado pelos órgãos ambientais”, afirma o promotor Murilo Bustamante, da Promotoria do Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro. Se o reflorestamento fosse importante apenas para o controle das emissões de gases do efeito estufa, a origem da árvore não interessaria tanto. “Ela precisa apenas ter potencial para sequestrar e manter o carbono”, explica o coordenador de recuperação ambiental do município do Rio, Marcelo Hudson. “Mas, se pensarmos em biodiversidade, temos de obedecer às regras da natureza.

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COMPENSAÇÃO Obras da CSA obrigarão a companhia a plantar centenas de árvores.(Foto: ISTOÉ)

A introdução de árvores de outros biomas pode causar distúrbios tanto na fauna quanto no solo do ecossistema”, completa Hudson, que comanda um projeto que em 20 anos plantou cerca de cinco milhões de mudas nativas na cidade. A falta de um programa específico para fomentar a produção de mudas nativas é um dos problemas que vieram à tona com a demanda ocasionada pelo aquecimento global. Ecologistas estimam entre 170 milhões e 200 milhões de hectares a área de florestas destruída que pode ser recuperada, mas a quantidade de mudas nativas produzidas no País é um mistério.De acordo com o Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), do Ministério da Agricultura, existem 3.641 produtores de mudas no Brasil. Entretanto ninguém sabe quantos deles se dedicam às espécies nacionais. A Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) também não tem dados sobre os que semeiam mudas nativas. Os mais otimistas arriscam o número de 15 milhões por ano. Como cada hectare comporta entre 800 e 1.200 mudas, o déficit torna-se expressivo. “Entre 60% e 70% dos municípios brasileiros são desprovidos de viveiros. E os que existem são dedicados à arborização urbana”, adverte o engenheiro florestal Luiz Carlos Sérvulo de Aquino, do Ministério do Meio Ambiente. Entre as grandes obras que vão exigir compensações ambientais, apenas no Estado do Rio de Janeiro, estão a construção do parque industrial da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), a implantação do trem- bala e o arco rodoviário.

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Plantio de Mudas(Foto: ISTOÉ)

Os investimentos estão na casa dos bilhões, sendo que a legislação ambiental determina que meio por cento do custo das obras seja aplicado em compensações ambientais. “Certamente, teremos um boom de projetos de reflorestamento no Rio e em outros Estados, sem que a produção de mudas consiga acompanhar essa demanda”, alerta o engenheiro florestal Marcelo de Carvalho Silva, dono da Biovert, empresa fluminense que produz e comercializa mudas e sementes do sistema vegetal atlântico. Segundo Silva, a Biovert, que tem capacidade de produção de até três milhões de mudas por ano, está se preparando para dobrar a produção até 2012 e triplicá-la até 2014, de olho nos reflorestamentos resultantes de compensações ambientais. Alguns órgãos do governo anunciam esforços para resolver o problema. Mas as iniciativas ainda são tímidas e demonstram o descaso com que a flora nativa foi tratada ao longo dos anos. O Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, somente agora está elaborando com técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) uma lista de espécies potencialmente aptas tanto para os plantios imediatos de áreas degradadas quanto para o aperfeiçoamento das pesquisas.

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Foto: ISTOÉ

Vão fazer o que foi feito com espécies exóticas, como pinus e eucalipto (que abastecem o setor de papel e celulose, a siderurgia e a indústria moveleira), a partir da década de 60 e que tornou o Brasil líder mundial de produtividade e de conhecimento acumulado nesses gêneros. O chefe do departamento de políticas e estudos de meio ambiente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Márcio Macedo, disse que o órgão tem um leque de opções de financiamento para recuperação florestal, mas reconhece que não há linhas de crédito específicas para a ampliação de viveiros de mudas nativas. “Compartilhamos dessa preocupação, mas estamos em estágio incipiente. Afinal, essa demanda nunca esteve tão evidente”, afirma Macedo. Mas a lição é simples: para recuperar nossas florestas e conservar nosso ecossistema, o mercado de mudas nativas tem de florescer.

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“Teremos um boom de reflorestamento, sem que a produção de mudas acompanhe a demanda” Marcelo de Carvalho Silva, engenheiro florestal.(Foto: ISTOÉ)

Fonte: Wilson Aquino, ISTOÉ


1 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Produção de energia eólica vai aumentar sete vezes até 2014, prevê EPE

A energia eólica entrou definitivamente na matriz energética brasileira e deve crescer sete vezes em volume nos próximos três anos, saindo dos atuais 1.114 megawatts (MW) para 7.098 MW em 2014. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (31) pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, durante a abertura do encontro Brazil Windpower, que prossegue até sexta-feira (2), reunindo técnicos, agentes públicos e empresários do setor.

“O mundo todo está olhando para a questão da energia eólica no Brasil. Nós já temos um gigawatt (GW) instalado e vamos multiplicar por sete, que já estão contratados [em leilões] até 2014. É um crescimento bastante expressivo”, disse Tolmasquim.

O presidente da EPE apresentou números que mostram a força do setor no Brasil, principalmente a partir de 2005, ano que marca a escalada do crescimento da produção eólica e a diminuição no preço do MW, que caiu de R$ 300 na época para R$ 99,50 no último leilão este ano.

A expansão vem atraindo grandes empresas estrangeiras. Atualmente, quatro grupos dividem o mercado, mas a previsão é que mais seis indústrias se instalem e comecem a produzir aqui os equipamentos até 2014. Ainda assim, segundo Tolmasquim, o Brasil ocupa apenas o 21º lugar no ranking dos países produtores de energia eólica, que tem a China em primeiro, seguida pelos Estados Unidos, a Alemanha e Espanha.

