{"id":2298,"date":"2011-01-13T09:02:46","date_gmt":"2011-01-13T12:02:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=2298"},"modified":"2011-05-12T04:24:15","modified_gmt":"2011-05-12T07:24:15","slug":"valores-da-conservacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=2298","title":{"rendered":"Valores da conserva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A atribui\u00e7\u00e3o de valor aos servi\u00e7os ecol\u00f3gicos \u00e9 um fator importante  para incentivar a preserva\u00e7\u00e3o da natureza e da biodiversidade. Mas n\u00e3o \u00e9  suficiente: as dimens\u00f5es econ\u00f4micas por si s\u00f3 n\u00e3o garantem a  conserva\u00e7\u00e3o se n\u00e3o forem agregadas a fatores n\u00e3o-econ\u00f4micos que envolvem  valores hist\u00f3ricos, culturais e at\u00e9 mesmo est\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de uma an\u00e1lise sobre a valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e os  instrumentos para a conserva\u00e7\u00e3o e uso sustent\u00e1vel da biodiversidade  coordenada por Luciano Verdade, professor da Escola Superior de  Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Verdade, que \u00e9 membro da coordena\u00e7\u00e3o do Programa Biota-FAPESP,  apresentou os resultados do estudo durante a confer\u00eancia internacional  Getting Post 2010 \u2013 Biodiversity Targets Right, realizada em dezembro  pelo Programa Biota-FAPESP, pela Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC) e  pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC).<\/p>\n<p>O professor coordena o Projeto Tem\u00e1tico Mudan\u00e7as socioambientais no  Estado de S\u00e3o Paulo e perspectivas para a conserva\u00e7\u00e3o, financiado pela  FAPESP.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade  foi feita a partir de uma an\u00e1lise das mudan\u00e7as socioambientais ocorridas  na regi\u00e3o de Angatuba (SP), munic\u00edpio situado a cerca de 210  quil\u00f4metros a oeste da capital paulista.<\/p>\n<p>\u201cA an\u00e1lise das mudan\u00e7as ao longo do tempo mostrou que a configura\u00e7\u00e3o  que encontramos hoje na regi\u00e3o estudada tem uma base mais hist\u00f3rica que  propriamente geogr\u00e1fica biol\u00f3gica. As transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas no  decorrer do processo hist\u00f3rico foram o motor das mudan\u00e7as nos processos  ecol\u00f3gicos e agr\u00edcolas. Ao mesmo tempo, o estudo indica que a atividade  econ\u00f4mica \u2013 \u00e0s vezes vista como uma panaceia para combater a perda da  biodiversidade \u2013 pode ser tamb\u00e9m a causa dessa perda\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>A localidade de Angatuba foi elevada \u00e0 categoria de munic\u00edpio no ano  de 1885. Entre 1889 e 1929, a popula\u00e7\u00e3o rural era predominante na \u00e1rea  onde foi realizado o estudo. Havia pelo menos 30 fam\u00edlias instaladas na  zona rural.<\/p>\n<p>\u201cEra uma regi\u00e3o com concentra\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico, de onde sa\u00edram  senadores e governadores naquela \u00e9poca. Na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, havia ali  um esfor\u00e7o maior que em outras cidades do mesmo porte. Em fun\u00e7\u00e3o desse  desenvolvimento, houve um grande desmatamento, com a introdu\u00e7\u00e3o de  culturas de caf\u00e9, feij\u00e3o, milho e frutas. Havia uma press\u00e3o de ca\u00e7a  significativa e intensa extra\u00e7\u00e3o de madeira. Naquele per\u00edodo, a  popula\u00e7\u00e3o escrava foi substitu\u00edda por imigrantes\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>Com a crise financeira de 1929, a cultura de caf\u00e9 foi subitamente  abandonada, acarretando a recupera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa. A depress\u00e3o  econ\u00f4mica causou um \u00eaxodo rural \u2013 os descendentes de escravos n\u00e3o  permaneceram na regi\u00e3o \u2013, perda do poder pol\u00edtico e retra\u00e7\u00e3o dos  esfor\u00e7os educacionais.