{"id":8022,"date":"2011-09-13T10:42:15","date_gmt":"2011-09-13T13:42:15","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=8022"},"modified":"2011-09-13T10:42:15","modified_gmt":"2011-09-13T13:42:15","slug":"moradores-se-arriscam-vivendo-a-beira-de-lagos-assassinos-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=8022","title":{"rendered":"Moradores se arriscam vivendo \u00e0 beira de lagos &#8216;assassinos&#8217; na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<h2>H\u00e1 25 anos, 1,8 mil morreram dormindo nas proximidade do lago Nyos, nos Camar\u00f5es.<\/h2>\n<p>As \u00e1guas calmas do lago Monoun e do Nyos, no noroeste de Camar\u00f5es, seriam um sinal evidente de tranquilidade no local. Nas profundezas, no entanto, est\u00e1 a fonte de um perigo mort\u00edfero, que pode vir \u00e0 tona a qualquer momento e amea\u00e7ar as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas.<\/p>\n<p>H\u00e1 25 anos, o despertar de uma aldeia vizinha ao Nyos ficou marcado pela morte. Durante a noite, dezenas de moradores perderam a vida. Na \u00e9poca, a raz\u00e3o era inexplic\u00e1vel. Concluiu-se depois que a emiss\u00e3o de gases teria asfixiado os habitantes dos arredores.<\/p>\n<p>Monica Lom Ngong relata \u00e0 BBC o cen\u00e1rio da trag\u00e9dia, cuja causa at\u00e9 aquele momento era desconhecida.<\/p>\n<p>&#8216;Fiquei rodeada de gente morta, alguns dentro de casa, outros fora, outros detr\u00e1s das casas&#8230;. e os animais por toda a parte: vacas, cachorros, todos jaziam no solo, me deixando confusa. Na minha fam\u00edlia, \u00e9ramos 56, mas morreram 53&#8217;, conta.<\/p>\n<p>Aquela noite havia sido macabra. Aldeias inteiras amanheceram sem vida, apenas com os corpos espalhados pelo ch\u00e3o. N\u00e3o havia sinal de p\u00e2nico. 1.800 pessoas morreram enquanto dormiam ou cozinhava.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Lago Moroun<\/strong><br \/>\nDois anos antes, em uma manh\u00e3 de 1984, Ahadji Abdou estava a caminho de sua granja em Camar\u00f5es quando viu uma cena que nunca iria esquecer, nas proximidades do lago Moroun.<\/p>\n<p>&#8216;Pensei que fosse um acidente de tr\u00e2nsito. Desci da bicicleta e fiquei paralisado. Havia muita gente morta em todas as partes da estrada. Algo terr\u00edvel havia acontecido&#8217;, diz.<\/p>\n<p>Em quest\u00e3o de horas foram encontrados 37 corpos.<\/p>\n<p>&#8216;Escutamos que haviam sido massacrados. Nos contaram que 12 pessoas estavam em um caminh\u00e3o e que 10 morreram. O motorista foi o primeiro a sair e ver se estava acontecendo alguma coisa com o motor, que parou. O resto dos homens decidiram sair do ve\u00edculo e morreram&#8217;, disse \u00e0 BBC Motapon Oumarou.<\/p>\n<p>O p\u00e2nico tomou conta do lugar, conta o m\u00e9dico Pierre Zambou, o primeiro a chegar ao local.<\/p>\n<p>&#8216;Nunca hav\u00edamos visto algo assim. Parecia que tinham sido v\u00edtimas de uma doen\u00e7a altamente contagiosa. N\u00e3o t\u00ednhamos m\u00e1scaras nem ataduras. Colocamos todos em um jipe militar e os levamos dali&#8217;, conta.<\/p>\n<p><strong>Armas biol\u00f3gicas<\/strong><br \/>\nOs 1.800 moradores nos arredores do lago Nyos morreram enquanto ainda dormiam.<\/p>\n<p>Desta vez, a amplitude do caso e o n\u00famero de mortos fez com que o caso viesse \u00e0 tona, pela imprensa, causando como\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>A morte daquelas pessoas fora t\u00e3o s\u00fabita que logo correram rumores de uma poss\u00edvel arma biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>E se algu\u00e9m estava fazendo testes secretos, os Estados Unidos queriam saber. Tanto que meses depois enviou ao local o cientista Haraldur Sigurdsson, para investigar os estranhos acontecimentos do lago Monoun.<\/p>\n<p>A guerra biol\u00f3gica foi descartada totalmente. As v\u00edtimas pareciam ter sido sufocadas. Mas com que? Sigurdsson decidiu falar com as testemunhas e descobriu que houve quem tivesse visto o assassino.<\/p>\n<p>&#8216;Vimos uma nuvem branca e espessa a poucos metros da gente. Mas desapareceu em um instante&#8217;, contou Motapon Oumarou.