Para o secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura, o sucesso da energia dos ventos explica-se por vários fatores. “A tecnologia evoluiu. As torres hoje são muito mais elevadas, saindo de 50 metros de altura no passado para até 120 metros de altura atualmente. A capacidade unitária dos geradores também aumentou e provocou uma redução de custos. A economia de escala, pelo fato de haver demanda para a energia eólica, também favoreceu essa competitividade. O Brasil tem hoje vários fabricantes operando em seu território, além de outros que vão se instalar aqui para atender não só o nosso mercado, mas também os clientes do exterior”, disse.

O presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Ricardo Simões, previu que o desenvolvimento do setor vai gerar um grande volume de investimentos nos próximos anos. Atualmente o país conta com 57 parques eólicos em produção e tem 30 em construção.

“Isto significa um investimento de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões, e o setor eólico deve chegar em 2014 faturando mais de R$ 3 bilhões por ano. Estamos em um processo de consolidação dessa indústria, com aumento de escala e ganho de competitividade. É um ciclo virtuoso, de uma energia limpa, renovável e sem emissão de gás do efeito estufa”, disse Simões.

Segundo ele, há condições para o Brasil chegar nos próximos dez anos a 20 GW de produção de energia eólica. O volume equivale a uma vez e meia a capacidade total de produção da maior hidrelétrica do país, a Usina de Itaipu.

Fonte: Vladimir Platonow/ Agência Brasil


23 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Energia solar passa a ter incentivo e deve seguir o rastro da eólica

Com o objetivo de baixar o custo, governo do Ceará vai garantir a compra e criar demanda.

A ideia é que o custo de geração a partir da luz do Sol siga o mesmo caminho da energia eólica. A geração com a força dos ventos parecia, a exemplo da energia solar, a velha promessa que nunca vingava. O governo passou, então, a fazer leilões, criando demanda e baixando o custo.

O primeiro movimento para tentar baixar o custo da energia solar vem do Ceará, que detém o maior parque de geração eólica do País. O governo local criou um fundo de incentivo à energia solar. Ele consiste em garantir a compra da energia e criar demanda para que produtores de equipamentos se instalem na região.

O governo garantirá, por meio do mercado livre, a compra da energia solar pelo período de um a dois anos. A energia comprada será direcionada para prédios públicos. As indústrias serão incentivadas, com entrega de selos de sustentabilidade a quem adquirir energia gerada a partir da luz do Sol. O governo cearense estuda ainda conceder incentivos fiscais a quem adquirir essa energia alternativa. Atualmente, o custo de 1 MWh (megawatt-hora) de energia solar é estimado entre R$ 400 e R$ 600.

Gerar a partir dos ventos tinha custo parecido, mas, atualmente, só perde para as usinas hidrelétricas. O custo médio do MWh no leilão realizado na semana passada ficou em torno dos R$ 99. “A energia eólica parecia inconcebível. Hoje é realidade”, diz Zuza de Oliveira, diretor da Agência de Desenvolvimento do Ceará (Adece).

Apenas neste mês, o Brasil passou a ter sua primeira usina a produzir em escala comercial. Com 1 MW de capacidade instalada, a usina solar de Tauá, instalada na cidade cearense homônima, foi construída pela MPX, do grupo EBX, de Eike Batista.

A companhia já tem autorização para quintuplicar a produção da usina. “Acreditamos no potencial da energia solar e achamos que ela pode ter grande aproveitamento, à medida que os custos caírem”, diz Eduardo Karrer, presidente da MPX.

Fonte: Folha de São Paulo


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


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14 de novembro de 2012 | nenhum comentário »

Organizações dizem que Brasil desperdiça potencial de energia limpa

Relatório de ONGs afirma que energias solar e eólica são subaproveitadas.
Texto aponta que sistema atual de geração de energia tem grandes perdas.

Relatório elaborado por organizações não governamentais, divulgado nesta segunda-feira (12), aponta que o Brasil não aproveita seu potencial de geração de energia solar e eólica devido à falta de infraestrutura.

De acordo com o documento “O setor elétrico brasileiro e a sustentabilidade no século 21: oportunidades e desafios”, produzido por especialistas da área ambiental e técnicos de ONGs como WWF, Greenpeace e Instituto Socioambiental (ISA), gargalos técnicos impedem o crescimento dessas modalidades consideradas limpas.

O texto diz que a falta de estrutura para transmissão e distribuição de energia eólica inviabiliza a instalação de mais torres pelo país. Segundo dados do Atlas Eólico Brasileiro, o país tem potencial para gerar 143 GW apenas com a força dos ventos, número que é 12 vezes maior que a capacidade instalada da futura usina hidrelétrica de Belo Monte, em construção no Rio Xingu, no Pará.

Outro entrave citado no documento está ligado à falta de mão-de-obra e de tecnologias para suprir o setor, o que inviabilizaria uma “arrancada” na expansão desta forma de geração de eletricidade. Sobre a energia solar, o relatório aponta que se fosse aproveitada a luz solar para consumo elétrico em menos de 3% da área urbanizada do Brasil, seria possível atender a 10% de toda a demanda atual de energia elétrica do país.

