{"id":9587,"date":"2012-03-26T09:37:51","date_gmt":"2012-03-26T12:37:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=9587"},"modified":"2012-03-26T09:37:51","modified_gmt":"2012-03-26T12:37:51","slug":"ha-abuso-no-uso-de-sustentabilidade-diz-criadora-do-termo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipevs.org.br\/?p=9587","title":{"rendered":"H\u00e1 abuso no uso de &#8216;sustentabilidade&#8217;, diz criadora do termo"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/folha\/ambiente\/images\/1208293.jpeg\" alt=\"Gro Brundtland em foto durante uma confer\u00eancia da OMS em Bruxelas; ela participa nesta semana de f\u00f3rum em Manaus \" width=\"300\" height=\"220\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Gro Brundtland em foto durante uma confer\u00eancia da OMS em Bruxelas; ela participa nesta semana de f\u00f3rum em Manaus<\/figcaption><\/figure>\n<p>O conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel e sua irm\u00e3, a sustentabilidade, t\u00eam sofrido abusos, especialmente das empresas. Quem diz \u00e9 a m\u00e3e das crian\u00e7as, a norueguesa Gro Harlem Brundtland.<\/p>\n<p>Ex-premi\u00ea da Noruega, Brundtland, 73, chefiou a comiss\u00e3o que em 1987 produziu o relat\u00f3rio &#8220;Nosso Futuro Comum&#8221;, onde o conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel foi cunhado. O relat\u00f3rio serviu de base para a Eco-92.<\/p>\n<p>Desde 2007, ela integra juntamente com Fernando Henrique Cardoso, Kofi Annan, Jimmy Carter e outros l\u00edderes mundiais o grupo dos Elders, formado por Nelson Mandela para discutir a paz e os direitos humanos.<\/p>\n<p>Ela diz que o desenvolvimento sustent\u00e1vel, aos 25 anos, ainda n\u00e3o foi implementado. E que, mesmo com o sequestro da no\u00e7\u00e3o de sustentabilidade por empresas que n\u00e3o t\u00eam pr\u00e1ticas nada sustent\u00e1veis, o par n\u00e3o deve ser abandonado. &#8220;Mesmo que algu\u00e9m inventasse outra defini\u00e7\u00e3o, e eu ainda n\u00e3o vi isso, eles encontrariam um jeito de fazer mau uso dela.&#8221;<\/p>\n<p>Brundtland abre nesta quinta-feira (22) em Manaus o F\u00f3rum Mundial de Sustentabildade, evento anual que traz lideran\u00e7as do setor ao Amazonas. N\u00e3o chegar\u00e1 a se encontrar com FHC, que faz palestra no evento no dia seguinte.<br \/>\nEm entrevista \u00e0\u00a0<strong>Folha<\/strong>, ela falou de suas expectativas para a Rio +20.<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; A sra. n\u00e3o est\u00e1 de saco cheio dessa palavra &#8220;sustentabilidade&#8221;?<\/strong><br \/>\n<strong>Gro Harlem Brundtland<\/strong>\u00a0&#8211; Para mim a express\u00e3o \u00e9 &#8220;desenvolvimento sustent\u00e1vel&#8221;. Esse \u00e9 o conceito. Nos \u00faltimos dez anos, mais ou menos, as pessoas come\u00e7aram a usar &#8220;sustentabilidade&#8221; como uma forma alternativa de dizer. Eu sempre tive muito cuidado em n\u00e3o usar a palavra &#8220;sustentabilidade&#8221; sozinha enquanto conceito que cobre a vis\u00e3o para o futuro. N\u00f3s precisamos de sustentabilidade em diversas \u00e1reas, mas tamb\u00e9m precisamos de desenvolvimento sustent\u00e1vel. E eu n\u00e3o estou de saco cheio disso, porque n\u00e3o aconteceu ainda.<\/p>\n<p><strong>A sra. n\u00e3o acha que houve muito abuso e mau uso do conceito? Ele parece ter sido sequestrado por empresas para fazer &#8220;greenwash&#8221; (dar apar\u00eancia de verde).