{"id":7737,"date":"2011-08-22T09:59:35","date_gmt":"2011-08-22T12:59:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=7737"},"modified":"2011-08-22T09:59:35","modified_gmt":"2011-08-22T12:59:35","slug":"na-amazonia-e-no-codigo-a-ciencia-quer-ser-ouvida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=7737","title":{"rendered":"Na Amaz\u00f4nia e no c\u00f3digo, a ci\u00eancia quer ser ouvida"},"content":{"rendered":"<p><span>Artigo de Washington Novaes no O Estado de S. Paulo desta sexta-feira (19).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que o Senado retomava nesta semana as discuss\u00f5es sobre propostas de mudan\u00e7as no C\u00f3digo Florestal, a presidente da Rep\u00fablica baixava medida provis\u00f3ria que altera (para reduzi-los) os limites de tr\u00eas parques nacionais na Amaz\u00f4nia, de modo a permitir que se executem neles obras das Hidrel\u00e9tricas de Tabajara, Santo Ant\u00f4nio e Jirau. Outros dois parques dever\u00e3o seguir o mesmo caminho, para permitir o licenciamento de mais quatro usinas (no complexo Tapaj\u00f3s).<\/p>\n<p>Reabrem-se, por esses caminhos, pol\u00eamicas e temores de que a nova legisla\u00e7\u00e3o e o novo C\u00f3digo Florestal estimulem o aumento do desmatamento, como parece j\u00e1 estar ocorrendo. Segundo o Imazon, entre agosto de 2010 e julho de 2011 a \u00e1rea desmatada no bioma amaz\u00f4nico subiu para 6.274 quil\u00f4metros quadrados. E a progress\u00e3o do desmate, segundo o Ibama de Sinop (MT), est\u00e1 sendo estimulada &#8220;pela expectativa de anistia aos desmatadores&#8221; no c\u00f3digo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o n\u00famero de \u00e1reas de soja em novos desmatamentos em Mato Grosso, Rond\u00f4nia e no Par\u00e1 quase dobrou (de 76 para 147 \u00e1reas) em rela\u00e7\u00e3o a 2010.<\/p>\n<p>Dizem muitos defensores das altera\u00e7\u00f5es no C\u00f3digo Florestal que as mudan\u00e7as s\u00e3o indispens\u00e1veis para a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio. \u00c9 uma vis\u00e3o contestada por cientistas, que apontam, s\u00f3 em Mato Grosso, 8 milh\u00f5es de hectares de pastos degradados (Estado, 20\/7). \u00c9 a opini\u00e3o tamb\u00e9m do respeitado bi\u00f3logo norte-americano Thomas Lovejoy, lembrando que na Amaz\u00f4nia a m\u00e9dia \u00e9 de uma cabe\u00e7a de gado por hectare ocupado, muitas vezes inferior \u00e0 de outros lugares, mesmo no Brasil, e pode ser melhorada, sem novos cortes. E &#8220;a Amaz\u00f4nia \u00e9 a galinha dos ovos de ouro do agroneg\u00f3cio brasileiro&#8221;, diz ele (Folha de S.Paulo, 16\/8). O desmatamento maior permitido pelas altera\u00e7\u00f5es no c\u00f3digo, afirma, &#8220;pode ser um tiro no p\u00e9 dos ruralistas&#8221;, se chegar a 20% da floresta (est\u00e1 em 18%), e talvez atinja um &#8220;ponto de inflex\u00e3o&#8221; em que o aumento da temperatura pode estender-se at\u00e9 a outras \u00e1reas no Sul-Sudeste, com muitos problemas para a agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es com a rela\u00e7\u00e3o entre desmatamento, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e &#8220;desastres naturais&#8221; est\u00e3o presentes em muitos estudos cient\u00edficos recentes. O Inpe \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es preocupadas &#8211; e tamb\u00e9m com um crescimento de 100% nas tempestades e cat\u00e1strofes &#8220;naturais&#8221; nos pr\u00f3ximos 60 anos no Sudeste, e mais ainda nas regi\u00f5es litor\u00e2neas; tr\u00eas vezes mais at\u00e9 2070 (Estado, 9\/8). J\u00e1 na Amaz\u00f4nia, especificamente, estudo conjunto do Inpe e do Escrit\u00f3rio Meteorol\u00f3gico Hadley Centre (Gr\u00e3-Bretanha) prev\u00ea forte aumento da temperatura e queda significativa na precipita\u00e7\u00e3o fluvial. Isso poder\u00e1 significar substitui\u00e7\u00e3o da floresta por outros tipos de vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 exatamente neste momento, de tantas advert\u00eancias cient\u00edficas, que vem mais um alerta da Amaz\u00f4nia: as institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas n\u00e3o est\u00e3o sendo ouvidas na quest\u00e3o do C\u00f3digo Florestal. Nem em outras, como a da espantosa decis\u00e3o de reverter uma decis\u00e3o judicial e retomar o projeto de constru\u00e7\u00e3o de um porto diante do invej\u00e1vel Encontro das \u00c1guas, em Manaus, onde os Rios Solim\u00f5es e Negro se encontram e correm separados por quil\u00f4metros &#8211; as \u00e1guas barrentas de um ao lado das \u00e1guas mais escuras do outro -, fen\u00f4meno que atrai gente do Pa\u00eds e do mundo todo.