<\/p>\n<p>Esta foi a primeira pista, mas havia outra: todos os 37 mortos do lago Monoun pereceram em uma entrada pr\u00f3xima da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Sigurdsson coletou, ent\u00e3o, amostras da \u00e1gua. &#8216;A \u00e1gua estava cheia de g\u00e1s. Bolhas enormes se formavam. Imediatamente me dei conta de que as \u00e1guas profundas estavam saturadas de g\u00e1s&#8217;, conta.<\/p>\n<p>Era um g\u00e1s que n\u00e3o se via, nem se sentia o cheiro. Mas um g\u00e1s que, em alta concentra\u00e7\u00e3o, sufoca.<\/p>\n<p>&#8216;Entendi que o di\u00f3xido de carbono, o CO2, havia sido o agente asfixiante&#8217;, conta.<\/p>\n<p><strong>Ovos podres<\/strong><br \/>\nNos dois casos, as v\u00edtimas moravam perto de lagos, o Nyos e o Monoum.<\/p>\n<p>Em ambos os locais, os sobreviventes relataram terem sentido um odor de p\u00f3lvora e ovos podres. No caso do lago Nyos, tamb\u00e9m houve relatos de explos\u00e3o.<\/p>\n<p>A suspeita voltou a recair sobre o CO2, como explicou \u00e0 BBC George Kling, da Universidade de Michigan, membro da equipe de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;Era algo dif\u00edcil de entender, at\u00e9 que topamos com documentos de pilotos de guerra narrando que o uso de altas concentra\u00e7\u00f5es de CO2 funciona como um alucin\u00f3geno sensorial&#8217;, diz.<\/p>\n<p>&#8216;Uma das alucina\u00e7\u00f5es mais citadas foi o odor de ovos podres e p\u00f3lvora&#8217;, diz.<\/p>\n<p>Em seu estudo, o cientista Sigurdsson havia conclu\u00eddo que o di\u00f3xido de carbono vinha das profundezas da terra.<\/p>\n<p>&#8216;O g\u00e1s chega ao lago mas n\u00e3o forma bolhas, pois o peso da \u00e1gua \u00e9 tamanho que o dissolve, por isso n\u00e3o o vemos. Mas se a press\u00e3o \u00e9 liberada de repente, o g\u00e1s brota de maneira explosiva&#8217;, diz.<\/p>\n<p>Algo parecido a agitar uma garrafa de champanha e logo estourar a rolha.<\/p>\n<p><strong>Bomba-rel\u00f3gio<\/strong><br \/>\nOs cientistas comprovaram que a teoria de Sigurdsson &#8211; conhecida como fen\u00f4meno do lago explosivo &#8211; \u00e9 correta e se questionaram como o lago concentra n\u00edveis t\u00e3o altos de CO2.<\/p>\n<p>Os cientistas descobriram que os lagos acumulavam CO2 sob os seus leitos e que, \u00e0 media que a concentra\u00e7\u00e3o crescia, eles se transformavam em uma enorme bomba-rel\u00f3gio qu\u00edmica. Mas o que detonava essa &#8216;explos\u00e3o&#8217;?<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias teorias sobre o que agiu como detonador no caso do lago Nyos. Uma delas \u00e9 a de que a trag\u00e9dia foi desencadeada por uma queda da parede da cratera que abriga o lago.<\/p>\n<p>Nyos continua sendo uma amea\u00e7a em potencial para quem vive na \u00e1rea. No entanto, agora ele tem um sistema de tubos que ajuda a aliviar a press\u00e3o, fazendo com que o g\u00e1s se disperse.<\/p>\n<p>O desastre de Nyos fez com que todos os lagos profundos da \u00c1frica e da Indon\u00e9sia fossem examinados. A conclus\u00e3o a que se chegou foi a de que todos eram seguros, exceto um: o lago Kivu, em Ruanda.<\/p>\n<p>O lago, na fronteira com a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, \u00e9 um dos maiores e mais profundos do continente &#8211; e milhares de pessoas vivem no seu entorno.<\/p>\n<p>No entanto, a \u00fanica coisa que poderia detonar uma libera\u00e7\u00e3o mort\u00edfera de g\u00e1s seria um incidente geol\u00f3gico em grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o lago Kivu est\u00e1 localizado justamente em uma zona de terremotos e rodeado de vulc\u00f5es, incluindo o monte Nyiragongo.<\/p>\n<figure style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2011\/09\/13\/lago.jpg\" alt=\"Lago Nyos  (Foto: BBC)\" width=\"620\" height=\"400\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Lago Nyos (Foto: BBC)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">Fonte: BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 25 anos, 1,8 mil morreram dormindo nas proximidade do lago Nyos, nos Camar\u00f5es. 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