17 de dezembro de 2012 | nenhum comentário »

Mata tropical tem 18 mil espécies de artrópodes por hectare

Um esforço sem precedentes, reunindo mais de uma centena de cientistas, esquadrinhou uma floresta tropical do Panamá de alto a baixo na tentativa de responder uma pergunta aparentemente simples: quantas espécies de artrópodes (o grupo dos insetos e aranhas, entre outros bichos) existem ali?

O resultado -nada menos que 18 mil tipos de artrópodes em apenas meio hectare de mata- é a estimativa mais precisa já obtida a respeito da diversidade desses seres, que correspondem a mais de 80% dos animais da Terra.

“Até onde sabemos, conseguimos amostrar todos os habitats, do solo da floresta ao alto das árvores, e todos os principais grupos de artrópodes”, diz o brasileiro Sérvio Pontes Ribeiro, da Universidade Federal de Ouro Preto, coautor do estudo na edição de hoje da revista “Science”.

Ribeiro é especialista na diversidade de bichos no chamado dossel superior, a área mais alta da floresta.

Paradoxalmente, diz ele, o ambiente nessa região lembra o do cerrado: muita luz solar, pouca umidade e nutrientes mais escassos.

As condições especiais favoreceram a evolução de insetos que põem seus ovos dentro das folhas e formam uma espécie de tumor vegetal nelas -um abrigo mais úmido e nutritivo para elas.

Mapeando esse e outros ambientes com vários tipos de armadilhas e redes, os cientistas estimam que, em toda a floresta de San Lorenzo, com seus 6.000 hectares, há cerca de 25 mil espécies.

Curiosamente, um único hectare é suficiente para abrigar dois terços desse total.

“Essa é a grande mudança trazida pelo nosso estudo”, afirma Ribeiro.

“Achava-se que a maioria das espécies de artrópodes existia em espaços muito pequenos. O que nós estamos vendo é que elas ocorrem em áreas amplas e provavelmente precisam de territórios grandes.”

A equipe está replicando a metodologia em outros lugares, como a Austrália e Vanuatu, na Polinésia.

Com mais dados, a expectativa é que seja possível ter uma ideia mais clara sobre outro número misterioso: quantas espécies, no total, existem na Terra toda.

Cientistas em guindaste recolhem amostras de insetos no alto das arvores em floresta do Panama

Cientistas em guindaste recolhem amostras de insetos no alto das arvores em floresta do Panama. Foto:Divulgação

Fonte: Folha.com


14 de junho de 2012 | nenhum comentário »

O NOVO DILEMA DOS ZOOS

Com o aumento do número de espécies em risco de extinção, os zoológicos estão cada vez mais sendo chamados para resgatar e manter animais -não apenas aqueles que atraem espectadores, como pandas e rinocerontes, mas também mamíferos, rãs, Aves e insetos de todos os tipos.

Mas os zoos concluíram que, para conservar animais de modo eficiente, precisam reduzir o número de espécies das quais cuidam e dedicar mais recursos a poucos escolhidos. O resultado é que os responsáveis pelos zoos, geralmente amantes dos animais, estão sendo cada vez mais pressionados a calcular quais animais, em detrimento de outros, devem salvar.

A missão dos zoos deixou de ser entreter o público, para se dedicar à conservação. “Nós, como sociedade, temos que decidir se é ético e moralmente apropriado expor animais para a simples finalidade de entretenimento”, disse Steven L. Monfort, diretor do Instituto de Conservação Biológica Smithsonian, que faz parte do Zoo Nacional de Washington. “Na minha opinião, é preciso que os zoos tenham o papel de defender espécies animais.”

Monfort quer que os zoos levantem mais recursos para a conservação de animais na natureza e que esse esforço ganhe importância igual à de suas coleções de animais cativos. Os zoos, disse ele, precisam construir instalações -não necessariamente abertas ao público- suficientemente grandes para receber rebanhos de animais, possibilitando comportamentos reprodutivos mais naturais. Também para Monfort, é preciso dar menos ênfase a animais que constituem atrações populares, mas estão sobrevivendo bem na natureza, para dar espaço àqueles que precisam urgentemente ser salvos da extinção.

