{"id":7658,"date":"2011-08-17T10:14:59","date_gmt":"2011-08-17T13:14:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=7658"},"modified":"2011-08-17T10:14:59","modified_gmt":"2011-08-17T13:14:59","slug":"amazonia-e-a-galinha-dos-ovos-de-ouro-do-agronegocio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=7658","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia \u00e9 a galinha dos ovos de ouro do agroneg\u00f3cio brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><span>Mata \u00e9 importante para manter chuvas que abastecem lavouras do Centro-Oeste; autorizar mais desmate com nova lei \u00e9 tiro no p\u00e9, afirma pesquisador.<\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio sairia ganhando se visse a Amaz\u00f4nia como &#8220;galinha dos ovos de ouro&#8221;. Se a floresta morre, as chuvas na regi\u00e3o secam, e o lucro evapora junto. \u00c9 o que pensa o bi\u00f3logo americano Thomas Lovejoy, 69, pioneiro nas pesquisas sobre a regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Quando visitou a floresta pela primeira vez, em 1965, ele era um jovem bi\u00f3logo \u00e0 procura &#8220;da maior aventura poss\u00edvel&#8221;. Lovejoy \u00e9 presidente de ci\u00eancia do Fundo Ambiental Global (GEF), diretor de Biodiversidade do Centro Heinz para a Ci\u00eancia, Economia e Ambiente, e professor da Universidade George Mason (EUA). Pai de g\u00eameas cariocas, de f\u00e9rias no Pa\u00eds, defendeu que o cuidado com a Amaz\u00f4nia seja parcelado entre v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O sr. afirma que a devasta<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o na Amaz<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong>nia pode chegar a um limite, a partir do qual o sumi<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>o da floresta seria um caminho sem volta. Estamos perto?<\/strong><\/p>\n<p>O Banco Mundial p\u00f4s US$ 1 milh\u00e3o num estudo que projeta pela primeira vez os efeitos de mudan\u00e7a do clima, queimada e desmatamento juntos. Os resultados sugerem que poderia haver um ponto de inflex\u00e3o em 20% de desmatamento [da floresta original]. Estamos bem perto, 18%. Isso significa que \u00e1reas do sul e sudeste da mata v\u00e3o come\u00e7ar a secar e se transformar em cerrado. \u00c9 como jogar uma roleta de &#8220;dieback&#8221; [colapso] na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Com o desmatamento subindo de novo, qual <\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong> o prazo para esses 20%?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o fiz c\u00e1lculos, mas n\u00e3o tomaria muito tempo. Pode ser cinco anos, se continuar assim. Claro que [a devasta\u00e7\u00e3o] traz implica\u00e7\u00f5es para os padr\u00f5es de chuva, incluindo as \u00e1reas agroindustriais de Mato Grosso e mais ao sul, at\u00e9 o norte da Argentina. O ex-governador [Eduardo] Braga [AM] costumava dizer ao ex-governador [Blairo] Maggi [MT]: &#8220;Sua soja depende da chuva no meu Estado&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Quais as consequ<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncias para a agricultura?<\/strong><\/p>\n<p>Agricultura e economia teriam menos chuvas. E elas dependem da chuva. Talvez n\u00e3o em S\u00e3o Paulo, mas mais ao oeste, com a \u00e1gua passando pelas hidrel\u00e9tricas, em projetos como Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>O sr. estuda a Amaz<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong>nia h<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong> mais de quatro d<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>cadas. Quais previs<\/strong><strong>\u00f5<\/strong><strong>es deram certo e quais passaram longe?<\/strong><\/p>\n<p>Meu primeiro artigo sobre a Amaz\u00f4nia, escrito em 1972, chamava-se &#8220;Transamaz\u00f4nica: estrada para a extin\u00e7\u00e3o?&#8221;. N\u00e3o acho que algu\u00e9m tinha a capacidade de imaginar a soma de desmatamento que ocorreu. Lembro quando as primeiras imagens de sat\u00e9lite sa\u00edram, nos anos 1980. Todos ficaram surpresos. Tamb\u00e9m houve boas surpresas. Uma \u00e9 a for\u00e7a da ci\u00eancia brasileira aplicada na Amaz\u00f4nia. A outra \u00e9 a consci\u00eancia p\u00fablica, que em geral \u00e9 bastante alta no Brasil. E tamb\u00e9m a extens\u00e3o das \u00e1reas protegidas, incluindo as demarca\u00e7\u00f5es de fronteiras ind\u00edgenas. Tudo isso junto protege 50% da Amaz\u00f4nia, o que \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p><strong>Do jeito que est<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>, o novo C<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>digo Florestal pode impedir o crescimento na produ<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o de alimentos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acho que precisemos enfraquecer o [atual] C\u00f3digo Florestal para aumentar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Brasil. No caso do gado, o uso m\u00e9dio da terra na Amaz\u00f4nia \u00e9 de uma cabe\u00e7a por hectare. Essa \u00e9 a m\u00e9dia mais baixa em qualquer lugar do mundo. \u00c9 uma quest\u00e3o de organizar a imensa capacidade da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria], um dos centros l\u00edderes de agricultura no mundo.