{"id":9456,"date":"2012-03-07T11:25:01","date_gmt":"2012-03-07T14:25:01","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=9456"},"modified":"2012-03-07T11:25:01","modified_gmt":"2012-03-07T14:25:01","slug":"pelo-em-ovo-artigo-de-xico-graziano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=9456","title":{"rendered":"Pelo em ovo, artigo de Xico Graziano"},"content":{"rendered":"<p>Xico Graziano \u00e9 agr\u00f4nomo e foi secret\u00e1rio do Meio Ambiente do estado de S\u00e3o Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo de ontem (6).<\/p>\n<p>O C\u00f3digo Florestal entrou novamente em vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. Deve ocorrer a batalha final entre a agricultura sustent\u00e1vel e seus inimigos: o preservacionismo verde e o ruralismo atrasado. Veremos quem vencer\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece exagero, mas n\u00e3o \u00e9. Desde o in\u00edcio tenho defendido a ideia de que a nova legisla\u00e7\u00e3o florestal somente seria aprovada com a derrota dos fundamentalistas. Quem convive com esse assunto sabe que duas posi\u00e7\u00f5es radicais se digladiam: de um lado, os ruralistas tacanhos, de outro, os ambientalistas puros. Ambos utilizam argumentos exagerados, sect\u00e1rios, para defender suas teses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os primeiros nunca engoliram os conceitos de reserva legal (RL) e de \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente (APP), armando-se para aniquil\u00e1-los. Esses ruralistas pretendem continuar abrindo fronteiras como antigamente, derrubando impiedosamente as florestas em nome do progresso socioecon\u00f4mico. N\u00e3o aceitam que se limite o uso da propriedade e exigem que o Estado os indenize, em dinheiro, pelas \u00e1reas ambientalmente impedidas dentro das fazendas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os segundos querem fazer regredir \u00e1reas agr\u00edcolas ocupadas historicamente. Esses ecologistas afirmam que inexiste direito adquirido em mat\u00e9ria ambiental, querendo criminalizar os agricultores pelo desmatamento realizado antanho. Consideram que o uso produtivo dos brejos e das beiradas de c\u00f3rregos, das \u00e1reas inclinadas nas montanhas, dos topos de morro constituem um &#8220;passivo ambiental&#8221; a ser resgatado pelos produtores rurais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Intoler\u00e2ncias caracterizam os dois lados. Os ruralistas radicais enxergam os verdes articulados com ONGs dos pa\u00edses desenvolvidos, interessados em manter a supremacia no agroneg\u00f3cio mundial. &#8220;Por que esses verdolengos n\u00e3o v\u00e3o l\u00e1 fora exigir a recupera\u00e7\u00e3o da biodiversidade nos p\u00e2ntanos europeus, ou nas pradarias do Meio Oeste norte-americano?&#8221;, perguntam provocativamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os ecologistas radicais mostram ojeriza ao ouvir o discurso em defesa da produ\u00e7\u00e3o rural. Julgam os agricultores sempre portadores de m\u00e1-f\u00e9, com a inata malandragem de depredar a natureza. &#8220;Por que os fazendeiros insistem em cultivar soja e abrir pastagens, com tanta boiada aumentando o efeito estufa da Terra?&#8221;, questionam insistentemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exageros s\u00e3o comuns. Os produtores rurais ir\u00e3o \u00e0 fal\u00eancia com essa proposta de lei ambiental e faltar\u00e1 comida na cidade, dizem uns. Vai aumentar o desmatamento e v\u00e3o piorar os desastres ecol\u00f3gicos, contrap\u00f5em outros. Curioso, e sintom\u00e1tico nesse debate, \u00e9 perceber que ambos, embora ferrenhos advers\u00e1rios, criticam o mesmo texto, qual seja, a \u00faltima vers\u00e3o do C\u00f3digo Florestal aprovada pelo Senado. Amor e \u00f3dio, como se sabe, se aproximam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos a sociedade esteve sujeita \u00e0 discuss\u00e3o polarizada, e est\u00e9ril, travada entre os radicais, sejam ruralistas, sejam ambientalistas. A pol\u00eamica