Muitos diretores de zoológicos acham que uma reordenação radical não é necessária e que cada zoo faz um trabalho valioso, mesmo que conserve poucas espécies.

No primeiro século de sua existência, os zoos americanos buscavam Animais Selvagens na natureza e os exploravam principalmente por seu valor de entretenimento. Quando os ambientes selvagens começaram a desaparecer, junto com seus animais, os responsáveis pelos zoos se tornaram protetores e salvadores. Desde 1980, os zoos desenvolvem programas coordenados de criação que salvaram dezenas de espécies do perigo de extinção.

O desafio, cada vez mais difícil, é praticar a conservação e ao mesmo tempo continuar a expor animais para atrair o público pagante. Os leões-marinhos, por exemplo, estão se dando muito bem na natureza, mas o zoo de St. Louis decidiu gastar US$ 18 milhões em uma nova piscina com filtro e acréscimo de ozônio, para favorecer a claridade. Isso porque os leões-marinhos são muito populares, e o ambiente em que ficavam estava decrépito.

Jeffrey P. Bonner, o executivo-chefe do zoo, explicou: “Buscamos um ponto de equilíbrio entre a experiência do público e a necessidades de conservação. Se você me perguntar por que tenho camelos, direi que precisamos de algo interessante para as pessoas verem nos fundos do zoo no inverno”.

À medida que os padrões de cuidados com os animais se elevam, e os zoos instalam ambientes maiores e de aparência mais natural, diminui o espaço para mais animais. Na década de 1970, o zoo de St. Louis tinha 36 espécies de primatas. Hoje tem apenas 13.

Os zoos passaram a entender que, para que os animais possam se reproduzir a longo prazo sem que ocorra a endogamia, é preciso manter “pools” genéticos muito maiores. Há 64 ursos polares vivendo cativos em zoos americanos -muito menos que 200, o número ótimo para manter a população por cem anos.

Assim, os zoos começaram a aumentar o número de indivíduos de algumas espécies em detrimento de outras. O zoo de St. Louis diz que hoje tem 400 animais a mais do que tinha em 2002, mas 65 espécies ou subespécies a menos.

Na década de 1990, enquanto aumentavam as pressões em favor da conservação, a Associação de Zoos e Aquários, responsável pelos zoológicos dos Estados Unidos, começou a reunir grupos de especialistas em zoos que analisavam famílias inteiras de espécies e aconselhavam quais delas deveriam ser priorizadas ou abandonadas. Os critérios incluíam a singularidade, o nível de risco de extinção, a importância do papel ecológico do animal e a existência de uma população em cativeiro que seja suficiente para a reprodução. A União Internacional para a Conservação da Natureza estima que quase um quarto dos mamíferos poderá se extinguir nas próximas três gerações. A situação é mais grave para os anfíbios e as Aves marinhas.

No zoo de St. Louis, alguns baldes de terra agora abrigam o “besouro sepultador”, que é conhecido por sepultar os corpos de pequenos animais.

No passado, esse besouro estava presente em 35 Estados. Mas, em 1989, quando o Serviço de Pesca e Vida Silvestre dos EUA o classificou como em risco de extinção, só restava uma população dele, em Rhode Island. A pedido do governo, o zoo de St. Louis e um zoo de Rhode Island vêm criando o besouro e o devolvendo à natureza.

Bob Merz, o gerente de invertebrados no zoo de St. Louis, diz que o esforço valeu a pena porque o besouro talvez exerça um papel insubstituível na teia ecológica. Para ele, escolher espécies que merecem ser salvas é comparável a fazer apostas com a vida ou a morte. “É como olhar da janela de um avião e ver os rebites da asa”, explicou. “Provavelmente podemos perder alguns deles sem maiores problemas, mas não sabemos quantos -e não queremos realmente descobrir.”