No entanto, projetos do governo que implantam placas solares em regiões distantes dos grandes centros consumidores torna inviável economicamente a construção de redes de transmissão. “Os maiores entraves ao aproveitamento e à expansão da energia solar no Brasil seguem sendo a falta de incentivos e políticas públicas que consolidem a indústria e o mercado”, informa o documento.

Desperdício e custo maior ao consumidor
O texto faz críticas à política brasileira de geração de energia por hidrelétricas e aponta possíveis prejuízos ao meio ambiente e a culturas indígenas devido a implantação de empreendimentos na Amazônia.

O relatório afirma também que o país tem registrado grandes perdas de quantidades de energia elétrica devido a problemas no sistema de transmissão elétrico. Baseado em dados Tribunal de Contas da União (TCU), o documento diz que em 2004 as perdas técnicas (causadas pelas peculiaridades do sistema) e comerciais (por exemplo, instalação de “gatos”) de energia no país foram de 20,28% do total gerado.

O índice supera em muito os registrados em países vizinhos como Chile (5,6%) e Colômbia somadas (11,5%%) no mesmo período. Ainda segundo o relatório, tais perdas teriam causado um reajuste de ao menos 5% na tarifa ao consumidor.

Perda é inevitável, diz operador nacional
De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a perda técnica é inevitável e está associada ao processo de transmissão. Segundo o órgão, o aquecimento dos cabos durante as transmissões provoca tais extravios, considerados naturais e com índices que se igualam a padrões mundiais.

Sobre as perdas comerciais, o ONS afirma que é um problema que deve ser resolvido pelas distribuidoras, já que seriam provocadas por vários fatores, entre eles, ligações clandestinas (conhecidas como gatos) em diversas cidades.

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), entre 2007 e 2010 as perdas técnicas de energia no país atingiram índice de 7%. A Aneel não divulgou o percentual de perdas comerciais para o mesmo período.

Usinas eólicas instaladas no Rio Grande do Sul (Foto: Divulgação/ABEEólica)

Usinas eólicas instaladas no Rio Grande do Sul (Foto: Divulgação/ABEEólica)

Energia solar é alternativa para obter eletricidade em meio à reserva ambiental (Foto: Mariane Rossi/G1)

Energia solar é alternativa para obter eletricidade em meio a reserva ambiental. Distância de grandes centros consumidores inviabiliza instalação de redes transmissoras (Foto: Mariane Rossi/G1)

Fonte: Globo Natureza


15 de junho de 2012 | nenhum comentário »

Empresários discutem meios de conciliar produção e ambiente

A redução do consumo pelas pessoas, assim como a redução da produção por parte das empresas, não é o caminho para a transição para a economia verde, afirmou ontem (14) Tim Wall, representante do Fórum de Sustentabilidade Corporativa, evento da Rio+20 organizado pela ONU.

A busca por um novo modelo de negócios, que alie rentabilidade das empresas com desenvolvimento sustentável, será o objetivo fórum que começa nesta sexta-feira (15) e vai até o dia 18, no hotel Windsor Barra, zona oeste do Rio de Janeiro.

Wall, contudo, não deu uma receita de como alcançar o equilíbrio entre as necessidades básicas do capitalismo e os anseios ambientais.

No fórum, disse ele, serão discutidos o uso de materiais menos poluentes, reutilização de água e fontes mais limpas de geração de energia.

Também será debatido o papel dos governos no incentivo e promoção de práticas mais sustentáveis das empresas.

Ao final da conferência, que reunirá mais de mil empresas ao redor do mundo em cerca de cem palestras, um documento será apresentado aos chefes de Estado, que irão se reunir de 20 a 22, no Rio Centro.

“A crise financeira mostrou que a busca por lucros no curto prazo é insustentável. Não acho que a redução do consumo é o caminho para um novo modelo, mas isso não significa que tenhamos que discutir novas formas de fazer negócios”, disse, durante coletiva de imprensa no Palácio do Itamaraty, no Rio.

O evento é uma iniciativa do Pacto Global das Nações Unidas, que reúne cerca de 7.000 empresas signatárias. O objetivo é criar tendências de modelos de negócios menos impactantes. O Brasil possui 280 empresas signatárias.

Companhias brasileiras como Petrobras, Eletrobras e Vale farão palestras. A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster e o secretário-geral da presidência da República, Gilberto Carvalho, são dois dos convidados a falar.

Fonte: Folha.com

 


12 de março de 2012 | nenhum comentário »

É preciso correr, adverte a ciência

Artigo do jornalista Washington Novaes publicado no jornal O Estado de São Paulo de sexta-feira (9).

Deveria ser leitura obrigatória para todos os governantes, de todos os níveis, todos os lugares, o documento de 22 páginas entregue no último dia 20 de fevereiro, em Nairóbi, no Quênia, aos ministros reunidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, escrito e assinado por 20 dos mais destacados cientistas que já receberam o Prêmio Blue Planet, também chamado de Prêmio Nobel do Meio Ambiente. Entre eles estão a ex-primeira-ministra norueguesa, Gro Brundtland, coordenadora do primeiro relatório da ONU sobre desenvolvimento sustentável; James Lovelock, autor da “Teoria Gaia”; o professor José Goldemberg, ex-ministro brasileiro do Meio Ambiente; sir Nicholas Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial, consultor do governo britânico sobre clima; James Hansen, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais (Nasa); Bob Watson, conselheiro do governo britânico; Paul Ehrlich, da Universidade Stanford; Julia Marton-Lefèvre, da União Internacional para a Conservação da Natureza; Will Turner, da Conservação Internacional – e vários outros.

