{"id":6677,"date":"2011-06-06T10:15:48","date_gmt":"2011-06-06T13:15:48","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=6677"},"modified":"2011-06-06T10:15:48","modified_gmt":"2011-06-06T13:15:48","slug":"coastal-blue-carbon-ecossistemas-costeiros-vegetados-sequestro-de-carbono-e-mitigacao-das-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=6677","title":{"rendered":"&#8220;Coastal Blue Carbon&#8221; &#8211; ecossistemas costeiros vegetados, sequestro de carbono e mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Verdana; font-size: x-small;\">Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Clim\u00e1ticas &#8211; Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p>Embora a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa esteja no centro da discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o papel dos oceanos e seus ecossistemas tem sido ainda vastamente desconsiderados (Nellman et al. 2009).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Do total de carbono capturado pelos produtores prim\u00e1rios no globo por meio da fotoss\u00edntese, mais da metade \u00e9 capturado por organismos marinhos. Enquanto uma parte do carbono fixado retorna ao ambiente atrav\u00e9s da respira\u00e7\u00e3o e oxida\u00e7\u00e3o, o remanescente \u00e9 estocado na biomassa dos organismos e tamb\u00e9m nos sedimentos marinhos, contribuindo ao seq\u00fcestro de carbono.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ecossistemas marinhos costeiros &#8211; particularmente ecossistemas vegetados como manguezais, marismas e bancos de plantas submersas &#8211; cobrem menos que 0,5% do fundo marinho. Entretanto, possuem uma alta capacidade de seq\u00fcestrar carbono tanto na biomassa vegetal como nas camadas do sedimento logo abaixo, podendo ser respons\u00e1veis por mais de 50% de todo o carbono estocado nos sedimentos marinhos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entretanto, enquanto in\u00fameros esfor\u00e7os t\u00eam sido feitos para desacelerar a degrada\u00e7\u00e3o de ecossistemas terrestres, atrav\u00e9s da prote\u00e7\u00e3o de florestas tropicais como um meio para mitigar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, o papel dos ecossistemas costeiros tem sido negligenciado deste processo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Devido \u00e0s altas taxas de produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria pela biomassa, a habilidade de reter part\u00edculas em suspens\u00e3o e a alta capacidade de armazenagem de nutrientes no sedimento, ecossistemas costeiros vegetados est\u00e3o entre os maiores sumidouros de carbono do planeta e, portanto, podem ser de suma import\u00e2ncia na capta\u00e7\u00e3o dos gases de efeito estufa e para contrapor o aquecimento global. Algumas estimativas sugerem que estes sumidouros possam capturar e estocar anualmente entre 235 a 450 Teragramas (Tg) de carbono (C), o que equivale a um ter\u00e7o ou at\u00e9 metade das emiss\u00f5es globais do setor de transportes, estimadas em torno de 1.000 Tg C por ano.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o de zonas costeiras podem converter esses sumidouros naturais em grandes fontes de carbono para a atmosfera e agravar ainda mais o efeito estufa, j\u00e1 que o carbono seq\u00fcestrado ao longo de centenas ou milhares de anos, e depositado em espessas camadas do sedimento, poder\u00e1 ser liberado a m\u00e9dio e\/ou longo prazo. A magnitude destas emiss\u00f5es tornou-se aparente apenas recentemente e tais fontes ainda n\u00e3o t\u00eam sido consideradas nas contabilidades nacionais das emiss\u00f5es e nas existentes regulamenta\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Embora os n\u00fameros pare\u00e7am surpreendentes, as estimativas globais s\u00e3o grosseiras e baseadas, na grande maioria, em estudos obtidos no Hemisf\u00e9rio Norte. Portanto h\u00e1 um n\u00famero grande de incertezas cient\u00edficas e muitas defici\u00eancias de conhecimento regionais a serem preenchidas. Os fluxos de carbono