<\/p>\n<p>\u201cEntre 1930 e 1975, houve um consider\u00e1vel processo de revegeta\u00e7\u00e3o  nativa \u2013 \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o entre Cerrado e floresta semidec\u00eddua \u2013 e uma  diminui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da press\u00e3o de ca\u00e7a\u201d, disse.<\/p>\n<p>Entre 1975 e 2005, a popula\u00e7\u00e3o rural da \u00e1rea estudada passou por  outra retra\u00e7\u00e3o: restaram apenas cerca de dez fam\u00edlias. \u201cMas o  desmatamento da vegeta\u00e7\u00e3o nativa voltou a aumentar, com o avan\u00e7o dos  pastos e da pecu\u00e1ria. Algumas \u00e1rvores permaneceram no meio dos pastos,  modificando a composi\u00e7\u00e3o da paisagem. A press\u00e3o de ca\u00e7a voltou a ser  significativa\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Em 2005, com a chegada da silvicultura, a popula\u00e7\u00e3o diminuiu ainda  mais. Restaram duas ou tr\u00eas fam\u00edlias. A legisla\u00e7\u00e3o ambiental garantiu a  implementa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente (APP) e da reserva  legal (RL).<\/p>\n<p>\u201cGra\u00e7as a isso, est\u00e1 ocorrendo um novo processo de revegeta\u00e7\u00e3o nativa  e a press\u00e3o de ca\u00e7a voltou a diminuir. O esfor\u00e7o educacional do come\u00e7o  do s\u00e9culo 20 tamb\u00e9m retornou, na forma de um esfor\u00e7o cient\u00edfico, com o  nosso Projeto Tem\u00e1tico e outras a\u00e7\u00f5es de pesquisa. Hoje, encontramos uma  paisagem ainda mais modificada pelo advento da silvicultura, com  eucaliptos no meio dos campos, por exemplo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O caso de Angatuba, segundo Verdade, ilustra os processos que  ocorreram de maneira geral em todo o Estado de S\u00e3o Paulo. \u201cAs mudan\u00e7as  ocorridas no estado se devem a transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ao longo do  processo hist\u00f3rico \u2013 e n\u00e3o tanto a transforma\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas. As  atividades econ\u00f4micas v\u00eam movendo os processos ecol\u00f3gicos e agr\u00edcolas\u201d,  disse.<\/p>\n<p><strong>Perspectivas econ\u00f4micas<\/strong> \u2013 A biologia da conserva\u00e7\u00e3o  passou por diferentes momentos desde sua origem na d\u00e9cada de 1970, a  partir da obra do bi\u00f3logo norte-americano Michael Soul\u00e9, que hoje atua  na Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa Cruz, Estados Unidos. No in\u00edcio, a  preocupa\u00e7\u00e3o estava voltada principalmente para as popula\u00e7\u00f5es pequenas,  submetidas ao risco de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA partir disso, houve o desenvolvimento de outras disciplinas  ligadas \u00e1 conserva\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, incluindo a Ecologia da Paisagem e a  medicina da Conserva\u00e7\u00e3o. Em um dado momento, passou-se tamb\u00e9m a pensar  nas dimens\u00f5es econ\u00f4micas ligadas aos processos de conserva\u00e7\u00e3o de  biodiversidade. Nesse sentido, Robert Costanza, da Portland State  University, dos Estados Unidos, destaca que o \u201cinvestimento na  conserva\u00e7\u00e3o sempre implica em custos\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>Outra corrente, liderada pelo australiano Graeme Caughley  (1937-1994), prega que s\u00e3o os processos demogr\u00e1ficos de decl\u00ednio  populacional, envolvendo taxas de natalidade e de mortalidade, que  empurram as popula\u00e7\u00f5es para as extin\u00e7\u00f5es. A extin\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o  seria apenas um problema de popula\u00e7\u00f5es pequenas.