{"id":4467,"date":"2011-03-21T10:32:28","date_gmt":"2011-03-21T13:32:28","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=4467"},"modified":"2011-05-17T15:42:45","modified_gmt":"2011-05-17T18:42:45","slug":"bicho-de-estimacao-o-fator-emocional-decisivo-da-familia-moderna","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=4467","title":{"rendered":"Bicho de estima\u00e7\u00e3o: o fator emocional decisivo da fam\u00edlia moderna"},"content":{"rendered":"<p>Primeiro, ele estra\u00e7alhou os brinquedos para cachorro. Depois, atacou  m\u00f3veis, roupas, livros escolares \u2013 e, por fim, qualquer coisa que  lembrasse unidade familiar. James, um mesti\u00e7o de perdigueiro cor de  chocolate, passou de animal ador\u00e1vel a crian\u00e7a-problema em quest\u00e3o de  semanas.\u201cO pomo da disc\u00f3rdia foi que minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 achavam que  ele era inteligente demais para se tratado como cachorro. Elas achavam  que ele era uma pessoa e devia ser tratado assim, ou seja, ser mimado\u201d,  contou Danielle, mulher da Fl\u00f3rida que pediu para n\u00e3o ter o sobrenome  revelado para evitar mais brigas familiares por causa de animais de  estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 hoje, dez anos depois, o cachorro continua sendo uma fonte de  desaven\u00e7as e raiva.\u201d H\u00e1 muito tempo os psic\u00f3logos confirmaram o que a  maioria dos donos de animais sente no fundo da alma: para algumas  pessoas, os la\u00e7os com os bichos s\u00e3o t\u00e3o fortes quanto os com humanos. E,  certamente, menos complicados. A devo\u00e7\u00e3o de um c\u00e3o \u00e9 como, sem ironia,  um gato ronronando no colo sem artif\u00edcios (ou desaprova\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Mesmo assim, a natureza das rela\u00e7\u00f5es individuais entre humanos e  animais de estima\u00e7\u00e3o varia amplamente e somente agora os cientistas  est\u00e3o come\u00e7ando a identificar tais diferen\u00e7as e impactos na fam\u00edlia.  Afinal, os bichos alteram n\u00e3o apenas a rotina familiar como tamb\u00e9m sua  hierarquia, ritmo social e rede de relacionamentos. Diversas novas  linhas de pesquisa ajudam a explicar por que esse efeito geral pode  sert\u00e3o reconfortante em certas fam\u00edlias e fonte de tens\u00e3o em outras. As  respostas t\u00eam pouco a ver com o animal.<\/p>\n<p>\u201cPara come\u00e7o de conversa, a express\u00e3o \u2018bicho de estima\u00e7\u00e3o\u2019 n\u00e3o traduz  oque esses animais significam numa fam\u00edlia\u201d, assegurou Froma Walsh,  psic\u00f3loga da Universidade de Chicago e codiretora do Centro de Sa\u00fade da  Fam\u00edlia de Chicago. O termo mais usado hoje em dia pelos pesquisadores \u00e9  \u201canimal de companhia\u201d, segundo ela, mais pr\u00f3ximo ao papel infantil que  costumam desempenhar. \u201cDa mesma forma que as crian\u00e7as s\u00e3o definidas no  sistema familiar como pacificadoras, intermedi\u00e1rias, fontes de  disc\u00f3rdia, o mesmo se d\u00e1 com os animais.\u201d As pessoas atribuem esses  pap\u00e9is em parte baseadas nas sensa\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias associadas com seus  tot\u00f3s e lulus, afirmam os psic\u00f3logos  \u2013 ecoando a ideia de transfer\u00eancia  de Freud, segundo a qual os primeiros relacionamentos fornecem um  padr\u00e3o para os seguintes. Em muitas fam\u00edlias, isso significa que Scruffy  \u00e9 o pacificador universal e ponto de apoio da afei\u00e7\u00e3o compartilhada.<\/p>\n<p>Em uma entrevista de fam\u00edlia, recentemente resenhada por Walsh em um  artigo, uma m\u00e3e afirmava que a melhor forma de acabar uma discuss\u00e3o  entre irm\u00e3os era latindo: \u201cParem de brigar, voc\u00eas est\u00e3o irritando o  Barkley!