ainda s\u00e3o pouco compreendidos na maioria das regi\u00f5es costeiras do globo, incluindo as taxas de fixa\u00e7\u00e3o pelos produtores prim\u00e1rios, respira\u00e7\u00e3o e consumo pela comunidade, taxas de sedimenta\u00e7\u00e3o e de exporta\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica para zonas profundas. A \u00e1rea global ocupada pela vegeta\u00e7\u00e3o costeira tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 completamente conhecida, assim como as taxas de perda destes ecossistemas, com enormes lacunas existentes em regi\u00f5es como o Sudeste Asi\u00e1tico, Am\u00e9rica do Sul e \u00c1frica, onde se situam muitos dos importantes &#8220;blue carbon hot spots&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Para discutir algumas destas quest\u00f5es cient\u00edficas e suas implica\u00e7\u00f5es ambientais e econ\u00f4micas, as organiza\u00e7\u00f5es International Oceanographic Comission (IOC-Unesco), Conservation International (CI), International Union for Conservation of Nature (IUCN) e outros parceiros est\u00e3o elaborando o programa intitulado &#8220;Coastal Blue Carbon&#8221;. Este programa planeja fornecer recomenda\u00e7\u00f5es e coordenar futuros projetos para a utiliza\u00e7\u00e3o do carbono costeiro, ou &#8220;coastal blue carbon&#8221;, como uma ferramenta de conserva\u00e7\u00e3o e manejo, de maneira a contribuir com a mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, o programa visa dar bases cient\u00edficas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento associados \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o dos ecossistemas costeiros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um das primeiras reuni\u00f5es para discutir quest\u00f5es cient\u00edficas relacionadas ao coastal blue carbon ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro de 2011 na sede da Unesco em Paris, reunindo pesquisadores de distintas regi\u00f5es do globo. Al\u00e9m das organiza\u00e7\u00f5es promotoras e das institui\u00e7\u00f5es de pesquisa, a reuni\u00e3o contou ainda com representantes da United Nation Environment Program (Unep), Global Environment Facility (GEF) e consultores ambientais e econ\u00f4micos de organiza\u00e7\u00f5es conservacionistas internacionais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esta reuni\u00e3o estabeleceu um Grupo de Trabalho para estudar e discutir, durante os pr\u00f3ximos dois anos, quest\u00f5es relativas \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o dos ecossistemas costeiros &#8211; particularmente os vegetados &#8211; aos estoques globais de carbono e aos processos de seq\u00fcestro. Reconhecendo as lacunas regionais e a necessidade de maiores estudos o Grupo prop\u00f4s, entre outras recomenda\u00e7\u00f5es, a realiza\u00e7\u00e3o de invent\u00e1rios nacionais e globais sobre os estoques de carbono e o seu potencial de seq\u00fcestro, a identifica\u00e7\u00e3o de \u00e1reas &#8220;hotspots&#8221; para conserva\u00e7\u00e3o e\/ou restaura\u00e7\u00e3o e a quantifica\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis emiss\u00f5es associadas com a degrada\u00e7\u00e3o dos ecossistemas costeiros. O Grupo ainda realizou recomenda\u00e7\u00f5es para quantificar e monitorar o estoque de carbono e seus fluxos em v\u00e1rias escalas espaciais, assim como desenvolveu &#8220;guidelines&#8221; para a conserva\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos costeiros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Estas a\u00e7\u00f5es visam, a curto e m\u00e9dio prazo, promover a conserva\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas costeiros, como uma das estrat\u00e9gias vi\u00e1veis de mitiga\u00e7\u00e3o, inserindo o &#8220;blue carbon&#8221; dentro das existentes regulamenta\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os resultados da reuni\u00e3o com as recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ser\u00e3o inseridos em relat\u00f3rio elaborado pela CI e IOC-Unesco, previsto para ser lan\u00e7ado nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Import\u00e2ncia para o Brasil &#8211; <\/strong>O Brasil det\u00e9m uma das mais extensas zonas costeiras e maiores \u00e1reas de manguezais do mundo, contendo in\u00fameros estu\u00e1rios e regi\u00f5es de pradarias de plantas submersas, popula\u00e7\u00e3o concentrada na faixa litor\u00e2nea e altas taxas de crescimento econ\u00f4mico nestas \u00e1reas. Portanto um &#8220;Hot Spot&#8221; em potencial para estudos e projetos demonstrativos dentro do tema &#8220;blue carbon&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entretanto, assim como para muitas outras regi\u00f5es do globo, h\u00e1 uma enorme car\u00eancia ou indisponibilidade de informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, dificultando a realiza\u00e7\u00e3o imediata de um invent\u00e1rio nacional de emiss\u00f5es da zona costeira. Al\u00e9m disto, o r\u00e1pido desenvolvimento da zona costeira amea\u00e7a drasticamente o restante da \u00e1rea existente e o papel destes ecossistemas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O conceito &#8220;blue carbon&#8221; &#8211; carbono capturado e estocado pelas \u00e1reas costeiras vegetadas &#8211; fornece uma nova \u00eanfase ao estudo e conserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas \u00famidas vegetadas, propondo mudan\u00e7as nos incentivos econ\u00f4micos e novos mecanismos de valora\u00e7\u00e3o destes ecossistemas. Assim como no mecanismo Reed (Reduced Emissions from Deforestation and Degradation), o pagamento pelo &#8220;blue carbon&#8221; tem um grande potencial para proteger a biodiversidade e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos destas \u00e1reas t\u00e3o amea\u00e7adas, em escala local e regional. O sucesso depende, entretanto, de um rearranjo que n\u00e3o tenha impactos negativos para a sobreviv\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es locais, as quais dependem dos recursos destes ecossistemas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Adicionalmente, o processo de constru\u00e7\u00e3o da proposta e implementa\u00e7\u00e3o futura deste mecanismo deve tomar um cuidado redobrado (assim como no Reed) para que as recomenda\u00e7\u00f5es, e o reconhecimento do papel mitigat\u00f3rio destes ecossistemas, n\u00e3o sejam utilizados como uma &#8220;bengala&#8221; dentro do mercado de carbono, justificando menores taxas de redu\u00e7\u00e3o ou &#8220;n\u00e3o redu\u00e7\u00e3o&#8221; de emiss\u00f5es por pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Margareth Copertino \u00e9 professora do Instituto de Oceanografia da Funda\u00e7\u00e3o Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) e integrante do Blue Carbon International Scientific Working Group.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es &#8211; <\/strong>Murray et al. 2010. Payments for Blue Carbon: Potential for Protecting Threatened Coastal Habitats. Nicolas Institute Policy Brief. <a href=\"http:\/\/nicholasinstitute.duke.edu\/oceans\/marinees\/blue-carbon\">http:\/\/nicholasinstitute.duke.edu\/oceans\/marinees\/blue-carbon<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nellmann et al. (Eds). 2009 Blue Carbon. A Rapid Response Assessment. United Nations Environment Programme. <a href=\"http:\/\/www.grida.no\/publications\/rr\/blue-carbon\">http:\/\/www.grida.no\/publications\/rr\/blue-carbon<\/a><\/p>\n<p>Blue Carbon International Scientific Working Group. <a href=\"http:\/\/www.marineclimatechange.com\/marineclimatechange\/bluecarbon_2.html\">http:\/\/www.marineclimatechange.com\/marineclimatechange\/bluecarbon_2.html<\/a><\/p>\n<p>Blue Carbon Portal. <a href=\"http:\/\/bluecarbonportal.org\/?p=536\">http:\/\/bluecarbonportal.org\/?p=536<\/a><\/p>\n<p>Fonte: Jornal da Ci\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo da professora Margareth Copertino publicado na Nature News e traduzido no site Zonas Clim\u00e1ticas &#8211; Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. 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