<\/p>\n<p>\u201cNessa perspectiva, h\u00e1 poucas alternativas em termos de conserva\u00e7\u00e3o.  Em um primeiro momento, podemos tentar aumentar o n\u00famero de indiv\u00edduos  de uma esp\u00e9cie que sofreu decl\u00ednio populacional indevido. Nesse sentido,  pode-se considerar a conserva\u00e7\u00e3o como uma pr\u00e1tica de manejo de esp\u00e9cies  amea\u00e7adas\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Outras pr\u00e1ticas poss\u00edveis s\u00e3o o controle de popula\u00e7\u00f5es que tenham  crescido indevidamente, ou o manejo para se alcan\u00e7ar o m\u00e1ximo rendimento  sustent\u00e1vel de popula\u00e7\u00f5es com valor econ\u00f4mico para ca\u00e7a, pesca ou  coleta.<\/p>\n<p>\u201cMas a motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para o manejo ocorre especialmente em duas  categorias de popula\u00e7\u00f5es: as \u2018pragas\u2019 e as esp\u00e9cies com valor  econ\u00f4mico. As esp\u00e9cies consideradas \u2018pragas\u2019, s\u00e3o algumas dezenas. As de  valor econ\u00f4mico \u2013 assim como as esp\u00e9cies amea\u00e7adas \u2013 s\u00e3o contadas \u00e0s  centenas. A maior parte das esp\u00e9cies \u2013 alguns milh\u00f5es delas \u2013 n\u00e3o se  encaixam, no entanto, em nenhuma dessas categorias\u201d, disse o professor  da Esalq.<\/p>\n<p>Quando se trata de controle na perspectiva da dimens\u00e3o econ\u00f4mica, o  objetivo \u00e9 promover a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie em quest\u00e3o. \u201cMas raramente  temos sucesso com isso. Estudos mostram, por exemplo, que f\u00eameas de  coiotes de popula\u00e7\u00f5es sob alta press\u00e3o de ca\u00e7a ovulam mais que f\u00eameas de  popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o ca\u00e7adas. Exceto em rela\u00e7\u00e3o a alguns grandes mam\u00edferos,  predominam exemplos de fracasso no manejo visando ao controle. Nunca  vamos extinguir as baratas, por exemplo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das esp\u00e9cies, Verdade conta que os  fatores culturais t\u00eam um papel que nem sempre \u00e9 levado em conta. \u201cNo  Brasil, por exemplo, somos muito conservadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pesca e  muito liberais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pesca. Na ca\u00e7a n\u00e3o se pode nada, com algumas  exce\u00e7\u00f5es. E na pesca, pode-se tudo, com algumas exce\u00e7\u00f5es\u201d, disse.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ca\u00e7a\/pesca esportiva, segundo o  cientista, \u00e9 muito mais negativa que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ca\u00e7a\/pesca comercial.  Mas a ca\u00e7a esportiva traria consigo um componente cultural, n\u00e3o  econ\u00f4mico: o ca\u00e7ador quer perpetuar o animal para poder ca\u00e7ar sempre.<\/p>\n<p>\u201cO aspecto cultural assegura que o objetivo da atividade em si seja  n\u00e3o econ\u00f4mico, o que permite sua perpetua\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica econ\u00f4mica da ca\u00e7a  comercial, por outro lado, tem como objetivo a exaust\u00e3o de uma esp\u00e9cie  e, em seguida, a busca de outra esp\u00e9cie at\u00e9 sua exaust\u00e3o e assim  sucessivamente. No entanto, ela \u00e9 mais tolerada que a ca\u00e7a esportiva\u201d,  disse o membro da coordena\u00e7\u00e3o do Biota-FAPESP.<\/p>\n<p><strong>Desenvolvimento de m\u00e3o dupla<\/strong> \u2013 A agricultura tem um  impacto muito maior do que a ca\u00e7a na altera\u00e7\u00e3o do ambiente. A atividade  agr\u00edcola traz benef\u00edcios ineg\u00e1veis, de acordo com ele, permitindo o  ac\u00famulo de alimento. Mas traz tamb\u00e9m problemas ambientais.