<\/p>\n<p><strong>Comparado com os EUA, o Brasil tem legisla<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o ambiental r<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>gida. L<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>, sequer est<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o na mesa criar coisas como a reserva legal. Pode soar paternalista dizer o que deve ser feito por aqui?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 estou tentando pensar no que faz sentido para o Brasil, n\u00e3o necessariamente no que faz sentido o Brasil fazer para o resto do mundo. O atual C\u00f3digo Florestal \u00e9 um dos mais vision\u00e1rios do planeta. Nos EUA, temos de pagar o pre\u00e7o de n\u00e3o ter tido essa vis\u00e3o h\u00e1 muito tempo. E tamb\u00e9m n\u00e3o temos florestas tropicais, mais sens\u00edveis. Economia e ecologia t\u00eam a mesma raiz grega: &#8220;oikos&#8221;, que remete a &#8220;casa&#8221;. N\u00e3o existe ser no planeta que n\u00e3o afete seu ambiente sem consumo e produzir desperd\u00edcio. A quest\u00e3o da sustentabilidade est\u00e1 nos detalhes de quanto e como se faz isso.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua avalia<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o do governo Dilma no debate?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 agora, parece muito pr\u00e1tico, s\u00e9rio. Como ela vai responder a qualquer que seja o C\u00f3digo Florestal ser\u00e1, claro, um grande teste. Mas ter deixado claro que o governo Dilma n\u00e3o aprovaria a anistia [aos desmatadores] \u00e9 um sinal bem positivo. O que \u00e9 perigoso, na lei, \u00e9 a ideia de dar o poder de demarcar as reservas legais aos estados. Se voc\u00ea vai administrar a Amaz\u00f4nia como sistema, precisa ser consistente.<\/p>\n<p><strong>O sr. conhece a senadora K<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>tia Abreu, uma das vozes da bancada ruralista?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o, mas diria a ela: &#8220;Voc\u00ea precisa tomar cuidado para n\u00e3o matar a galinha dos ovos de ouro&#8221;. E o ovo de ouro \u00e9 a chuva.<\/p>\n<p><strong>O caos nas finan<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>as globais tira os holofotes da quest<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o ambiental?<\/strong><\/p>\n<p>Geralmente, quando h\u00e1 forte recess\u00e3o econ\u00f4mica, muitas das coisas que causam problemas ambientais se enfraquecem. Alguns dos motores do desmatamento, como os pre\u00e7os da soja e da carne, enfraquecem quando a demanda \u00e9 menor.<\/p>\n<p><strong>O Brasil <\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong> capaz de cuidar sozinho da Amaz<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong>nia?<\/strong><\/p>\n<p>O BNDES tem de ser cuidadoso com os projetos de infraestrutura, pois h\u00e1 todos os outros pa\u00edses [amaz\u00f4nicos]. O Brasil n\u00e3o deveria segurar a responsabilidade sozinho. A Amaz\u00f4nia \u00e9 um elemento-chave no funcionamento do mundo. \u00c9 do interesse de outros pa\u00edses ajudar o Brasil.<\/p>\n<p><strong>J<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong> chamaram o sr. at<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong> de espi<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o da CIA. H<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong> paranoia sobre um compl<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong> internacional para &#8216;roubar&#8217; a Amaz<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong>nia?<\/strong><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o tem fundamento. A pior forma de biopirataria \u00e9 destruir a floresta.<\/p>\n<p><strong>Parte da comunidade cient<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>fica minimiza o papel do homem no aquecimento global. O que o sr. acha?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 quase nenhum cientista com credibilidade que acredite nisso. Nos \u00faltimos 10 mil anos, a hist\u00f3ria clim\u00e1tica do planeta foi bem est\u00e1vel. Agora, n\u00f3s o estamos mudando. Est\u00e1 claro que 2 \u00baC a mais \u00e9 muito para a Terra.<\/p>\n<p>Folha de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mata \u00e9 importante para manter chuvas que abastecem lavouras do Centro-Oeste; autorizar mais desmate com nova lei \u00e9 tiro no p\u00e9, afirma pesquisador. O agroneg\u00f3cio sairia ganhando se visse a Amaz\u00f4nia como &#8220;galinha dos ovos de ouro&#8221;. 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