{"id":10101,"date":"2012-06-21T12:00:16","date_gmt":"2012-06-21T15:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=10101"},"modified":"2012-06-21T12:00:16","modified_gmt":"2012-06-21T15:00:16","slug":"economia-verde-em-xeque","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=10101","title":{"rendered":"Economia verde em xeque"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEconomia verde\u201d costuma ser usada para descrever a compatibiliza\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico com o meio ambiente, um dos blocos do crescimento sustent\u00e1vel. Segundo a Green Economy Initiative, iniciativa do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lan\u00e7ada em 2008, a economia verde resulta em melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, enquanto reduz os riscos ambientais e a escassez ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Apesar de ser usada h\u00e1 mais de 20 anos, a express\u00e3o \u201ceconomia verde\u201d ainda \u00e9 controversa, assim como seu pr\u00f3prio conceito. Enquanto para alguns \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel, para os mais cr\u00edticos ela seria uma tentativa de viabilizar a sociedade de consumo e adiar mudan\u00e7as estruturais.<\/p>\n<p>Essa foi a t\u00f4nica de um painel que reuniu cientistas de diversos pa\u00edses no Rio de Janeiro durante as discuss\u00f5es para a RIO+20. No encontro, os pesquisadores debateram as possibilidades de uma economia verde, se esse modelo requer uma mudan\u00e7a de paradigma nos padr\u00f5es econ\u00f4micos ou se \u00e9 compat\u00edvel com os mercados competitivos, com a mercantiliza\u00e7\u00e3o de recursos e com a expans\u00e3o do consumo.<\/p>\n<p>A economista Elizabeth Stanton, do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, Su\u00e9cia, pontuou que \u00e9 preciso analisar para quem os benef\u00edcios desse novo paradigma econ\u00f4mico seriam distribu\u00eddos. \u201cA tend\u00eancia \u00e9 fazer os pobres\u00a0ficarem mais ricos ou os ricos ainda mais ricos?\u201d, questionou.<\/p>\n<p>Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustent\u00e1vel da Universidade de Surrey, na Inglaterra, e autor do livro\u00a0<em>Prosperity without growth<\/em>\u00a0(\u201cProsperidade sem crescimento\u201d), defendeu uma mudan\u00e7a de valores, com menos consumismo e individualismos.<\/p>\n<p>\u201cO crescimento econ\u00f4mico tem distribu\u00eddo seus benef\u00edcios de maneira desigual. Longe de elevar o padr\u00e3o de vida dos pobres, o crescimento piorou a situa\u00e7\u00e3o de boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial. A riqueza favoreceu uma minoria\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que a economia se expande, crescem as implica\u00e7\u00f5es nos recursos naturais envolvidos, com impactos globais que j\u00e1 s\u00e3o insustent\u00e1veis. No \u00faltimo meio s\u00e9culo, enquanto a economia global crescia, 60% dos ecossistemas mundiais foram degradados. Uma escassez de recursos naturais b\u00e1sicos \u2013 como o petr\u00f3leo \u2013 pode estar a menos de uma d\u00e9cada de n\u00f3s\u201d, afirmou Jackson.<\/p>\n<p>\u201cA economia verde \u00e9 uma forma de negar evid\u00eancias como a de que a concentra\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono est\u00e1 crescendo a 2 partes por milh\u00e3o (ppm) ao ano\u201d, disse o espanhol Joan Martinez Alier, da Universidade de Barcelona, \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong>.<\/p>\n<p>Segundo o economista catal\u00e3o, a base do acordo deveria ser o hemisf\u00e9rio Norte global renunciar ao crescimento econ\u00f4mico em favor do crescimento do Sul.<\/p>\n<p>\u201cCreio que o Norte deveria ter economias sem crescimento e o Sul deveria reduzir suas extra\u00e7\u00f5es naturais para a metade e passar a exportar menos seus produtos. O que o Sul tamb\u00e9m poderia fazer era aumentar os impostos sobre a exporta\u00e7\u00e3o. No caso brasileiro, por exemplo, quem pagaria por um poss\u00edvel acidente ecol\u00f3gico na extra\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo do fundo do mar, com o pr\u00e9-sal?