{"id":6417,"date":"2011-05-24T10:20:45","date_gmt":"2011-05-24T13:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=6417"},"modified":"2011-05-24T10:20:45","modified_gmt":"2011-05-24T13:20:45","slug":"a-necessidade-urgente-de-mais-investimentos-em-ciencia-educacao-e-saude-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=6417","title":{"rendered":"A necessidade urgente de mais investimentos em ci\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Verdana; font-size: x-small;\">Artigo do professor Claudio Guedes Salgado, da Universidade Federal do Par\u00e1, enviado pelo ao autor ao Jornal da Ci\u00eancia Email.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p>Aqui estou eu em Oriximin\u00e1, Oeste do estado do Par\u00e1, no escrit\u00f3rio da casa do meu amigo Domingos Wanderley Pican\u00e7o Diniz, ap\u00f3s a vista para o rio Trombetas desaparecer com o in\u00edcio da noite, com uma conex\u00e3o lenta (n\u00e3o, eu n\u00e3o estou falando de 300K, estou falando lentid\u00e3o tipo conex\u00e3o discada, se \u00e9 que voc\u00eas ainda lembram o que \u00e9 isso), buscando inspira\u00e7\u00e3o para escrever um artigo sobre o que vi por aqui durante um trabalho de campo com hansen\u00edase esta semana, quando recebi a edi\u00e7\u00e3o 4261 do <em>Jornal da Ci\u00eancia<\/em>, com duas mat\u00e9rias conflitantes, mas apropriadamente complementares.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A primeira com a ONU criticando o modelo de gest\u00e3o das unidades de conserva\u00e7\u00e3o do Brasil, dizendo que ficamos atr\u00e1s de pa\u00edses mais pobres e menores nos quesitos funcion\u00e1rios e or\u00e7amentos por hectare, publicada no Correio Braziliense. Temos menos funcion\u00e1rios, e menos or\u00e7amento que outros pa\u00edses mais pobres!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A segunda, assinada pela assessoria de comunica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia, descrevendo as a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo empreendidas para o combate ao desmatamento na Amaz\u00f4nia, que incluem sat\u00e9lites, avalia\u00e7\u00f5es, relat\u00f3rios e reuni\u00f5es semanais, al\u00e9m da instala\u00e7\u00e3o de um gabinete de crise e do deslocamento de mais agentes de fiscaliza\u00e7\u00e3o a locais com maior desmatamento, como foi o caso de 480 Km\u00b2 desmatados no Mato Grosso durante os meses de mar\u00e7o e abril, considerado at\u00edpico.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como sou apenas m\u00e9dico, nascido, criado e vivido em Bel\u00e9m do Par\u00e1, n\u00e3o vou me ater a fazer considera\u00e7\u00f5es mais profundas sobre o assunto, pois seria inconseq\u00fcente de minha parte. Mas preciso dizer que 593 Km\u00b2 de desmatamento na Amaz\u00f4nia em dois meses \u00e9 muito! N\u00f3s, brasileiros, precisamos apenas de 20 meses para desmatar 5% do territ\u00f3rio de Portugal. Agora lembrei de uma propaganda do r\u00fagbi no Brasil, dizendo que enquanto a Argentina est\u00e1 &#8220;estagnada&#8221;, a nossa situa\u00e7\u00e3o melhora em um percentual enorme. Claro, o nosso pais vizinho tem a melhor sele\u00e7\u00e3o destas bandas do planeta, e n\u00e3o h\u00e1 como subir no ranking. Temos que come\u00e7ar a medir no positivo, desmatamos 593 Km\u00b2, e n\u00e3o no negativo, dizendo que diminuiu alguns pontos percentuais em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas do ano passado, ou coisa que o valha, como se faz com a infla\u00e7\u00e3o ou com a bolsa de valores, que n\u00e3o s\u00e3o bens finitos, como \u00e9 a Amaz\u00f4nia, pelo menos na atual situa\u00e7\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o de uma Amaz\u00f4nia sustent\u00e1vel ainda \u00e9 apenas uma no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas voltemos a hansen\u00edase. Contando com todo o apoio do munic\u00edpio de Oriximin\u00e1, e do campus em transi\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) para a Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa), coordenado pelo professor Domingos Diniz, que citei acima, voltamos a este munic\u00edpio 18 meses ap\u00f3s termos vindo aqui, eu e uma equipe de mais sete pesquisadores, por um projeto financiado pelo \u00faltimo edital de doen\u00e7as negligenciadas do CNPq, quando visitamos escolas e casas de pacientes, coletando plasma para analisar a presen\u00e7a de anticorpos IgM anti-PGL-1, um glicolip\u00eddeo velho conhecido daqueles que trabalham com hansen\u00edase, e que tem uma correla\u00e7\u00e3o com a baciloscopia do raspado d\u00e9rmico, ou seja, quanto mais bacilos o sujeito tem, maior \u00e9 a titula\u00e7\u00e3o desta IgM.