Fonte: CFMV






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Mata tropical tem 18 mil espécies de artrópodes por hectare

Um esforço sem precedentes, reunindo mais de uma centena de cientistas, esquadrinhou uma floresta tropical do Panamá de alto a baixo na tentativa de responder uma pergunta aparentemente simples: quantas espécies de artrópodes (o grupo dos insetos e aranhas, entre outros bichos) existem ali?

O resultado -nada menos que 18 mil tipos de artrópodes em apenas meio hectare de mata- é a estimativa mais precisa já obtida a respeito da diversidade desses seres, que correspondem a mais de 80% dos animais da Terra.

“Até onde sabemos, conseguimos amostrar todos os habitats, do solo da floresta ao alto das árvores, e todos os principais grupos de artrópodes”, diz o brasileiro Sérvio Pontes Ribeiro, da Universidade Federal de Ouro Preto, coautor do estudo na edição de hoje da revista “Science”.

Ribeiro é especialista na diversidade de bichos no chamado dossel superior, a área mais alta da floresta.

Paradoxalmente, diz ele, o ambiente nessa região lembra o do cerrado: muita luz solar, pouca umidade e nutrientes mais escassos.

As condições especiais favoreceram a evolução de insetos que põem seus ovos dentro das folhas e formam uma espécie de tumor vegetal nelas -um abrigo mais úmido e nutritivo para elas.

Mapeando esse e outros ambientes com vários tipos de armadilhas e redes, os cientistas estimam que, em toda a floresta de San Lorenzo, com seus 6.000 hectares, há cerca de 25 mil espécies.

Curiosamente, um único hectare é suficiente para abrigar dois terços desse total.

“Essa é a grande mudança trazida pelo nosso estudo”, afirma Ribeiro.

“Achava-se que a maioria das espécies de artrópodes existia em espaços muito pequenos. O que nós estamos vendo é que elas ocorrem em áreas amplas e provavelmente precisam de territórios grandes.”

A equipe está replicando a metodologia em outros lugares, como a Austrália e Vanuatu, na Polinésia.

Com mais dados, a expectativa é que seja possível ter uma ideia mais clara sobre outro número misterioso: quantas espécies, no total, existem na Terra toda.

Cientistas em guindaste recolhem amostras de insetos no alto das arvores em floresta do Panama

Cientistas em guindaste recolhem amostras de insetos no alto das arvores em floresta do Panama. Foto:Divulgação

Fonte: Folha.com


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O NOVO DILEMA DOS ZOOS

Com o aumento do número de espécies em risco de extinção, os zoológicos estão cada vez mais sendo chamados para resgatar e manter animais -não apenas aqueles que atraem espectadores, como pandas e rinocerontes, mas também mamíferos, rãs, Aves e insetos de todos os tipos.

Mas os zoos concluíram que, para conservar animais de modo eficiente, precisam reduzir o número de espécies das quais cuidam e dedicar mais recursos a poucos escolhidos. O resultado é que os responsáveis pelos zoos, geralmente amantes dos animais, estão sendo cada vez mais pressionados a calcular quais animais, em detrimento de outros, devem salvar.

A missão dos zoos deixou de ser entreter o público, para se dedicar à conservação. “Nós, como sociedade, temos que decidir se é ético e moralmente apropriado expor animais para a simples finalidade de entretenimento”, disse Steven L. Monfort, diretor do Instituto de Conservação Biológica Smithsonian, que faz parte do Zoo Nacional de Washington. “Na minha opinião, é preciso que os zoos tenham o papel de defender espécies animais.”

Monfort quer que os zoos levantem mais recursos para a conservação de animais na natureza e que esse esforço ganhe importância igual à de suas coleções de animais cativos. Os zoos, disse ele, precisam construir instalações -não necessariamente abertas ao público- suficientemente grandes para receber rebanhos de animais, possibilitando comportamentos reprodutivos mais naturais. Também para Monfort, é preciso dar menos ênfase a animais que constituem atrações populares, mas estão sobrevivendo bem na natureza, para dar espaço àqueles que precisam urgentemente ser salvos da extinção.

