{"id":10225,"date":"2012-07-09T10:33:46","date_gmt":"2012-07-09T13:33:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=10225"},"modified":"2012-07-09T10:33:46","modified_gmt":"2012-07-09T13:33:46","slug":"a-balanca-comercial-de-ameacas-a-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=10225","title":{"rendered":"A balan\u00e7a comercial de amea\u00e7as \u00e0 biodiversidade"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/novo.maternatura.org.br\/imagens\/informativo\/julho_2012\/biodiversidade_comercio.png\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"154\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Imagem: Mater Natura<\/figcaption><\/figure>\n<p>Se os brasileiros importassem casacos feitos de pele de panda, certamente estar\u00edamos contribuindo para a extin\u00e7\u00e3o desse simp\u00e1tico urso chin\u00eas. Do mesmo modo, se os chineses usassem casacos de mico-le\u00e3o-dourado, seriam acusados de contribuir para a destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade brasileira. Imagine que a balan\u00e7a comercial entre China e Brasil se restringisse a esses dois produtos: poder\u00edamos dizer que a balan\u00e7a comercial de amea\u00e7as \u00e0 biodiversidade entre os dois pa\u00edses estaria equilibrada.<\/p>\n<p>Mas o com\u00e9rcio entre Brasil e China n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples: exportamos soja, frango, madeira e min\u00e9rio. Importamos roupas e centenas de outros produtos industriais. Ao produzirmos tudo o que exportamos para a China, contribu\u00edmos para a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies da Amaz\u00f4nia e do Cerrado. Por sua vez, ao produzir tudo o que nos vendem, os chineses poluem seus rios e tamb\u00e9m destroem parte da sua biodiversidade. Ser\u00e1 poss\u00edvel calcular a balan\u00e7a comercial de amea\u00e7as \u00e0 biodiversidade entre Brasil e China? Qual seria o valor l\u00edquido dessa balan\u00e7a? Estar\u00edamos importando tr\u00eas amea\u00e7as a esp\u00e9cies chinesas e exportando cinco amea\u00e7as a esp\u00e9cies brasileiras?<\/p>\n<p>Parece conversa de louco, mas cientistas publicaram um estudo (International trade drives biodiversity threats in developing nations) no dia 7 de junho no peri\u00f3dico cient\u00edfico \u201cNature\u201d, contendo o mapeamento do impacto do com\u00e9rcio internacional sobre o risco de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complicado. Os cientistas selecionaram 6.964 esp\u00e9cies listadas por \u00f3rg\u00e3os internacionais como amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o em 187 pa\u00edses. Em seguida fizeram um levantamento das 166 atividades humanas que amea\u00e7am essas esp\u00e9cies (por exemplo, desmatamento e polui\u00e7\u00e3o). Para cada uma das esp\u00e9cies, eles identificaram quais das atividades humanas contribu\u00edam para a extin\u00e7\u00e3o de cada esp\u00e9cie em cada um dos pa\u00edses. Isso gerou um banco de dados com 171.825 combina\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies, pa\u00edses e atividades econ\u00f4micas (exemplo: no Brasil, o mico-le\u00e3o-dourado \u00e9 amea\u00e7ado pela destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica para a produ\u00e7\u00e3o de frutas).<\/p>\n<p>Esse primeiro banco de dados foi integrado a um segundo, com 15.909 tipos de transa\u00e7\u00f5es comerciais, tanto internas quanto entre pa\u00edses (exemplo: exporta\u00e7\u00f5es de frutas do Brasil, importa\u00e7\u00e3o de carros da China).<\/p>\n<p>Cruzando estes dois bancos de dados, \u00e9 poss\u00edvel identificar o fluxo comercial respons\u00e1vel pela amea\u00e7a a cada uma das esp\u00e9cies. Examinando o exemplo de Madagascar, fica f\u00e1cil entender o tipo de resultado desse estudo. L\u00e1 existem 359 esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o. Metade da culpa por esse risco vem de atividades econ\u00f4micas que geram produtos consumidos dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds; 25% da culpa recai sobre produtos exportados para a Uni\u00e3o Europeia e 25% para a China. O restante da culpa \u00e9 dividida entre Jap\u00e3o e EUA.