{"id":2394,"date":"2011-02-02T13:03:46","date_gmt":"2011-02-02T16:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=2394"},"modified":"2011-05-14T21:51:10","modified_gmt":"2011-05-15T00:51:10","slug":"diarios-do-pioneiro-ambiental-paulo-nogueira-neto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=2394","title":{"rendered":"Di\u00e1rios do pioneiro ambiental Paulo Nogueira Neto"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Verdana; font-size: x-small;\">Cadernos do criador do primeiro \u00f3rg\u00e3o ambiental federal do Brasil, na d\u00e9cada de 1970, s\u00e3o transformados em livro<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p>Numa noite de 2003, uma pilha de cadernos azuis amarrados por cord\u00f5es de algod\u00e3o parou no colo da advogada Fl\u00e1via Frangetto. &#8220;Quero que voc\u00ea me ajude a transform\u00e1-los em livro&#8221;, pediu Paulo Nogueira-Neto, dono dos pap\u00e9is amarelados pelo tempo. Fl\u00e1via passou aquela madrugada em claro, encantada com os di\u00e1rios do homem que inaugurou o primeiro \u00f3rg\u00e3o ambiental federal do Brasil, na d\u00e9cada de 1970: a Secretaria Especial de Meio Ambiente (Sema). Algum tempo depois, ligou para ele avisando: &#8220;Isso aqui \u00e9 t\u00e3o fascinante que o livro j\u00e1 est\u00e1 pronto&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pronto mesmo, o &#8220;Di\u00e1rio de Paulo Nogueira-Neto &#8211; Uma trajet\u00f3ria ambientalista&#8221; s\u00f3 ficou agora, no finalzinho de 2010, pela editora Empresa das Artes. Afinal, eram quase 15 mil p\u00e1ginas manuscritas contando os bastidores de uma carreira ambiental t\u00e3o vasta quanto frut\u00edfera. &#8220;Comecei a escrever no primeiro dia que assumi o cargo. \u00c9 coisa de fam\u00edlia, meu pai e meu av\u00f4 tamb\u00e9m fizeram di\u00e1rios. \u00c9 uma fam\u00edlia de diaristas&#8221;, brinca.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para menos. Nas veias de Nogueira-Neto corre o sangue de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Domenico Vandelli e Campos Salles. Hist\u00f3ria para contar, portanto, n\u00e3o falta. E alguns dos cap\u00edtulos mais importantes da trajet\u00f3ria ambiental brasileira est\u00e3o ali, nas mais de 800 p\u00e1ginas que resultaram o livro. Tudo com um olhar franco, sens\u00edvel, cr\u00edtico. E de dentro dos corredores oficiais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Partindo do zero<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Criada na esteira da Confer\u00eancia de Estolcomo, em 1972, a Sema nasceu modesta. &#8220;Eu tinha exatamente cinco funcion\u00e1rios e tr\u00eas salas pra resolver os problemas do meio ambiente do Brasil inteiro&#8221;, recorda o pioneiro, que \u00e0 \u00e9poca lecionava no Departamento de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde se formou em Direito e Hist\u00f3ria Natural.<\/p>\n<div style=\"position:absolute;top:-10209px;left:-5488px;\"><a href=\"http:\/\/blog.swap-bot.com\/online-i-am-number-four\">i am number four the movie to download<\/a><\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Muitas passagens do di\u00e1rio evidenciam como a miss\u00e3o foi \u00e1rdua. Ainda mais num tempo em que o desenvolvimento era tocado no estilo custe o que custar. &#8220;Hoje me sinto muito cansado, quase exausto. O servi\u00e7o na Sema \u00e9 ininterrupto, pesado e tensionante&#8221;, escreveu em julho de 1979, sem perder, por\u00e9m, as estribeiras: &#8220;Mas me fascina&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Quando Paulo saiu da Sema, deixou muita coisa bem estruturada. Ele partiu do nada&#8221;, lembra o almirante Ibsen de Gusm\u00e3o C\u00e2mara, antigo militante da conserva\u00e7\u00e3o marinha e amigo de Nogueira-Neto. E o almirante n\u00e3o exagera. Al\u00e9m da micro equipe que o ex-secret\u00e1rio especial de Meio Ambiente tinha, o or\u00e7amento para a pasta n\u00e3o chegava a 1% dos recursos do Minist\u00e9rio do Interior, ao qual pertencia a Sema. &#8220;Nossa car\u00eancia de recursos \u00e9 aguda&#8221;, escreveu o ex-secret\u00e1rio \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O jeito foi tentar ecoar a import\u00e2ncia da secretaria e ir cavando apoio, o que Nogueira-Neto fazia como ningu\u00e9m. Em pleno governo militar, ele n\u00e3o abra\u00e7ou partidos ou ideologias. A \u00fanica coisa que abra\u00e7ava era a causa ambiental. &#8220;Fui duas vezes convidado a me filiar ao partido do governo e rejeitei. Eu procurava fazer servi\u00e7o p\u00fablico, para todos&#8221;, diz, o que confirma Ibsen C\u00e2mara: &#8220;O Paulo nunca se meteu em pol\u00edtica. Ele administrava a Sema de maneira puramente t\u00e9cnica, profissional. Isso fez com que atravessasse v\u00e1rias anos&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os frutos<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foram 12 os anos \u00e0 frente do \u00f3rg\u00e3o que mais tarde se tornou Ibama e foi embri\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. Tempo suficiente para que sua estrutura engordasse e Nogueira-Neto deixasse um legado generoso. &#8220;Ele deixou uma legisla\u00e7\u00e3o ambiental avan\u00e7ada, come\u00e7ou com os licenciamentos ambientais e criou as primeiras Esta\u00e7\u00f5es Ecol\u00f3gicas e \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APAs)&#8221;, recorda o engenheiro agr\u00f4nomo Alceo Magnanini, que \u00e0 \u00e9poca era diretor do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), subordinado ao Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Volta e meia os dois se encontravam para trocar palpites sobre a cria\u00e7\u00e3o de novas \u00e1reas protegidas. Um total de 3,2 milh\u00f5es de hectares viraram unidades de conserva\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o do ex-secret\u00e1rio. &#8220;A presen\u00e7a de Paulo possibilitou que a \u00e1rea ambiental sa\u00edsse do marasmo&#8221;, afirma Magnanini.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Quando deixou a Sema, o caminho de Nogueira-Neto parecia estar s\u00f3 come\u00e7ando. Al\u00e9m de ter ajudado a fundar o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) e outros conselhos, ele passou por ONGs, criou funda\u00e7\u00f5es, ganhou pr\u00eamios e homenagens e representou, com mais um membro, a Am\u00e9rica Latina na Comiss\u00e3o Brundtland, o famoso grupo internacional de onde saiu a express\u00e3o &#8220;desenvolvimento sustent\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>De 1984 a 1987, ele rodou o mundo com os outros 22 membros da comiss\u00e3o, em debates amplos e complexos sobre os problemas ambientais do mundo inteiro. Em seus di\u00e1rios, conta como discuss\u00f5es atuais j\u00e1 eram levantadas naquela \u00e9poca, como as conseq\u00fc\u00eancias do desmatamento: &#8220;Desaparecendo as \u00e1rvores, rompe-se o ciclo hidrol\u00f3gico (evapora\u00e7\u00e3o, chuvas etc.) e a agricultura \u00e9 muito atingida&#8221;, escreveu, em 1985.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os &#8216;causos&#8217; tamb\u00e9m entravam nas anota\u00e7\u00f5es. Como na ocasi\u00e3o em que a comiss\u00e3o foi visitar a Amaz\u00f4nia poucos dias depois que o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, havia feito um discurso dizendo ser pura bobagem proteger a floresta da regi\u00e3o, que &#8220;n\u00e3o acabaria nem com mil anos&#8221;. Irritados, alguns membros se recusaram a ir ao jantar oficial em que estaria o governador. Nogueira-Neto teve que atacar de diplomata e conseguiu acalmar os \u00e2nimos: &#8220;Mantive a conversa\u00e7\u00e3o entre a doutora Brundtland, eu e o governador a mais animada poss\u00edvel para criar uma boa atmosfera&#8221;, escreveu. E o jantar terminou em paz.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim, equilibrado e conciliador, Nogueira-Neto foi atravessando, um a um, os obst\u00e1culos que a carreira ambiental lhe jogava na frente. Cansava, mostram seus registros. Mas seguia com a miss\u00e3o. &#8220;\u00c9 preciso preparar o terreno para o dia em que a conserva\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o seja relegada ao \u00faltimo plano na organiza\u00e7\u00e3o administrativa do pa\u00eds&#8221;, tomou nota, em 1972.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Quase 40 anos mais tarde, ele diz que valeu a pena. &#8220;Naquela \u00e9poca, os interessados em meio ambiente cabiam numa Kombi. Hoje j\u00e1 h\u00e1 uma consci\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 brasileira mas mundial&#8221;, acredita. &#8220;Antes n\u00f3s \u00edamos \u00e0 imprensa dar as not\u00edcias da \u00e1rea. Hoje, olha s\u00f3, foi voc\u00ea quem me ligou para isso&#8221;.<\/p>\n<p>(Bernardo C\u00e2mara)<\/p>\n<p>(O Eco, 25\/1)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cadernos do criador do primeiro \u00f3rg\u00e3o ambiental federal do Brasil, na d\u00e9cada de 1970, s\u00e3o transformados em livro Numa noite de 2003, uma pilha de cadernos azuis amarrados por cord\u00f5es de algod\u00e3o parou no colo da advogada Fl\u00e1via Frangetto. &#8220;Quero que voc\u00ea me ajude a transform\u00e1-los em livro&#8221;, pediu Paulo Nogueira-Neto, dono dos pap\u00e9is amarelados &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=2394\"> <span class=\"screen-reader-text\">Di\u00e1rios do pioneiro ambiental Paulo Nogueira Neto<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[1320,185,1319],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2394"}],"collection":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2394"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2394\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2396,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2394\/revisions\/2396"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}