 

Nesse documento os cientistas traçam, com palavras sóbrias e cuidadosas, um panorama dramático da situação do mundo, hoje, em áreas vitais: clima; excesso de consumo e desperdício; fome; necessidade de aumentar a produção de alimentos e escassez de terras; desertificação e erosão; perda da biodiversidade e de outros recursos naturais; subsídios gigantescos nas áreas de transportes, energia, agricultura – e a necessidade de eliminá-los. Enfatizam a necessidade de “empoderamento” das mulheres e de grupos sociais marginalizados; substituir o produto interno bruto (PIB) como medida de riqueza e definir métodos que atribuam valor ao capital natural, humano e social; atribuir valor à biodiversidade e aos serviços dos ecossistemas e deles fazer a base da “economia verde”.

 

É um documento que, a cada parágrafo, provoca sustos e inquietações, ao traçar o panorama dramático que já vivemos em cada área e levar todo leitor a perguntar qual será o futuro de seus filhos e netos. “O atual sistema [no mundo] está falido”, diz Bob Watson. “Está conduzindo a humanidade para um futuro que é de 3 a 5 graus Celsius mais quente do que já tivemos; e está eliminando o ambiente natural, do qual dependem nossa saúde, riqueza e consciência. (…) Não podemos presumir que a tecnologia virá a tempo para resolver; ao contrário, precisamos de soluções humanas”.

 

“Temos um sonho”, afirma o documento. “De um mundo sem pobreza e equitativo – um mundo que respeite os direitos humanos – um mundo de comportamento ético mais amplo com relação à pobreza e aos recursos naturais – um mundo ambientalmente, socialmente e economicamente sustentável, onde desafios como mudanças climáticas, perda da biodiversidade e iniquidade social tenham sido enfrentados com êxito. Esse é um sonho realizável, mas o atual sistema está profundamente ferido e nossos caminhos atuais não o tornarão realidade”.

 

Segundo os cientistas, é urgente romper a relação entre produção e consumo, de um lado, e destruição ambiental, de outro: “Crescimento material sem limites num planeta com recursos naturais finitos e em geral frágeis será insustentável”, ainda mais com subsídios prejudiciais em áreas como energia (US$ 1 trilhão/ano), transporte e agricultura – “que deveriam ser eliminados”. A tese do documento é de que os custos ambientais e sociais deveriam ser internalizados em cada ação humana, cada projeto. Valores de bens e serviços dos ecossistemas precisam ser levados em conta na tomada de decisões. É algo na mesma direção das avaliações recentes de economistas e outros estudiosos, comentadas neste espaço, a respeito da finitude dos recursos naturais e da necessidade de recompor a vida econômica e social em função disso.

 

O balanço na área de energia é inquietador, com a dependência de combustíveis fósseis, danos para a saúde e as condições ambientais. Seria preciso proporcionar acesso universal de toda a população pobre aos formatos “limpos” e renováveis de energia – a transição para economia de “baixo carbono” -, assim como a formatos de captura e sepultamento de gases poluentes (ainda em avaliação). Como não caminhamos assim, as emissões de dióxido de carbono equivalente já chegam a 50 bilhões de toneladas anuais, com a atmosfera e os oceanos aumentando suas concentrações para 445 partes por milhão (ppm)- mais 2,5 ppm por ano, que desenham uma perspectiva de 750 ppm no fim do século. E com isso o aumento da temperatura poderá chegar a mais 5 graus Celsius.

 

Na área da biodiversidade, 15 dos 24 serviços de ecossistemas avaliados pelo Millenium Ecosystem Assessment estão em declínio – quando é preciso criar caminhos para atribuir valor à biodiversidade e seus serviços, base para uma “economia verde”. Mas para isso será preciso ter novos formatos de governança em todos os níveis – hoje as avaliações cabem a estruturas políticas, sociais, econômicas, ambientais, separadas e competindo entre elas.

 

E para que tudo isso seja possível, dizem os cientistas, se desejamos tornar reais os nossos sonhos, “o momento é agora” – enfrentando a inércia do sistema socioeconômico e impedindo que sejam irreversíveis as consequências das mudanças climáticas e da perda da biodiversidade. Se falharmos, vamos “empobrecer as atuais e as futuras gerações”. Esquecendo que vivemos em “uma sociedade global infestada pela crença irracional de que a economia física pode crescer sempre, deslembrada de que os ricos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento se tornam mais ricos e os pobres são deixados para trás”.

 

Não se trata de um manifesto de “ambientalistas”, “xiitas” ou hippies. São palavras de dezenas dos mais conceituados cientistas do mundo, que advertem: “A demora [em mudar] é perigosa e seria um erro profundo”. É preciso ler esse estudo (www.af-info.or.jp). Escutar. E dar consequências.

 

Fonte: Jornal da Ciência


11 de fevereiro de 2012 | nenhum comentário »

Curso de produção e comércio de mudas florestais nativas

O Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) realizará um curso de produção e comércio de mudas florestais nativas no dia 25 de fevereiro (sábado), no principal viveiro da instituição, localizado na cidade de Apucarana (PR). O objetivo é incentivar a oferta de mudas nativas no mercado para projetos de restauração florestal a partir de técnicas e métodos que garantam a melhor qualidade na produção para o mercado consumidor. Para participar, não é necessário conhecimento aprofundado sobre o tema, pois as aulas serão bastante práticas e dinâmicas. Ao final, os participantes receberão um referencial teórico para acompanhamento e o certificado de participação.

