{"id":5886,"date":"2011-05-17T10:14:06","date_gmt":"2011-05-17T13:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=5886"},"modified":"2011-05-17T10:14:06","modified_gmt":"2011-05-17T13:14:06","slug":"o-futuro-da-energia-nuclear","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=5886","title":{"rendered":"O futuro da energia nuclear"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Verdana; font-size: x-small;\">Artigo de Jos\u00e9 Goldemberg publicado no Estado de S\u00e3o Paulo de\u00a0ontem (16).<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p>Existem tecnologias que resolvem problemas importantes e vieram para ficar. Outras atravessam um &#8220;per\u00edodo de ouro&#8221;, perdem import\u00e2ncia ou at\u00e9 desaparecem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Autom\u00f3veis, por exemplo, desenvolvidos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, mudaram a face da civiliza\u00e7\u00e3o como a conhecemos. E mesmo que as reservas mundiais de petr\u00f3leo se esgotem, solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas v\u00e3o ser encontradas para mant\u00ea-los circulando.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Outras tecnologias promissoras enfrentaram problemas e foram abandonadas. Um bom exemplo \u00e9 o dos zepelins, enormes bal\u00f5es cheios de hidrog\u00eanio que abriram caminho para viagens a\u00e9reas intercontinentais na d\u00e9cada de 1930, \u00e9poca em que a avia\u00e7\u00e3o comercial ainda engatinhava. Mas bastou o acidente com o Hindenburg, zepelim alem\u00e3o que se incendiou em Nova Jersey (EUA), em 1937, para selar o destino dessa tecnologia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A energia nuclear parece atravessar um desses per\u00edodos cr\u00edticos: ela teve uma &#8220;\u00e9poca de ouro&#8221; entre 1970 e 1980, quando entraram em funcionamento cerca de 30 novos reatores nucleares por ano. Ap\u00f3s o acidente nuclear de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979, e em Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, ent\u00e3o parte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1986, o entusiasmo por essa tecnologia diminuiu muito e desde ent\u00e3o apenas dois ou tr\u00eas reatores entraram em funcionamento por ano. Houve uma estagna\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do uso dessa energia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As causas dessa estagna\u00e7\u00e3o s\u00e3o complexas: por um lado, a resist\u00eancia do p\u00fablico, preocupado com os riscos da energia nuclear; e, por outro, raz\u00f5es mais pragm\u00e1ticas, como o seu custo elevado. Apesar desses problemas, a produ\u00e7\u00e3o de energia nuclear n\u00e3o resulta em emiss\u00f5es de gases respons\u00e1veis pelo aquecimento da Terra, que \u00e9 o caso quando se produz energia el\u00e9trica com combust\u00edveis f\u00f3sseis, como carv\u00e3o ou g\u00e1s natural. As preocupa\u00e7\u00f5es com o efeito estufa levaram v\u00e1rios ambientalistas a apoiar uma &#8220;renascen\u00e7a nuclear&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas eis que acontece o desastre de Fukushima, com gravidade compar\u00e1vel \u00e0 de Chernobyl, afetando diretamente centenas de milhares de pessoas e espalhando inquieta\u00e7\u00f5es sobre o efeito da radia\u00e7\u00e3o nuclear numa vasta \u00e1rea do Jap\u00e3o e de pa\u00edses vizinhos. O setor nuclear tem tentado minimizar a gravidade do acidente no Jap\u00e3o, atribuindo-o a eventos rar\u00edssimos, como um terremoto de alta intensidade seguido por tsunami, que dificilmente ocorreriam em outros locais. Essa \u00e9 uma estrat\u00e9gia equivocada, que pode satisfazer engenheiros nucleares, mas n\u00e3o os setores mais esclarecidos da popula\u00e7\u00e3o e governos de muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Reatores nucleares cont\u00eam dentro deles uma enorme quantidade de radioatividade e o problema \u00e9 sempre o de evitar que ela se espalhe, como se verificou em Chernobyl. Sucede que n\u00e3o \u00e9 preciso um terremoto e um tsunami para que isso aconte\u00e7a. Bastam falhas mec\u00e2nicas e erros humanos, como ocorreu em Three Mile Island. Seguran\u00e7a total