n\u00e3o esclareceu, ao contr\u00e1rio, confundiu a opini\u00e3o p\u00fablica. O antagonismo criado tolheu a participa\u00e7\u00e3o no debate de quem oferecia modera\u00e7\u00e3o, concilia\u00e7\u00e3o de pensamento. As claques valorizam o golpe na jugular, jamais o afago condescendente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A despeito, por\u00e9m, da gritaria dos donos da verdade, realizou-se no Senado uma produtiva concentra\u00e7\u00e3o sobre a mat\u00e9ria. Para o acordo de vota\u00e7\u00e3o convergiram 57 senadores, restando sete contr\u00e1rios. O texto aprovado, agora retornado \u00e0 C\u00e2mara, n\u00e3o representa o ideal, mas enseja o poss\u00edvel. Esverdeou o projeto inicial sem agredir a produ\u00e7\u00e3o no campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vers\u00e3o sobre a mesa permite sair da problem\u00e1tica, entrando na &#8220;solucion\u00e1tica&#8221;. A nova proposta do C\u00f3digo Florestal amenizou a carga contra os recentes desmatadores, trocando suas multas pela recupera\u00e7\u00e3o ambiental das \u00e1reas degradadas. Trocou o incerto pelo resultado positivo. Criou uma regra boa ao empurrar todos os produtores para o novidadeiro Cadastro Ambiental Rural. Agenda positiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pela primeira vez, ademais, a legisla\u00e7\u00e3o trata da recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas, e n\u00e3o apenas da supress\u00e3o vegetal. A boa pr\u00e1tica agr\u00edcola ser\u00e1 valorizada e a mata virgem come\u00e7a a receber valor no mercado. Al\u00e9m dos cl\u00e1ssicos, e repressivos, mecanismos de comando e controle, finalmente a legisla\u00e7\u00e3o florestal pensa em remunerar os agricultores pelo servi\u00e7o ambiental que podem prestar \u00e0 sociedade. Isso \u00e9 sensacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o pensam assim os radicais. Procuram pelo em ovo. Utilizam-se de arrazoados cujas suposi\u00e7\u00f5es se assemelham \u00e0quelas capazes de derrubar grandes avi\u00f5es, ou seja, se todas as combina\u00e7\u00f5es negativas ocorrerem ao mesmo tempo, haver\u00e1 uma cat\u00e1strofe. Apostam no pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os arautos do preservacionismo verde preferem salvar a biodiversidade do planeta a investir na civiliza\u00e7\u00e3o humana. Predicam contra a Hist\u00f3ria. J\u00e1 os paladinos do ruralismo atrasado querem que se dane a ecologia. Pregam o inaceit\u00e1vel. Uns travestem a luta ambiental de messianismo religioso, como se enviados do c\u00e9u para salvar os pobres mortais da barb\u00e1rie ecol\u00f3gica. Outros, os reacion\u00e1rios do campo, se disfar\u00e7am de redentores dos povos famintos, para lhes dar uma banana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desculpem-me o depoimento pessoal. H\u00e1 30 anos lancei meu primeiro livro, Quest\u00e3o Agr\u00e1ria e Ecologia (Editora Brasiliense). Em S\u00e3o Paulo, fui secret\u00e1rio de Agricultura de M\u00e1rio Covas e secret\u00e1rio de Meio Ambiente de Jos\u00e9 Serra. Navego, h\u00e1 tempos, com um p\u00e9 em cada canoa, subordinado \u00e0 ideia do agroambientalismo, movimento que une, e n\u00e3o separa, a produ\u00e7\u00e3o rural e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Somente uma alian\u00e7a entre a produ\u00e7\u00e3o rural e o meio ambiente ser\u00e1 capaz de resolver o terr\u00edvel dilema da humanidade: garantir a seguran\u00e7a alimentar sem destruir a natureza. Os radicais apostam no contr\u00e1rio, fomentam a desaven\u00e7a. D\u00e1 at\u00e9 bom discurso, mas n\u00e3o projeta o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da Ci\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Xico Graziano \u00e9 agr\u00f4nomo e foi secret\u00e1rio do Meio Ambiente do estado de S\u00e3o Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo de ontem (6). O C\u00f3digo Florestal entrou novamente em vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. 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