Mais informações pelo telefone (43) 3324-7551 ou pelos e-mails: thiago@plantearvore.com.brou marceli@plantearvore.com.br


23 de novembro de 2011 | nenhum comentário »

Recuperação de áreas de preservação permanente divide opiniões

As APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Onde hoje se vê mata fechada, só havia cana-de-açúcar dez anos atrás. Em uma fazenda foram plantadas quase um milhão de mudas de árvores para recuperar as áreas de preservação permanente.

APPs são locais frágeis à beira de rios, topos de morros e encostas, que devem ter a vegetação original protegida porque são fundamentais para a produção de água e controle da erosão do solo.

Uma usina perdeu área de plantio de cana, mas conquistou o certificado de produção sustentável, valorizando a empresa no mercado internacional. “Ganhamos na exportação de álcool e de açúcar. O pessoal lá de fora quer saber se está fazendo preservação”, afirma Ricardo Ometto.

Em Iracemápolis, no interior de São Paulo, o desrespeito à APP deixou a represa que abastece o município desprotegida. Resultado: em 1985, a cidade ficou sem água. A área precisou ser recuperada em regime de urgência.

O plantio da cana-de-açúcar que ia até a beira da represa teve que recuar 100 metros. No local, foram plantadas árvores nativas. Nunca mais Iracemápolis teve problema de abastecimento de água.

Iracemápolis e a usina de cana são dois exemplos dos benefícios e da necessidade de se cuidar bem das APPs. O projeto do novo Código Florestal saiu da Câmara sem garantias de recuperação das APPs desmatadas antes de julho de 2008.

No Senado, a proposta evoluiu para assegurar que deve ser de 15 metros a faixa mínima de vegetação a ser recuperada às margens dos rios com até dez metros de largura. E os conselhos estaduais de meio ambiente ganham poder para ampliar a faixa de recuperação da mata ciliar, de acordo com as necessidades de cada área. No caso dos rios mais largos, pode chegar a 100 metros de extensão.

“Cabe à União Federal o estabelecimento de regras gerais para o país inteiro, mas o nosso país é um continente. Precisamos chamar os estados à responsabilidade de nos ajudar a fazer essa harmonia entre produção e conservação do meio ambiente”, afirmou o senador Jorge Viana (PT-AC), relator.

Uma das principais preocupações dos ambientalistas e da comunidade científica é garantir no Código Florestal a preservação das nascentes e córregos intermitentes que fornecem água apenas durante uma parte do ano, mas que são fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente.

O texto em debate no Senado ainda não garante a preservação das nascentes. Os ambientalistas vão apresentar uma emenda para resolver o problema. “A ideia é que se tenha um mínimo de 30 metros para as nascentes, os olhos d’água e demais rios. Isso é importante porque, como está previsto na regra que veio da Câmara, nascentes e os olhos d’água não teriam qualquer tipo de recuperação. O seria um absurdo porque é dali que nascem os rios”, explica Tasso Azevedo, ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) resiste à mudança, porque diz que ela atingiria pequenos e médios produtores. “Acho que seria interessante, por exemplo, excluirmos o plantio extensivo de milho, de algodão, de soja e abrir mão apenas para os pequenos e médios agricultores que têm uma pequena roça, uma pequena horta e uma pequena pastagem, uma campineira para seu gado de leite”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente do CNA.

Os ruralistas também não aceitam a retirada do gado das encostas dos morros, um ponto defendido pelos ambientalistas. “Gado e APP são duas coisas que se pudessem ser evitadas seria extremamente importante. O casco do gado gera um peso muito grande. Em geral, gera erosão, além de contaminar a água”, alerta Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama.

A pecuária é o principal uso da terra no Brasil. São 200 milhões de hectares de pastagem. A agricultura ocupa 65 milhões de hectares. A longo prazo, a solução é aumentar a produtividade da pecuária, inferior a uma cabeça de gado por hectare. Nas APPs à beira de rios, muitas áreas hoje ocupadas pelo gado poderiam ser restauradas sem grandes investimentos.

Há quatro anos, toda a área de uma propriedade era ocupada pelo pasto. Bastou tirar o gado para ver que as árvores cresceram naturalmente. A técnica pode ser aplicada com sucesso em 80% do país.

“Isso acontece na Amazônia, no Brasil central com os cerrados e em várias situações. Só 20% delas que foram muito degradadas historicamente é que, efetivamente, vão precisar de um investimento maior com o plantio de mudas”, explica Ricardo Rodrigues, professor – Esalq – USP.

Click e veja o vídeo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/11/recuperacao-de-areas-de-preservacao-permanente-divide-opinioes.html

Fonte: G1, Jornal Nacional


26 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Biodiesel de Algas: Promessa ou Futuro?

Confira o editorial do Journal of the Brazilian Chemical Society.

A demanda crescente por combustíveis “verdes” para a substituição dos combustíveis fósseis levou, em todo o mundo, ao lançamento de programas para a produção de biocombustíveis. O governo brasileiro, ao lançar primeiro o programa do álcool e depois o do biodiesel, saiu na frente nessa corrida. Hoje, no Brasil, é obrigatória a adição de álcool à gasolina (em teor que varia de 20 a 25% de acordo com a oferta de etanol anidro no mercado) e de biodiesel ao diesel (com teor fixo de 5%)¹. Para atender a demanda anual por mais de 40 bilhões de litros da mistura diesel/biodiesel, a produção desse biocombustível no Brasil já passou de 2 bilhões de litros ao ano, com uma forte tendência de aumento para conseguir acompanhar o crescente consumo da mistura diesel/biodiesel, que hoje cresce a uma taxa de quase 1% ao mês.