n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel melhorar o desempenho dos reatores e torn\u00e1-los mais seguros, mas isso acarretar\u00e1 custos mais elevados, o que tornar\u00e1 a energia nuclear ainda menos competitiva do que j\u00e1 \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a outras formas de gera\u00e7\u00e3o de eletricidade. Al\u00e9m disso, a grande maioria dos reatores nucleares atualmente em uso come\u00e7ou a funcionar 30 ou 40 anos atr\u00e1s e for\u00e7osamente eles ter\u00e3o de ser &#8220;aposentados&#8221; em breve &#8211; os de Fukushima funcionam h\u00e1 mais de 40 anos. A redu\u00e7\u00e3o da vida \u00fatil dos reatores diminuir\u00e1, certamente, sua competitividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mais ainda, ser\u00e1 preciso resolver de vez o problema do armazenamento permanente dos res\u00edduos nucleares, que se arrasta h\u00e1 d\u00e9cadas. At\u00e9 hoje os elementos combust\u00edveis usados, que s\u00e3o altamente radiativos, s\u00e3o depositados em piscinas situadas ao lado dos reatores &#8211; e um dos problemas em Fukushima foi a radioatividade liberada quando o n\u00edvel da \u00e1gua da piscina baixou. S\u00f3 nos Estados Unidos existem essas piscinas ao lado dos 104 reatores l\u00e1 existentes. Em Angra dos Reis a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Finalmente, h\u00e1 o problema de quem pagar\u00e1 pelas compensa\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o atingida pelos acidentes nucleares. Os limites fixados pelos governos para cobrir esses danos s\u00e3o atualmente muito baixo se dever\u00e3o aumentar muito. Como resultado dessas inquieta\u00e7\u00f5es e incertezas, est\u00e1 em curso uma reavalia\u00e7\u00e3o, em grande n\u00famero de pa\u00edses, sobre o futuro da &#8220;renascen\u00e7a nuclear&#8221; e da sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria op\u00e7\u00e3o do uso de reatores nucleares para a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade. Alguns pa\u00edses j\u00e1 adotaram o que se chama de &#8220;estrat\u00e9gia de sa\u00edda&#8221;, pela qual novos reatores n\u00e3o ser\u00e3o constru\u00eddos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A B\u00e9lgica e a Su\u00ed\u00e7a j\u00e1 adotaram essa pol\u00edtica, bem como o Chile e a Alemanha. A China suspendeu a autoriza\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de mais usinas at\u00e9 que seja feito um reestudo completo das suas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. Nos Estados Unidos, acaba de ser abandonado o projeto de constru\u00e7\u00e3o de dois reatores no Estado do Texas, os primeiros a serem iniciados ap\u00f3s mais de 30 nos de morat\u00f3ria nuclear. Outros pa\u00edses, provavelmente, seguir\u00e3o o mesmo caminho, sobretudo os que disp\u00f5em de outras op\u00e7\u00f5es mais econ\u00f4micas e menos perigosas para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esse \u00e9, claramente, o caso do Brasil, onde existe um amplo potencial hidrel\u00e9trico a explorar, bem como a cogera\u00e7\u00e3o de eletricidade nas usinas de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool, e tamb\u00e9m a energia e\u00f3lica. A Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica reduziu sua proje\u00e7\u00e3o de novos reatores nucleares no mundo para 2035 em 50%. Alguns pa\u00edses, como a Fran\u00e7a, onde quase 75% da eletricidade t\u00eam origem nuclear, e at\u00e9 mesmo o Jap\u00e3o, que n\u00e3o tem muitos recursos naturais, aumentar\u00e3o o uso do g\u00e1s, o que, consequentemente, aumentar\u00e1 as emiss\u00f5es de carbono. Haver\u00e1, nesse caso, escolhas dif\u00edceis.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas o aquecimento global ocorrer\u00e1 num horizonte de tempo longo e prevenir novos acidentes nucleares \u00e9 uma tarefa urgente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fonte: Jos\u00e9 Goldemberg \u00e9 professor da USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Jos\u00e9 Goldemberg publicado no Estado de S\u00e3o Paulo de\u00a0ontem (16). Existem tecnologias que resolvem problemas importantes e vieram para ficar. 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