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Para a nossa surpresa, encontramos 45% da popula\u00e7\u00e3o clinicamente saud\u00e1vel positiva para estes anticorpos, indicando uma dissemina\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do bacilo na comunidade. Vejam que isto, a princ\u00edpio n\u00e3o significa doen\u00e7a, e sim contato com o bacilo. Pois bem, voltamos agora ao munic\u00edpio e fomos examinar estas pessoas. Como manda o manual, fizemos dois grupos, um de positivos e outro de negativos. Encontramos 26 (vinte e seis!) casos novos entre escolares e comunicantes de indiv\u00edduos positivos, e somente 4 (quatro) entre os negativos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o Oeste do Par\u00e1 sempre foi considerada de baixa endemicidade, com poucos casos. Por isso mesmo n\u00f3s come\u00e7amos o projeto por aqui. Chegamos no munic\u00edpio com 2 (dois) casos multibacilares registrados no sistema de notifica\u00e7\u00e3o (Sinam), e estamos saindo com 32, um aumento de 15x nos n\u00fameros oficiais. Custa-me acreditar que os munic\u00edpios vizinhos, Amaz\u00f4nicos, fronteiri\u00e7os ou n\u00e3o, tenham n\u00fameros diferentes. Na realidade, j\u00e1 temos n\u00fameros piores em outros munic\u00edpios do Estado do Par\u00e1. Mesmo como uma estrutura razo\u00e1vel de sa\u00fade, faltam m\u00e9dicos e todos os outros profissionais de sa\u00fade, como nos outros munic\u00edpios da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Temos um bom sistema de sa\u00fade na Amaz\u00f4nia? Temos boas faculdades e universidades no Brasil, formando profissionais capacitados para trabalhar na Amaz\u00f4nia? Dizem que para a quantidade de brasileiros que temos hoje, j\u00e1 formamos m\u00e9dicos em n\u00famero suficiente&#8230; Que percentagem destes m\u00e9dicos rec\u00e9m-formados \u00e9 estimulada a trabalhar na Amaz\u00f4nia? O pa\u00eds est\u00e1 penso, e cabe ao poder p\u00fablico balancear o sistema! Isso para n\u00e3o entrar no m\u00e9rito da qualidade do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de um gabinete de crise, relat\u00f3rios infind\u00e1veis e reuni\u00f5es intermin\u00e1veis para enxergar o \u00f3bvio. Os problemas s\u00e3o os mesmos, h\u00e1 s\u00e9culos! Carlos Chagas e Oswaldo Cruz escreveram muito bem sobre esta situa\u00e7\u00e3o. Temos que agir, com urg\u00eancia, na floresta e no homem que vive por aqui.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Defendi em reuni\u00e3o do comit\u00ea Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas II da Capes no ano de 2010, entre outras medidas, bolsas perenes, de longa dura\u00e7\u00e3o, associadas a fomento por 10 anos para aqueles que se disponham a trabalhar com ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Agindo desta forma, a fixa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra qualificada pode ser acelerada. Mesmo nossos alunos de Bel\u00e9m t\u00eam dificuldade para decidir em ir para o interior, e l\u00e1 seguir carreira. H\u00e1 muito receio do isolamento e da falta de fomento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nesse sentido, esta cidade nos ensina. Temos aqui mais de 300 bolsistas Pibic junior da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Par\u00e1 (Fapespa), funcionando em um sistema in\u00e9dito de tutoria com os alunos do curso de biologia, que se reportam a professores que v\u00eam de Bel\u00e9m, Santar\u00e9m, Manaus ou outras cidades, pendurados em apenas &#8211; pasmem &#8211; dois professores efetivos, do quadro da institui\u00e7\u00e3o, em um programa conhecido como PAI &#8211; Programa de A\u00e7\u00e3o Interdisciplinar. Ali\u00e1s, este programa foi visto de perto pela professora Helena Nader, atual presidente da SBPC, quando aqui esteve na SBPC regional de 2008. A manuten\u00e7\u00e3o do programa, a forma\u00e7\u00e3o de novas turmas de bi\u00f3logos para um sistema que est\u00e1 precisando deles, a abertura de novas vagas docentes e o fortalecimento deste campus podem mudar o perfil deste munic\u00edpio em menos de 10 anos, e servir como modelo para outros munic\u00edpios desta vasta regi\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Claudio Guedes Salgado \u00e9 professor da Universidade Federal do Par\u00e1, coordenador do Laborat\u00f3rio de Dermato-Imunologia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neuroci\u00eancias e Biologia Celular do Instituto de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da UFPA.<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da Ci\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo do professor Claudio Guedes Salgado, da Universidade Federal do Par\u00e1, enviado pelo ao autor ao Jornal da Ci\u00eancia Email. 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