 

A vantagem dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis é a diminuição de emissão de CO2, SOx, fuligem e hidrocarbonetos. No entanto, se por um lado os biocombustíveis são menos poluidores, por outro a sua produção exige grandes áreas de terras agricultáveis. Como a demanda por combustíveis para transporte aumenta anualmente, a produção de biocombustíveis exigirá cada vez mais terras aráveis, e isso começa a ameaçar a segurança alimentar, porque produzir mais álcool significa produzir menos açúcar, e também porque, no Brasil, a maior parte do biodiesel é feita a partir do óleo de soja. Para que esse problema não se agrave, será necessário desenvolver novas tecnologias e, principalmente, passar a usar resíduos urbanos, industriais e agrícolas, além de novas fontes de biomassa como matéria-prima para a produção de biocombustíveis².

 

Entre as muitas alternativas de produção de biocombustíveis, o cultivo intensivo de algas e fungos vem recebendo especial atenção devido à possibilidade de se produzir até 200 vezes mais óleo ou açúcar por hectare, sem a necessidade do uso de terras férteis.

Tanto as algas como os fungos podem ser colhidos em poucos dias, o que não exige infraestrutura para armazenamento.

 

Esse fato levou pequenas e grandes empresas e muitos acadêmicos, em todo o mundo, a investirem recursos e muito tempo às pesquisas com algas como fonte de óleo e açúcar.

Os resultados alcançados, em pequena escala de laboratório, são animadores. Entretanto, todas as experiências com algas, em grande escala, para a produção de óleo visando a biocombustíveis falharam.

 

As principais razões dessas falhas foram:

1 – ataque de cepas selvagens não produtoras de óleo;

2 – preço alto dos nutrientes;

3 – o óleo obtido geralmente tem alto teor de ácidos graxos livres e elevado índice de iodo;

4 – dificuldades em se desidratar a alga para extração do óleo;

5 – controle difícil dos parâmetros acidez, temperatura e nutrientes para evitar quedas bruscas na produção e até mesmo a extinção dos cultivares das algas.

 

Como a tecnologia para a produção de biodiesel foi toda desenvolvida com base em catalisadores básicos³ o alto teor de ácidos graxos no óleo obtido de algas encarece o seu processo de produção, pois são necessárias onerosas etapas prévias de purificação. Esse problema é agravado pelo alto grau de insaturação do óleo que, por isso, é muito sensível à oxidação, sendo necessária a modificação do óleo antes de seu processamento ou o uso de aditivos antioxidantes. Em consequência, o custo de produção de óleo a partir de algas é hoje cerca de 20 vezes superior, por exemplo, ao do óleo de soja.

 

As algas têm grande potencial como futura fonte de matéria-prima para a produção de biodiesel. Entretanto, para que esse futuro se torne realidade, é necessário que se encontre condições adequadas para seu crescimento em grande escala, para que a produção de óleo seja viável economicamente. Até que isso aconteça, a produção de biodiesel a partir de algas deve ser encarada como uma solução de longo prazo. É por essas e outras razões que grandes empresas anunciaram recentemente que vão interromper suas pesquisas neste campo.

 

Hoje, a produção de biodiesel a partir de algas depende fortemente da pesquisa fundamental e de desenvolvimento tecnológico. Se as agências de fomento tiverem linhas de financiamento para estudos com algas para a produção de óleo, o Brasil poderá ganhar mais essa corrida dos biocombustíveis e começar, talvez, o que se pode chamar de uma segunda “revolução verde”.

 

Os programas do álcool e do biodiesel, além dos dividendos econômicos que renderam ao País, serviram para mostrar que sempre que há financiamento, os pesquisadores brasileiros se destacam no cenário internacional. O melhor exemplo é a liderança brasileira no ranking mundial das publicações científicas envolvendo estudos sobre biodiesel.

 

Referências

1. Pousa, G.P.A.G.; Santos, A.L.F.;Suarez, P.A.Z.; Energy Policy 2007, 35, 5393.

2. Suarez, P.A.Z.; Santos A.L.F.; Rodrigues J.P.; Alves, M. B.; Quim. Nova 2009, 32, 768.

3. Pinto, A. C.; Guarieiro, L. L. N.; Rezende, M. J. C.; Ribeiro, N. M.; Torres, E. A.; Lopes, W. A.; Pereira, P. A. P; de Andrade, J. B.; J. Braz. Chem. Soc. 2005, 16, 1313.

 

Editorial assinado pelos professores Paulo A. Z. Suarez (Universidade de Brasília) e Angelo C. Pinto (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Editor JBCS).

Fonte: Jornal da Ciência


10 de outubro de 2011 | nenhum comentário »

Vai faltar árvore no mercado?