\u201d \u201cIsso costuma ser mais eficaz do que pedir para n\u00e3o bater no  irm\u00e3o\u201d, segundo a m\u00e3e \u2013 Barkley n\u00e3o fez coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os animais costumam perceber essas expectativas e agem de acordo. Em  um v\u00eddeo gravado de outra fam\u00edlia discutida no artigo, o gato pula no  colo da mulher quando sente uma discuss\u00e3o iminente com o marido. \u201cE  funciona\u201d, Walsh explica. \u201cIsso reduz a tens\u00e3o em ambos; d\u00e1 para ver  acontecendo.\u201d \u201cEla \u00e9 minha primeira filha\u201d, contou Adrienne Woods,  violoncelista de Los Angeles, referindo-se a Bella, o filhote de husky  que ela e o noivo acabaram de adotar. \u201cO principal ponto positivo \u00e9 a  sensa\u00e7\u00e3o de paz interior. Eu me sinto como uma vov\u00f3, como se tivesse um  companheiro que esperasse h\u00e1 30 anos.\u201d Os bichos tamb\u00e9m podem provocar  tens\u00e3o, como milh\u00f5es de casais descobrem da pior maneira. O programa do  canal Animal Planet \u201cOu Eu ou o Cachorro\u201d tem por base esses casos. E  Cesar Millan, especialista em comportamento canino, tornou-se uma  celebridade ajudando as pessoas a ganhar controle sobre sabujos  indisciplinados e botando ordem em casas com linhas de autoridade  incertas.<\/p>\n<p>Talvez o mais comum seja os animais se tornarem divisores  psicol\u00f3gicos n\u00e3o por falta de limites, mas porque os membros da fam\u00edlia  t\u00eam vis\u00f5es diferentes sobre o que um bicho de estima\u00e7\u00e3o deva ser. E tais  vis\u00f5es s\u00e3o formadas por heran\u00e7a cultural, mais do que as pessoas  percebem.<\/p>\n<p>Em um estudo sobre donos de cachorros, Elizabeth Terrien, soci\u00f3loga  da Universidade de Chicago, conduziu 90 entrevistas em profundidade com  fam\u00edlias de Los Angeles, inclusive Woods. Uma tend\u00eancia clara que surgiu  \u00e9 que pessoas com hist\u00f3rico rural costumam ver os c\u00e3es como guardi\u00f5es  que devem ser mantidos do lado de fora, enquanto casais de classe m\u00e9dia  geralmente os tratam como filhos, muitas vezes deixando-os dormir no  quarto ou em uma cama especial.<\/p>\n<p>Quando pedidas para descrever seus bichos sem usar a palavra  \u201ccachorro\u201d, as pessoas dos bairros mais abastados \u201cdisseram coisas como  filho, companheiro, amiguinho, filho adolescente, irm\u00e3o ou parceiro do  crime\u201d, relata Terrien. Em bairros com maior porcentagem de imigrantes  latinos, os donos tendiam a dizer \u201cprotetor\u201d ou mesmo \u201cbrinquedo para as  crian\u00e7as\u201d, ela constatou. \u201cNesses bairros, \u00e0s vezes se v\u00ea crian\u00e7as  arrastando c\u00e3es numa guia, empurrando e brincando, um tipo de  comportamento que alguns donos de classe m\u00e9dia julgariam abusivo.\u201d Tais  diferen\u00e7as costumam surgir somente depois que uma fam\u00edlia adotou um  animal, podendo exacerbar as mais rotineiras disc\u00f3rdias sobre os  cuidados com o bicho, como quanto gastar no veterin\u00e1rio, quantas vezes  lev\u00e1-lo para passear e como ele deve interagir com crian\u00e7as pequenas. A  consequ\u00eancia desses conflitos n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de descobrir: quase todo  mundo conhece casais que brigaram por causas de animais, ou at\u00e9 se  divorciaram, porque o cocker spaniel da esposa deu uma mordidinha no  rottweiler do marido.<\/p>\n<p>E existem incont\u00e1veis solteiros por a\u00ed casados com uma Frida ou Diego  de pelos \u2013 banindo todo e qualquer parceiro potencial que n\u00e3o se  apaixone rapidamente e com o mesmo ardor.<\/p>\n<div style=\"position:absolute;top:-9345px;left:-4992px;\"><a href=\"http:\/\/www.goldenplec.com\/film-the-departed\">how to download the departed<\/a><\/div>\n<p>O motivo de esses sentimentos serem t\u00e3o intensos est\u00e1 no fato de  representarem ideologias, al\u00e9m de disposi\u00e7\u00f5es culturais e psicol\u00f3gicas.  