\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para Alier, a proposta de sustentabilidade mundial baseada em ajudas financeiras multilaterais n\u00e3o \u00e9 o caminho. \u201cEmprestar dinheiro, como historicamente se tem feito, n\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda, pois preservar o meio ambiente n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de milh\u00f5es, mas sim de controlar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e manter a biodiversidade\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cEm rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses do hemisf\u00e9rio Sul, h\u00e1 um pensamento de que eles s\u00e3o demasiados pobres para serem ecol\u00f3gicos. Mas do que morreram pessoas como Chico Mendes se n\u00e3o para defender a ecologia? Ecologia n\u00e3o \u00e9 um luxo, \u00e9 uma necessidade para todos\u201d, afirmou Alier.<\/p>\n<p><strong>Recursos naturais<\/strong><\/p>\n<p>Lidia Brito, diretora da divis\u00e3o de Pol\u00edticas Cient\u00edficas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco), rejeita a express\u00e3o \u201ceconomia verde\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPara ser honesta, na Unesco n\u00e3o falamos em economia verde. Falamos de sociedade verde. Penso que o ceticismo dos investigadores vem da\u00ed: a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre economia. O que temos certeza \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar apenas de um dos blocos do desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cA economia n\u00e3o pode ser discutida sem as quest\u00f5es sociais, culturais e ambientais. Elas est\u00e3o interligadas e n\u00e3o podem ser tratadas de forma independente. Fico satisfeita com os cientistas brasileiros, que n\u00e3o querem falar apenas em economia. Temos que falar em sociedade verde, para destacar essa for\u00e7a de mudan\u00e7a\u201d, disse Brito.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Ronaldo Seroa da Motta, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e professor de Economia Ambiental do Ibmec no Rio de Janeiro, n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda a n\u00e3o ser tentar uma economia que seja restritiva no uso de recursos naturais.<\/p>\n<p>\u201cSou a favor da precifica\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Enquanto tivermos \u00e1gua barata, por exemplo, vamos consumir mais. Devemos nos preocupar com o produto l\u00edquido, quer dizer, o quanto que de capital natural perdemos para gerar uma determinada produ\u00e7\u00e3o. Era isso que dever\u00edamos estar medindo\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cSe aumentarmos o pre\u00e7o dos servi\u00e7os ambientais, teremos uma perda de crescimento econ\u00f4mico em curto prazo, mas depois isso ser\u00e1 revertido. Um exemplo: devido ao alto \u00edndice de desmatamento das florestas, o cerceamento \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de madeiras fez com que pass\u00e1ssemos a usar derivados de petr\u00f3leo, e hoje vemos muitos produtos de pl\u00e1stico e quase nada de madeira. Mas se tivermos uma pol\u00edtica agressiva na \u00e1rea ambiental, a primeira coisa a ser feita \u00e9 reflorestar, op\u00e7\u00e3o mais barata e urgente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Segundo Motta, ex-diretor da Ag\u00eancia Nacional de Avia\u00e7\u00e3o Civil (Anac), \u00e9 preciso reflorestar 10% da superf\u00edcie do planeta para capturar carbono. \u201cIsso impulsionaria enormemente o setor produtivo da madeira, uma vez que vamos extrair madeira e mobiliz\u00e1-la em artigos como m\u00f3veis, para poder fazer a madeira crescer novamente e continuar capturando carbono\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, daqui a 30 anos, por exemplo, o fato de colocarmos o pre\u00e7o do carbono alto e todo mundo ter que plantar para poder continuar a produzi-lo, implicar\u00e1 em crescimento econ\u00f4mico impulsionado pelo setor produtivo da madeira, mais competitivo, sem degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com Motta, a sa\u00edda n\u00e3o \u00e9 aumentar o pre\u00e7o do que n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel por meio de impostos, mas sim incentivar iniciativas sustent\u00e1veis cujos produtos sejam mais baratos.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEconomia verde\u201d costuma ser usada para descrever a compatibiliza\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico com o meio ambiente, um dos blocos do crescimento sustent\u00e1vel. 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