Para especialistas, projetos de compensação ambiental no País podem entrar em crise com a escassez de mudas de espécies nativas

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“A prioridade é para espécies nativas, mas algumas importadas podem ser aceitas” Murilo Bustamante, promotor do Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro.(Foto: ISTOÉ)

O cenário não poderia ser mais favorável: há dinheiro, vontade e mão de obra capacitada para promover uma grande recuperação das florestas nativas brasileiras no rastro das ecologicamente corretas compensações ambientais. No entanto, especialistas na flora nacional estão preocupados, e não otimistas, porque a falta de matéria-prima pode comprometer os projetos de reflorestamento previstos para os próximos anos no País. Técnicos do governo e produtores que atuam no segmento verde alertam que a produção de mudas de espécies brasileiras não será suficiente para atender à demanda que se desenha. E, na falta de espécies nacionais, as árvores exóticas (naturais de outros países) podem ocupar o lugar da flora nacional. “A prioridade nos reflorestamentos é para as espécies nativas, mas algumas exóticas podem ser aceitas, caso o plantio seja aprovado pelos órgãos ambientais”, afirma o promotor Murilo Bustamante, da Promotoria do Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro. Se o reflorestamento fosse importante apenas para o controle das emissões de gases do efeito estufa, a origem da árvore não interessaria tanto. “Ela precisa apenas ter potencial para sequestrar e manter o carbono”, explica o coordenador de recuperação ambiental do município do Rio, Marcelo Hudson. “Mas, se pensarmos em biodiversidade, temos de obedecer às regras da natureza.

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COMPENSAÇÃO Obras da CSA obrigarão a companhia a plantar centenas de árvores.(Foto: ISTOÉ)

A introdução de árvores de outros biomas pode causar distúrbios tanto na fauna quanto no solo do ecossistema”, completa Hudson, que comanda um projeto que em 20 anos plantou cerca de cinco milhões de mudas nativas na cidade. A falta de um programa específico para fomentar a produção de mudas nativas é um dos problemas que vieram à tona com a demanda ocasionada pelo aquecimento global. Ecologistas estimam entre 170 milhões e 200 milhões de hectares a área de florestas destruída que pode ser recuperada, mas a quantidade de mudas nativas produzidas no País é um mistério.De acordo com o Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), do Ministério da Agricultura, existem 3.641 produtores de mudas no Brasil. Entretanto ninguém sabe quantos deles se dedicam às espécies nacionais. A Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) também não tem dados sobre os que semeiam mudas nativas. Os mais otimistas arriscam o número de 15 milhões por ano. Como cada hectare comporta entre 800 e 1.200 mudas, o déficit torna-se expressivo. “Entre 60% e 70% dos municípios brasileiros são desprovidos de viveiros. E os que existem são dedicados à arborização urbana”, adverte o engenheiro florestal Luiz Carlos Sérvulo de Aquino, do Ministério do Meio Ambiente. Entre as grandes obras que vão exigir compensações ambientais, apenas no Estado do Rio de Janeiro, estão a construção do parque industrial da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), a implantação do trem- bala e o arco rodoviário.

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Plantio de Mudas(Foto: ISTOÉ)

Os investimentos estão na casa dos bilhões, sendo que a legislação ambiental determina que meio por cento do custo das obras seja aplicado em compensações ambientais. “Certamente, teremos um boom de projetos de reflorestamento no Rio e em outros Estados, sem que a produção de mudas consiga acompanhar essa demanda”, alerta o engenheiro florestal Marcelo de Carvalho Silva, dono da Biovert, empresa fluminense que produz e comercializa mudas e sementes do sistema vegetal atlântico. Segundo Silva, a Biovert, que tem capacidade de produção de até três milhões de mudas por ano, está se preparando para dobrar a produção até 2012 e triplicá-la até 2014, de olho nos reflorestamentos resultantes de compensações ambientais. Alguns órgãos do governo anunciam esforços para resolver o problema. Mas as iniciativas ainda são tímidas e demonstram o descaso com que a flora nativa foi tratada ao longo dos anos. O Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, somente agora está elaborando com técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) uma lista de espécies potencialmente aptas tanto para os plantios imediatos de áreas degradadas quanto para o aperfeiçoamento das pesquisas.

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Foto: ISTOÉ

Vão fazer o que foi feito com espécies exóticas, como pinus e eucalipto (que abastecem o setor de papel e celulose, a siderurgia e a indústria moveleira), a partir da década de 60 e que tornou o Brasil líder mundial de produtividade e de conhecimento acumulado nesses gêneros. O chefe do departamento de políticas e estudos de meio ambiente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Márcio Macedo, disse que o órgão tem um leque de opções de financiamento para recuperação florestal, mas reconhece que não há linhas de crédito específicas para a ampliação de viveiros de mudas nativas. “Compartilhamos dessa preocupação, mas estamos em estágio incipiente. Afinal, essa demanda nunca esteve tão evidente”, afirma Macedo. Mas a lição é simples: para recuperar nossas florestas e conservar nosso ecossistema, o mercado de mudas nativas tem de florescer.

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“Teremos um boom de reflorestamento, sem que a produção de mudas acompanhe a demanda” Marcelo de Carvalho Silva, engenheiro florestal.(Foto: ISTOÉ)

Fonte: Wilson Aquino, ISTOÉ


1 de setembro de 2011 | nenhum comentário »

Produção de energia eólica vai aumentar sete vezes até 2014, prevê EPE

A energia eólica entrou definitivamente na matriz energética brasileira e deve crescer sete vezes em volume nos próximos três anos, saindo dos atuais 1.114 megawatts (MW) para 7.098 MW em 2014. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (31) pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, durante a abertura do encontro Brazil Windpower, que prossegue até sexta-feira (2), reunindo técnicos, agentes públicos e empresários do setor.

“O mundo todo está olhando para a questão da energia eólica no Brasil. Nós já temos um gigawatt (GW) instalado e vamos multiplicar por sete, que já estão contratados [em leilões] até 2014. É um crescimento bastante expressivo”, disse Tolmasquim.