<\/strong><br \/>\nSim. Acho que h\u00e1 mais abuso quando fala de sustentabilidade. Porque essa palavra foi introduzida depois, num contexto diferente, como se entregasse aquilo que o desenvolvimento sustent\u00e1vel significa. Voc\u00ea precisa olhar cada empresa para saber se elas est\u00e3o adotando a sustentabilidade ou a responsabilidade social corporativa. Palavras sempre podem ser mal usadas. Mas voc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente dizer: &#8220;Esse conceito foi distorcido, ent\u00e3o deixamos o conceito de lado&#8221;. Porque eu n\u00e3o acho que n\u00f3s possamos encontrar uma maneira nova e melhor de descrever do que trataram a nossa comiss\u00e3o e a Rio-92. N\u00e3o vale a pena reinventar a roda porque algu\u00e9m a roubou ou tentou roub\u00e1-la. Ela vai ser roubada de novo. Mesmo que algu\u00e9m inventasse outra defini\u00e7\u00e3o, e eu ainda n\u00e3o vi isso, eles encontrariam um jeito de fazer mau uso dela.<\/p>\n<p><strong>Vinte e cinco anos depois do Relat\u00f3rio Brundtland e 20 anos depois da confer\u00eancia do Rio, o desenvolvimento sustent\u00e1vel entregou o que prometeu? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil achar exemplos dele na pr\u00e1tica?<\/strong><br \/>\nEu acho que a totalidade do conceito, a vis\u00e3o dos pilares econ\u00f4mico, ambiental e social numa abordagem integrada de longo prazo, um padr\u00e3o de desenvolvimento sustent\u00e1vel, n\u00e3o aconteceu em lugar nenhum. Mas muitas mudan\u00e7as aconteceram, movimentos numa melhor dire\u00e7\u00e3o. O Protocolo de Montr\u00e9al, entre a minha comiss\u00e3o e a Rio-92, \u00e9 um exemplo. O mundo se livrou das subst\u00e2ncias que afetam a camada de oz\u00f4nio.<\/p>\n<p><strong>Mas cr\u00edticos dizem que isso s\u00f3 aconteceu porque j\u00e1 era de interesse das empresas.<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 ouvi isso. Mas acho que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples. Acho que as pessoas mais progressistas na ind\u00fastria entenderam que aquilo n\u00e3o podia continuar. Esse \u00e9 um exemplo simples, de um \u00fanico setor, muitos outros casos de sucesso em setores espec\u00edficos aconteceram. Mas, \u00e9 claro, n\u00e3o houve sucessos globais semelhantes, e os gases de efeito estufa s\u00e3o um exemplo de abordagem ampla e global que envolve todos os setores da economia. Da\u00ed a dificuldade de chegar a um resultado.<\/p>\n<p><strong>E, no entanto, o clima n\u00e3o ser\u00e1 tratado na Rio +20.<\/strong><br \/>\nExistem os trilhos da conven\u00e7\u00e3o [do clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas]. N\u00e3o queremos mais uma confer\u00eancia do clima no Rio. Depois do colapso de Copenhague, houve no M\u00e9xico passos no sentido de os pa\u00edses discutirem cara a cara o que \u00e9 preciso fazer no futuro. E em Durban, no ano passado, as pessoas se deram conta de que n\u00e3o existe maneira de lidar com a quest\u00e3o clim\u00e1tica se voc\u00ea fizer crer que isso \u00e9 algo que os pa\u00edses da OCDE [Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico] podem resolver sozinhos. As emiss\u00f5es da OCDE eram 50% do total mundial, agora s\u00e3o menos de 30%.<\/p>\n<p><strong>A sra. \u00e9 europeia, e os europeus sempre negociaram acordos internacionais com metas e prazos. Durban mudou isso, passou a focar em processos. O Rio aparentemente est\u00e1 nesse rumo. A sra. n\u00e3o acha que isso pode dar \u00e0 sociedade a impress\u00e3o de que s\u00f3 se est\u00e1 entregando promessas?