<\/p>\n<p>Com base nesses dados, \u00e9 poss\u00edvel descobrir que alguns pa\u00edses, no balan\u00e7o final, s\u00e3o &#8220;importadores&#8221; de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, ou seja, as mercadorias que importam causam mais amea\u00e7as no restante do mundo que as mercadorias que eles exportam causam em suas esp\u00e9cies. Exemplos desse grupo s\u00e3o EUA, Jap\u00e3o, Coreia do Sul e Canad\u00e1. Outros pa\u00edses s\u00e3o &#8220;exportadores&#8221; de extin\u00e7\u00e3o, ou seja, as mercadorias que exportam causam mais estragos em casa do que o estrago feito no restante do mundo pelas mercadorias que eles importam. \u00c9 o caso de Madagascar, Tail\u00e2ndia e Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>O que surpreende \u00e9 o caso do Brasil, pois a princ\u00edpio se imagina que somos um &#8220;exportador&#8221; de extin\u00e7\u00e3o, pois destru\u00edmos a Floresta Amaz\u00f4nica para produzir carne e gr\u00e3os, exportamos madeira e minerais e importamos muitos produtos industrializados. O estudo indica que o Brasil tem 356 esp\u00e9cies entre as estudadas. A maioria delas \u00e9 impactada principalmente por atividades econ\u00f4micas que suprem nosso mercado dom\u00e9stico. Somente 35 delas est\u00e3o sob amea\u00e7a por atividades de exporta\u00e7\u00e3o, para pa\u00edses como Estados Unidos, Jap\u00e3o, Alemanha, Argentina e China. Por outro lado, as atividades de importa\u00e7\u00e3o brasileira amea\u00e7am 76 esp\u00e9cies de fora do pa\u00eds, vindas de Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Bol\u00edvia, entre outros. Assim, apesar de nossa imensa biodiversidade, nossa balan\u00e7a comercial de amea\u00e7as \u00e0 biodiversidade \u00e9 mais parecida com a de um pa\u00eds europeu do que com a de um pa\u00eds agr\u00edcola do Sudeste Asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u201cFicamos muito surpresos com o tamanho do efeito de nossos estudos. Muitos de nossos vizinhos (Papua Nova Guin\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a Austr\u00e1lia; e Honduras para a Am\u00e9rica Latina) possuem at\u00e9 60% de suas esp\u00e9cies amea\u00e7adas devido ao com\u00e9rcio internacional\u201d, afirmou Barney Fornan, um dos autores do estudo, da Universidade de Sidney, na Austr\u00e1lia. De modo global, o estudo conclui que esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de 30%, exclu\u00eddas as esp\u00e9cies invasoras.<\/p>\n<p>Um exemplo encontrado foi o do macaco aranha (foto) que est\u00e1 perdendo seu habitat por causa da planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 e cacau no M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Central. A an\u00e1lise mostrou tamb\u00e9m que Estados Unidos, Uni\u00e3o Europeia e Jap\u00e3o s\u00e3o os principais destinos das mercadorias que est\u00e3o relacionadas \u00e0 perda de biodiversidade.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esse trabalho \u00e9 preliminar e os autores listam extensivamente os potenciais problemas e dificuldades de um estudo t\u00e3o abrangente como esse, mas o interessante \u00e9 que pela primeira vez foi mapeada, em escala global, a responsabilidade dos produtos que circulam nas rotas do com\u00e9rcio internacional pela destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade do planeta.<\/p>\n<p>Estudos como este ser\u00e3o aperfei\u00e7oados e se tornar\u00e3o instrumentos importantes na divis\u00e3o, entre os pa\u00edses, da responsabilidade pela destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Tamb\u00e9m ajudar\u00e3o na discuss\u00e3o de quem deve pagar a conta associada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Mater Natura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se os brasileiros importassem casacos feitos de pele de panda, certamente estar\u00edamos contribuindo para a extin\u00e7\u00e3o desse simp\u00e1tico urso chin\u00eas. Do mesmo modo, se os chineses usassem casacos de mico-le\u00e3o-dourado, seriam acusados de contribuir para a destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade brasileira. 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