O presidente da EPE apresentou números que mostram a força do setor no Brasil, principalmente a partir de 2005, ano que marca a escalada do crescimento da produção eólica e a diminuição no preço do MW, que caiu de R$ 300 na época para R$ 99,50 no último leilão este ano.

A expansão vem atraindo grandes empresas estrangeiras. Atualmente, quatro grupos dividem o mercado, mas a previsão é que mais seis indústrias se instalem e comecem a produzir aqui os equipamentos até 2014. Ainda assim, segundo Tolmasquim, o Brasil ocupa apenas o 21º lugar no ranking dos países produtores de energia eólica, que tem a China em primeiro, seguida pelos Estados Unidos, a Alemanha e Espanha.

Para o secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura, o sucesso da energia dos ventos explica-se por vários fatores. “A tecnologia evoluiu. As torres hoje são muito mais elevadas, saindo de 50 metros de altura no passado para até 120 metros de altura atualmente. A capacidade unitária dos geradores também aumentou e provocou uma redução de custos. A economia de escala, pelo fato de haver demanda para a energia eólica, também favoreceu essa competitividade. O Brasil tem hoje vários fabricantes operando em seu território, além de outros que vão se instalar aqui para atender não só o nosso mercado, mas também os clientes do exterior”, disse.

O presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Ricardo Simões, previu que o desenvolvimento do setor vai gerar um grande volume de investimentos nos próximos anos. Atualmente o país conta com 57 parques eólicos em produção e tem 30 em construção.

“Isto significa um investimento de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões, e o setor eólico deve chegar em 2014 faturando mais de R$ 3 bilhões por ano. Estamos em um processo de consolidação dessa indústria, com aumento de escala e ganho de competitividade. É um ciclo virtuoso, de uma energia limpa, renovável e sem emissão de gás do efeito estufa”, disse Simões.

Segundo ele, há condições para o Brasil chegar nos próximos dez anos a 20 GW de produção de energia eólica. O volume equivale a uma vez e meia a capacidade total de produção da maior hidrelétrica do país, a Usina de Itaipu.

Fonte: Vladimir Platonow/ Agência Brasil


23 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Energia solar passa a ter incentivo e deve seguir o rastro da eólica

Com o objetivo de baixar o custo, governo do Ceará vai garantir a compra e criar demanda.

A ideia é que o custo de geração a partir da luz do Sol siga o mesmo caminho da energia eólica. A geração com a força dos ventos parecia, a exemplo da energia solar, a velha promessa que nunca vingava. O governo passou, então, a fazer leilões, criando demanda e baixando o custo.

O primeiro movimento para tentar baixar o custo da energia solar vem do Ceará, que detém o maior parque de geração eólica do País. O governo local criou um fundo de incentivo à energia solar. Ele consiste em garantir a compra da energia e criar demanda para que produtores de equipamentos se instalem na região.

O governo garantirá, por meio do mercado livre, a compra da energia solar pelo período de um a dois anos. A energia comprada será direcionada para prédios públicos. As indústrias serão incentivadas, com entrega de selos de sustentabilidade a quem adquirir energia gerada a partir da luz do Sol. O governo cearense estuda ainda conceder incentivos fiscais a quem adquirir essa energia alternativa. Atualmente, o custo de 1 MWh (megawatt-hora) de energia solar é estimado entre R$ 400 e R$ 600.

Gerar a partir dos ventos tinha custo parecido, mas, atualmente, só perde para as usinas hidrelétricas. O custo médio do MWh no leilão realizado na semana passada ficou em torno dos R$ 99. “A energia eólica parecia inconcebível. Hoje é realidade”, diz Zuza de Oliveira, diretor da Agência de Desenvolvimento do Ceará (Adece).

Apenas neste mês, o Brasil passou a ter sua primeira usina a produzir em escala comercial. Com 1 MW de capacidade instalada, a usina solar de Tauá, instalada na cidade cearense homônima, foi construída pela MPX, do grupo EBX, de Eike Batista.

A companhia já tem autorização para quintuplicar a produção da usina. “Acreditamos no potencial da energia solar e achamos que ela pode ter grande aproveitamento, à medida que os custos caírem”, diz Eduardo Karrer, presidente da MPX.

Fonte: Folha de São Paulo


18 de agosto de 2011 | nenhum comentário »

Eficiência vegetal

Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.

As constantes disparadas no preço do petróleo e a crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.

Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA – Atualmente, cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha – que inclui a brasileiríssima mamona – como fontes potenciais para a produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.

“Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a sacarose da cana” conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os avanços na área.

De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a adição de álcool à gasolina.

“Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é bem antiga e vem desde os tempos de colônia”, avalia.

O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada “uma tragédia” por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a partir de cada uma gasta.

“Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco” afirma.

Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para fabricar o etanol.

Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do chamado “cinturão do milho americano” no estado de Kansas.

Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de plantas sejam usados em grande escala.

“O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos sejam vencidos para se tornar comercialmente viável”, aponta Cruz, lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.

Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a produtividade já tenha crescido muito – de menos de 50 toneladas por hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até agora feito apenas por métodos tradicionais.

“Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar”, defende.

Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta “perfeita”, isto é, convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.

“Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom”, disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande parte dos recursos em engenharia genética.

Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África, Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.

“O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem deslocar nenhuma cultura de alimento” contabiliza. Some-se ainda a isso os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil, sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5% da gasolina que consome hoje.

Fonte: O Globo


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