<\/p>\n<p>O perigo parecia afastado quando uma decis\u00e3o judicial embargou, em julho de 2010, a pedido do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), o licenciamento do porto. Mas h\u00e1 poucos dias outra decis\u00e3o, da Justi\u00e7a Federal em Manaus, alegando que n\u00e3o houve audi\u00eancias p\u00fablicas antes de ser pedida a suspens\u00e3o do licenciamento ambiental, revogou o embargo. E o governo do Estado do Amazonas, favor\u00e1vel \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do porto, imediatamente concedeu a licen\u00e7a para o projeto. Diz o Iphan que vai recorrer da decis\u00e3o, tamb\u00e9m contestada pelo Minist\u00e9rio da Cultura &#8211; e que vem na mesma dire\u00e7\u00e3o do &#8220;facilit\u00e1rio do desenvolvimento econ\u00f4mico&#8221; presente no desmatamento.<\/p>\n<p>E &#8211; \u00e9 preciso reiterar &#8211; tudo se faz esquecendo a vis\u00e3o da ci\u00eancia. Como em outro \u00e2ngulo: um grupo do Museu da Amaz\u00f4nia e do Instituto de Pesquisas da Amaz\u00f4nia est\u00e1 dizendo, num paper, que existe &#8220;uma grande variedade de \u00e1reas \u00famidas&#8221; no Pa\u00eds, como &#8220;\u00e1reas alagadas ao longo de grandes rios, com diferente qualidade de \u00e1guas (pretas, claras, brancas), baixios ao longo de igarap\u00e9s de terras firme, \u00e1reas alag\u00e1veis nos grandes interfl\u00favios (campos, campinas e campinaranas alag\u00e1veis, campos \u00famidos, veredas, campos de murunduns, brejos, florestas paludosas), assim como \u00e1reas \u00famidas de estu\u00e1rio (mangues, banhados e lagoas costeiras&#8221;. Cada um desses tipos, diz o estudo, deve receber &#8220;tratamento espec\u00edfico em forma de artigo espec\u00edfico no C\u00f3digo Florestal, que deve conter flexibilidade suficiente para absorver os avan\u00e7os do conhecimento cient\u00edfico&#8221;.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo, com preju\u00edzos para a sociedade e o meio ambiente, j\u00e1 que as \u00e1reas \u00famidas &#8220;proporcionam benef\u00edcios e servi\u00e7os ambientais importantes&#8221;. Como, por exemplo, estocagem de \u00e1gua, limpeza de \u00e1gua, recarga do len\u00e7ol fre\u00e1tico, regula\u00e7\u00e3o do clima local, manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade, regula\u00e7\u00e3o de ciclos biogeoqu\u00edmicos, inclusive estocagem de carbono, h\u00e1bitat e subs\u00eddios para popula\u00e7\u00f5es humanas tradicionais (pesca, agricultura de subsist\u00eancia, produtos madeireiros e n\u00e3o madeireiros e, em \u00e1reas abertas sav\u00e2nicas, pecu\u00e1ria extensiva).<\/p>\n<p>Esse papel das \u00e1reas \u00famidas, afirma o texto, &#8220;vai aumentar ainda, considerando os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas previstas&#8221;. S\u00f3 na bacia amaz\u00f4nica s\u00e3o 30% da \u00e1rea; no Pantanal, 160 mil quil\u00f4metros quadrados. Ao todo, incluindo outras \u00e1reas, 20% do territ\u00f3rio brasileiro. Por tudo isso, os usos potenciais dessas \u00e1reas &#8220;dever\u00e3o ter reconhecimento espec\u00edfico, dentro do C\u00f3digo Florestal e em outras inst\u00e2ncias federais&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 a voz da ci\u00eancia. \u00c9 preciso ouvi-la nesta nova discuss\u00e3o no Congresso. E no Encontro das \u00c1guas.<\/p>\n<p>Washington Novaes \u00e9 jornalista. Email:\u00a0<a href=\"mailto:wlrnovaes@uol.com.br\">wlrnovaes@uol.com.br<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da Ci\u00eancia<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Washington Novaes no O Estado de S. Paulo desta sexta-feira (19). Ao mesmo tempo que o Senado retomava nesta semana as discuss\u00f5es sobre propostas de mudan\u00e7as no C\u00f3digo Florestal, a presidente da Rep\u00fablica baixava medida provis\u00f3ria que altera (para reduzi-los) os limites de tr\u00eas parques nacionais na Amaz\u00f4nia, de modo a permitir que &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=7737\"> <span class=\"screen-reader-text\">Na Amaz\u00f4nia e no c\u00f3digo, a ci\u00eancia quer ser ouvida<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[84,29,59],"tags":[3810,887,3795,3807,1323],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7737"}],"collection":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7737"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7737\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7739,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7737\/revisions\/7739"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/ipevs.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}