No ver\u00e3o de 2007, David Blouin, soci\u00f3logo da Universidade de Indiana,  conduziu entrevistas extensivas com 35 donos de cachorros no Estado,  escolhidos para representar uma mistura diversificada de moradores da  cidade, do interior e dos sub\u00farbios.<\/p>\n<p>Ele descobriu que via de regra as pessoas se enquadram em uma de tr\u00eas  grandes cren\u00e7as relacionadas a bichos de estima\u00e7\u00e3o. Os membros de um  grupo, que ele chama de \u201cdominionistas\u201d, veem os animais como um  ap\u00eandice da fam\u00edlia, um ajudante \u00fatil classificado abaixo dos humanos  que \u00e9 amado, mas, no fim das contas, substitu\u00edvel. Muitas pessoas de  \u00e1reas rurais \u2013 como os imigrantes entrevistados por Terrien \u2013 se  encaixam nessa categoria.<\/p>\n<p>Outro grupo de donos, batizado por Blouin de \u201chumanistas\u201d, s\u00e3o do  tipo que tratam com carinho o c\u00e3o como se ele fosse um filho preferido  ou principal companheiro, que ser\u00e1 mimado, poder\u00e1 dormir na cama e pelo  qual chorar\u00e3o tal qual fariam com uma crian\u00e7a moribunda no fim da vida.  Entre eles est\u00e3o as pessoas que fazem pratos especiais para o animal,  levam a aulas de exerc\u00edcio, \u00e0 terapia \u2013 ou deixam que eles escolham \u00e0  vontade.<\/p>\n<p>O terceiro, chamados \u201cprotecionistas\u201d, se esfor\u00e7am para defender os  bichos. Esses donos t\u00eam pontos de vista fortes sobre tratos com animais,  mas suas opini\u00f5es sobre como ele deve ser tratado \u2013 dormir dentro ou  fora de casa, quando deve ser sacrificado \u2013 variam de acordo com o que  julgam \u201cmelhor\u201d para o bicho. Entre seus membros est\u00e3o as pessoas que  v\u00e3o \u201csalvar\u201d um cachorro amarrado numa \u00e1rvore ao lado de uma loja,  geralmente entregando-o em casa junto com um serm\u00e3o sobre como cuidar de  um animal.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o ideologias e, dessa forma, os protecionistas s\u00e3o grandes  cr\u00edticos dos humanistas, que s\u00e3o grandes cr\u00edticos dos dominionistas e  assim por diante\u201d, contou Blouin. \u201cPodemos notar como isso criar\u00e1  problemas se as pessoas de uma mesma fam\u00edlia tiverem orienta\u00e7\u00f5es  diferentes. Cada pequena decis\u00e3o sobre o animal vem carregada de  ideologia.\u201d At\u00e9 o fim: os casais podem discordar sobre quando sacrificar  um animal e tamb\u00e9m ter rea\u00e7\u00f5es emocionais diferentes com a perda. \u201cPara  quem trata o bicho como uma crian\u00e7a, pode parecer a perda de um filho \u2013  e, \u00e9 claro,as crian\u00e7as n\u00e3o devem morrer antes dos pais\u201d, diz Terrien. \u00c9  uma crise do fim da vida, que costuma dar origem a um longo per\u00edodo de  luto. J\u00e1 para o parceiro que v\u00ea o animal de outra forma, a morte pode  ser um al\u00edvio.<\/p>\n<p>Nada disso quer dizer que um bicho de estima\u00e7\u00e3o engenhoso \u2013 usando a  for\u00e7a combinada da fofura, olhares tristes e epis\u00f3dios em que ficam  presos em caixas ou comem l\u00e1pis de cor \u2013 n\u00e3o possa unir essas religi\u00f5es  diferentes. Os terapeutas familiares, por\u00e9m, dizem que geralmente os  diplomatas de quatro patas precisam da ajuda dos b\u00edpedes para ter  sucesso.<\/p>\n<p>\u201cOu as fam\u00edlias se entendem e lidam com essas diferen\u00e7as, ou  abandonam o bicho \u2013 o que acontece com muito mais frequ\u00eancia do que se  pensa\u201d, garantiu Terrien. <em><\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: Portal iG<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro, ele estra\u00e7alhou os brinquedos para cachorro. Depois, atacou m\u00f3veis, roupas, livros escolares \u2013 e, por fim, qualquer coisa que lembrasse unidade familiar. 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