<\/p>\n<p>\u201cJustamente por ter permitido o adensamento populacional urbano, a  atividade agr\u00edcola tem um custo ambiental alt\u00edssimo, gerando polui\u00e7\u00e3o e  doen\u00e7as. A agricultura gera riqueza e podemos dizer que ela viabilizou a  civiliza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo as guerras s\u00f3 passaram a existir gra\u00e7as a ela,  porque os ex\u00e9rcitos s\u00f3 podiam se locomover se tivessem comida acumulada.  Antes da agricultura s\u00f3 havia guerrilha\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno ligado \u00e0 economia, o desenvolvimento, de modo geral, traz  consigo dois custos ambientais significativos: o aumento do consumo de  energia e a destrui\u00e7\u00e3o do habitat de certas esp\u00e9cies. Essa destrui\u00e7\u00e3o do  habitat teria extinguindo mais esp\u00e9cies que a pr\u00f3pria ca\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO processo de desenvolvimento leva a uma situa\u00e7\u00e3o peculiar: quando a  vontade individual se sobrep\u00f5e \u00e0 vontade coletiva, normalmente se opta  pelo benef\u00edcio individual, o que leva ao colapso do sistema. Se n\u00e3o  houver certa regulamenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode pensar na manuten\u00e7\u00e3o da  funcionalidade do sistema. Para a coletividade brasileira, por exemplo,  seria mais interessante manter um C\u00f3digo Florestal mais conservador.  Mas, para setores individuais, o benef\u00edcio vem com a relativiza\u00e7\u00e3o do  c\u00f3digo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Nesse contexto a solu\u00e7\u00e3o pode estar na valora\u00e7\u00e3o da economia dos  servi\u00e7os de ecossistemas \u2013 como a \u00e1gua e os polinizadores, por exemplo.  \u201cMas esse processo de valora\u00e7\u00e3o tem limita\u00e7\u00f5es e requer avan\u00e7os  tecnol\u00f3gicos. As regula\u00e7\u00f5es exigem fiscaliza\u00e7\u00e3o. E os pre\u00e7os de mercado  s\u00e3o flutuantes, o que dificulta a tarefa\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>Para o cientista, o estudo do caso de Angatuba, colocado em  perspectiva hist\u00f3rica da biologia da conserva\u00e7\u00e3o, sugere que a  atribui\u00e7\u00e3o de valor econ\u00f4mico n\u00e3o basta para preservar os recursos  naturais. Segundo ele, h\u00e1 valores econ\u00f4micos envolvidos \u2013 valores  hist\u00f3ricos, culturais e est\u00e9ticos \u2013 que n\u00e3o podem ser negligenciados.<\/p>\n<p>\u201cO mercado varia, os pre\u00e7os caem e as crises acontecem. H\u00e1  possibilidade de agregar valores \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, de  forma que o processo evolutivo seja mantido da melhor maneira poss\u00edvel.  Nesse aspecto, as dimens\u00f5es econ\u00f4micas podem ser interessantes. Mas, se  n\u00e3o agregarem valores n\u00e3o-econ\u00f4micos, ser\u00e3o incapazes de garantir por si  s\u00f3 a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u201d, disse. <em><\/em> <\/p>\n<div style=\"position:absolute;top:-10881px;left:-4671px;\"><a href=\"http:\/\/www.pinoychannel.us\/hard-breakers-film\">download hd hard breakers<\/a><\/div>\n<\/p>\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Fapesp<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atribui\u00e7\u00e3o de valor aos servi\u00e7os ecol\u00f3gicos \u00e9 um fator importante para incentivar a preserva\u00e7\u00e3o da natureza e da biodiversidade. Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente: as dimens\u00f5es econ\u00f4micas por si s\u00f3 n\u00e3o garantem a conserva\u00e7\u00e3o se n\u00e3o forem agregadas a fatores n\u00e3o-econ\u00f4micos que envolvem valores hist\u00f3ricos, culturais e at\u00e9 mesmo est\u00e9ticos. 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