23 de dezembro de 2010 | nenhum comentário »

Transações florestais

Joao Augusti, gerente de meio ambiente florestal da Fibria: "O objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC e às pressões ambientalistas"

Joao Augusti, gerente de meio ambiente florestal da Fibria: "O objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC e às pressões ambientalistas"

As ofertas estão na internet: “Vendo terreno com 50 alqueires de Mata Atlântica totalmente preservada para compensação ambiental, reserva legal ou crédito de carbono. A área está localizada em Conselheiro Lafaiete (MG), no Triângulo do Aço, onde há atividades de empresas como Gerdau, Aço Minas, Vale, CSN e Sumitomo Valourec“. No município de Embu-Guaçú (SP), na bacia hidrográfica da Represa de Guarapiranga, estão à venda 150 mil metros quadrados de floresta virgem. “Se você recebeu multa ambiental, um caminho para aliviar esse custo e reduzir taxas de ajuste de conduta é oferecer área preservada como compensação do dano”, diz o anúncio.. Valor do negócio: R$ 292 mil (R$ 1,95 o metro quadrado).

O movimento de compra a venda de florestas, seja por imposição legal, seja pela perspectiva de lucros futuros com o uso sustentável ou até pela iniciativa voluntária de salvar espécies da extinção, retrata o começo de um novo “boom” imobiliário. “O valor de terras florestadas certamente subirá quando a polêmica sobre o código florestal chegar ao fim”, prevê Miguel Calmon, coordenador do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, aliança que reúne instituições e empresas para recuperar impactos no bioma.

Ele diz que proprietários rurais aguardam definições sobre o percentual obrigatório de área protegida nas fazendas para fazer investimentos – inclusive na conservação. “Só com regras claras e incentivos o mercado terá a escala necessária para transformar a floresta em bom negócio para produtores e investidores”, afirma Calmon.

Existem na Mata Atlântica 17,5 milhões de hectares, equivalente a quatro vezes a área do Estado do Rio de Janeiro, passíveis de restauração, sem a concorrência com a produção de alimentos. São áreas de baixa aptidão agrícola, passivos de reserva legal e beira de rios sem vegetação. A meta do Pacto é restaurar 15 milhões de hectares até 2050, aumentando a cobertura florestal do bioma dos atuais 8% para 30% em relação à original. O custo varia de R$ 1 mil a R$ 2 mil por hectare, no caso de regeneração natural, e até R$ 15 mil, para a necessidade de plantio de mudas. A atividade envolve uma cadeia com 17 diferentes negócios, desde o geoprocessamento para mapear áreas até fornecedores de sementes, viveiros comunitários e particulares, vigilância florestal e empresas de plantio.

São oportunidades que estarão em evidência em 2011, declarado pela ONU como Ano Internacional das Florestas. “Valorizar árvores em pé é condição para conservá-las, ainda mais quando sabemos que 90% dos remanescentes fora da Amazônia estão na mão de particulares”, afirma Fernando Veiga, gerente de serviços ambientais da The Nature Conservancy.

Indicativa dessa tendência é a minuta da lei sobre pagamento por serviços ambientais, aprovada em dezembro na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados. A previsão é o repasse de incentivos ao redor de R$ 500 milhões por ano, oriundos da receita com o petróleo, para recompensar ações que garantem provisão de água, polinização de plantas, solos em condições de produzir alimentos e equilíbrio climático.

Completam o cenário a consolidação do mercado de créditos de carbono e de instrumentos como o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento Evitado), além do fundo global de R$ 100 bilhões anunciado na última reunião sobre clima em Cancún, no México, para financiar países em desenvolvimento.

A restauração florestal é o fio condutor. Na Bahia, a empresa de papel e celulose Fibria planeja até o fim do ano restaurar 2,9 mil hectares de Mata Atlântica. Estão sendo plantadas 1,5 milhão de mudas, ao custo de R$ 8 milhões, para resolver antigos passivos ambientais herdados na fusão com a Aracruz Celulose.

Para 2011, a meta é reflorestar mais 3,5 mil hectares, com investimento aproximado de R$ 14 milhões. No total, 15 mil hectares na Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais, além de outros 5 mil hectares no Vale do Paraíba em São Paulo, serão restaurados nos próximos anos mediante diferentes níveis de intervenção. “O principal objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC (Forest Stewardship Council) e às pressões ambientalistas”, explica João Augusti, gerente de meio ambiente florestal.

“A valorização da floresta nativa pode abrir frentes de negócio no setor”, prevê Renato Carneiro, diretor da indústria Veracel, dona de 104 mil hectares de árvores nativas na região de Porto Seguro (BA), mescladas com área praticamente igual de eucalipto. Para mitigar o problema da concentração fundiária, Paulo Dimas, pesquisador do Instituto Cidades, propõe a venda de florestas para fundos de pensão, permitindo capitalizar empresas de celulose para o fomento de uma economia florestal de uso múltiplo. A medida, segundo ele, refletiria no aumento de renda e na diversificação de negócios regionais..

A servidão florestal -uso de áreas de terceiros para compensar a falta de reserva legal – pode render R$ 300 por hectare ao ano, segundo analistas, o dobro da média de receita na agropecuária. “Ter floresta na fazenda, tempos atrás vista como barreira aos lucros, é hoje oportunidade de negócio”, enfatiza Márcia Hirota, diretora da SOS Mata Atlântica.