Muitos diretores de zoológicos acham que uma reordenação radical não é necessária e que cada zoo faz um trabalho valioso, mesmo que conserve poucas espécies.

No primeiro século de sua existência, os zoos americanos buscavam Animais Selvagens na natureza e os exploravam principalmente por seu valor de entretenimento. Quando os ambientes selvagens começaram a desaparecer, junto com seus animais, os responsáveis pelos zoos se tornaram protetores e salvadores. Desde 1980, os zoos desenvolvem programas coordenados de criação que salvaram dezenas de espécies do perigo de extinção.

O desafio, cada vez mais difícil, é praticar a conservação e ao mesmo tempo continuar a expor animais para atrair o público pagante. Os leões-marinhos, por exemplo, estão se dando muito bem na natureza, mas o zoo de St. Louis decidiu gastar US$ 18 milhões em uma nova piscina com filtro e acréscimo de ozônio, para favorecer a claridade. Isso porque os leões-marinhos são muito populares, e o ambiente em que ficavam estava decrépito.

Jeffrey P. Bonner, o executivo-chefe do zoo, explicou: “Buscamos um ponto de equilíbrio entre a experiência do público e a necessidades de conservação. Se você me perguntar por que tenho camelos, direi que precisamos de algo interessante para as pessoas verem nos fundos do zoo no inverno”.

À medida que os padrões de cuidados com os animais se elevam, e os zoos instalam ambientes maiores e de aparência mais natural, diminui o espaço para mais animais. Na década de 1970, o zoo de St. Louis tinha 36 espécies de primatas. Hoje tem apenas 13.

Os zoos passaram a entender que, para que os animais possam se reproduzir a longo prazo sem que ocorra a endogamia, é preciso manter “pools” genéticos muito maiores. Há 64 ursos polares vivendo cativos em zoos americanos -muito menos que 200, o número ótimo para manter a população por cem anos.

Assim, os zoos começaram a aumentar o número de indivíduos de algumas espécies em detrimento de outras. O zoo de St. Louis diz que hoje tem 400 animais a mais do que tinha em 2002, mas 65 espécies ou subespécies a menos.

Na década de 1990, enquanto aumentavam as pressões em favor da conservação, a Associação de Zoos e Aquários, responsável pelos zoológicos dos Estados Unidos, começou a reunir grupos de especialistas em zoos que analisavam famílias inteiras de espécies e aconselhavam quais delas deveriam ser priorizadas ou abandonadas. Os critérios incluíam a singularidade, o nível de risco de extinção, a importância do papel ecológico do animal e a existência de uma população em cativeiro que seja suficiente para a reprodução. A União Internacional para a Conservação da Natureza estima que quase um quarto dos mamíferos poderá se extinguir nas próximas três gerações. A situação é mais grave para os anfíbios e as Aves marinhas.

No zoo de St. Louis, alguns baldes de terra agora abrigam o “besouro sepultador”, que é conhecido por sepultar os corpos de pequenos animais.

No passado, esse besouro estava presente em 35 Estados. Mas, em 1989, quando o Serviço de Pesca e Vida Silvestre dos EUA o classificou como em risco de extinção, só restava uma população dele, em Rhode Island. A pedido do governo, o zoo de St. Louis e um zoo de Rhode Island vêm criando o besouro e o devolvendo à natureza.

Bob Merz, o gerente de invertebrados no zoo de St. Louis, diz que o esforço valeu a pena porque o besouro talvez exerça um papel insubstituível na teia ecológica. Para ele, escolher espécies que merecem ser salvas é comparável a fazer apostas com a vida ou a morte. “É como olhar da janela de um avião e ver os rebites da asa”, explicou. “Provavelmente podemos perder alguns deles sem maiores problemas, mas não sabemos quantos -e não queremos realmente descobrir.”

Fonte: CFMV