Sérgio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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Claudio Belli/Valor






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Joao Augusti, gerente de meio ambiente florestal da Fibria: "O objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC e às pressões ambientalistas"

Joao Augusti, gerente de meio ambiente florestal da Fibria: "O objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC e às pressões ambientalistas"

As ofertas estão na internet: “Vendo terreno com 50 alqueires de Mata Atlântica totalmente preservada para compensação ambiental, reserva legal ou crédito de carbono. A área está localizada em Conselheiro Lafaiete (MG), no Triângulo do Aço, onde há atividades de empresas como Gerdau, Aço Minas, Vale, CSN e Sumitomo Valourec“. No município de Embu-Guaçú (SP), na bacia hidrográfica da Represa de Guarapiranga, estão à venda 150 mil metros quadrados de floresta virgem. “Se você recebeu multa ambiental, um caminho para aliviar esse custo e reduzir taxas de ajuste de conduta é oferecer área preservada como compensação do dano”, diz o anúncio.. Valor do negócio: R$ 292 mil (R$ 1,95 o metro quadrado).

O movimento de compra a venda de florestas, seja por imposição legal, seja pela perspectiva de lucros futuros com o uso sustentável ou até pela iniciativa voluntária de salvar espécies da extinção, retrata o começo de um novo “boom” imobiliário. “O valor de terras florestadas certamente subirá quando a polêmica sobre o código florestal chegar ao fim”, prevê Miguel Calmon, coordenador do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, aliança que reúne instituições e empresas para recuperar impactos no bioma.

Ele diz que proprietários rurais aguardam definições sobre o percentual obrigatório de área protegida nas fazendas para fazer investimentos – inclusive na conservação. “Só com regras claras e incentivos o mercado terá a escala necessária para transformar a floresta em bom negócio para produtores e investidores”, afirma Calmon.

Existem na Mata Atlântica 17,5 milhões de hectares, equivalente a quatro vezes a área do Estado do Rio de Janeiro, passíveis de restauração, sem a concorrência com a produção de alimentos. São áreas de baixa aptidão agrícola, passivos de reserva legal e beira de rios sem vegetação. A meta do Pacto é restaurar 15 milhões de hectares até 2050, aumentando a cobertura florestal do bioma dos atuais 8% para 30% em relação à original. O custo varia de R$ 1 mil a R$ 2 mil por hectare, no caso de regeneração natural, e até R$ 15 mil, para a necessidade de plantio de mudas. A atividade envolve uma cadeia com 17 diferentes negócios, desde o geoprocessamento para mapear áreas até fornecedores de sementes, viveiros comunitários e particulares, vigilância florestal e empresas de plantio.

São oportunidades que estarão em evidência em 2011, declarado pela ONU como Ano Internacional das Florestas. “Valorizar árvores em pé é condição para conservá-las, ainda mais quando sabemos que 90% dos remanescentes fora da Amazônia estão na mão de particulares”, afirma Fernando Veiga, gerente de serviços ambientais da The Nature Conservancy.

Indicativa dessa tendência é a minuta da lei sobre pagamento por serviços ambientais, aprovada em dezembro na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados. A previsão é o repasse de incentivos ao redor de R$ 500 milhões por ano, oriundos da receita com o petróleo, para recompensar ações que garantem provisão de água, polinização de plantas, solos em condições de produzir alimentos e equilíbrio climático.

Completam o cenário a consolidação do mercado de créditos de carbono e de instrumentos como o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento Evitado), além do fundo global de R$ 100 bilhões anunciado na última reunião sobre clima em Cancún, no México, para financiar países em desenvolvimento.

A restauração florestal é o fio condutor. Na Bahia, a empresa de papel e celulose Fibria planeja até o fim do ano restaurar 2,9 mil hectares de Mata Atlântica. Estão sendo plantadas 1,5 milhão de mudas, ao custo de R$ 8 milhões, para resolver antigos passivos ambientais herdados na fusão com a Aracruz Celulose.

Para 2011, a meta é reflorestar mais 3,5 mil hectares, com investimento aproximado de R$ 14 milhões. No total, 15 mil hectares na Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais, além de outros 5 mil hectares no Vale do Paraíba em São Paulo, serão restaurados nos próximos anos mediante diferentes níveis de intervenção. “O principal objetivo é atender às exigências dos órgãos ambientais, à demanda da certificação socioambiental FSC (Forest Stewardship Council) e às pressões ambientalistas”, explica João Augusti, gerente de meio ambiente florestal.

“A valorização da floresta nativa pode abrir frentes de negócio no setor”, prevê Renato Carneiro, diretor da indústria Veracel, dona de 104 mil hectares de árvores nativas na região de Porto Seguro (BA), mescladas com área praticamente igual de eucalipto. Para mitigar o problema da concentração fundiária, Paulo Dimas, pesquisador do Instituto Cidades, propõe a venda de florestas para fundos de pensão, permitindo capitalizar empresas de celulose para o fomento de uma economia florestal de uso múltiplo. A medida, segundo ele, refletiria no aumento de renda e na diversificação de negócios regionais..

A servidão florestal -uso de áreas de terceiros para compensar a falta de reserva legal – pode render R$ 300 por hectare ao ano, segundo analistas, o dobro da média de receita na agropecuária. “Ter floresta na fazenda, tempos atrás vista como barreira aos lucros, é hoje oportunidade de negócio”, enfatiza Márcia Hirota, diretora da SOS Mata Atlântica.

Sérgio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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