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 uma quest\u00e3o de realismo. Os europeus se deram conta de que os l\u00edderes mundiais n\u00e3o ser\u00e3o capazes de chegar a esse grau de detalhamento sobre metas e sobre a divis\u00e3o de quem faz o qu\u00ea. Mas eu n\u00e3o acho quer a UE v\u00e1 parar de tentar colocar regras e metas na sua agenda interna. Voltando ao Rio, se n\u00f3s n\u00e3o chegarmos a acordo sobre as metas de desenvolvimento sustent\u00e1vel, precisamos pelo menos concordar que elas precisam ser desenvolvidas. Talvez tamb\u00e9m algum acordo sobre as \u00e1reas que elas dever\u00e3o cobrir. Que deve haver um sistema global de regras de desenvolvimento sustent\u00e1vel que se aplique a todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o do financiamento ao desenvolvimento sustent\u00e1vel pode impedir um acordo no Rio?<\/strong><br \/>\nPode ser. Mas, se voc\u00ea se lembrar do que aconteceu em Copenhague, mesmo sob press\u00e3o de uma crise econ\u00f4mica houve um compromisso significativo de finan\u00e7as. Isso pode acontecer novamente no Rio. A economia agora parece melhor do que h\u00e1 um ano ou dois atr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Pa\u00edses emergentes como o Brasil reclamam bastante de que os ricos j\u00e1 usaram todos os seus recursos naturais e agora o \u00f4nus da conserva\u00e7\u00e3o ficou conosco. Eles t\u00eam raz\u00e3o em reclamar?<\/strong><br \/>\nEssa litania est\u00e1 a\u00ed desde a comiss\u00e3o. E no relat\u00f3rio da comiss\u00e3o n\u00f3s reconhecemos que n\u00e3o, n\u00e3o podemos dizer ao mundo em desenvolvimento &#8220;desculpem, n\u00f3s j\u00e1 enchemos a lixeira e agora voc\u00eas n\u00e3o podem mais jogar o seu lixo&#8221;. Ent\u00e3o n\u00f3s precisamos transferir tecnologia, ajudar o mundo em desenvolvimento a superar a pobreza, dando dinheiro. A\u00ed a pergunta \u00e9: o mundo desenvolvido fez isso? E a resposta \u00e9 n\u00e3o o bastante. Voc\u00ea pode reclamar de que n\u00e3o tenha havido esfor\u00e7o suficiente para superar essas diferen\u00e7as, mas n\u00e3o pode esquecer que este \u00e9 o mundo em que vivemos, nem discutir o que deveria ter acontecido no Reino Unido quando eles come\u00e7aram a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p><strong>Quais foram os principais avan\u00e7os no desenvolvimento sustent\u00e1vel nestes 20 anos?<\/strong><br \/>\nHouve uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel no uso de energia, nos padr\u00f5es de efici\u00eancia energ\u00e9tica. O que voc\u00ea pode ganhar aumentando a efici\u00eancia energ\u00e9tica est\u00e1 longe de estar realizado, as coisas est\u00e3o acontecendo, ainda que lentamente. Este pode ser um dos grandes temas para o Rio.<\/p>\n<p><strong>A agenda da confer\u00eancia est\u00e1 dilu\u00edda demais?<\/strong><br \/>\nEsta \u00e9 uma confer\u00eancia grande, com muitos pa\u00edses diferentes, muitos interesses diferentes. Voc\u00ea viu o &#8220;Rascunho Zero&#8221;? Ele \u00e9 muito fraco. Mas rascunhos zero sempre s\u00e3o fracos. Porque qualquer coisa controversa, que tenha obje\u00e7\u00e3o de alguns pa\u00edses, \u00e9 deletada. Mas eu nunca vi uma confer\u00eancia internacional que se pare\u00e7a com o rascunho zero. Quando os pa\u00edses se juntarem, e as ONGs pressionarem, ele ser\u00e1 melhorado. E eu prevejo que, na confer\u00eancia, ele ser\u00e1 melhorado ainda mais, em \u00e1reas cruciais. Porque pa\u00edses levantam obje\u00e7\u00f5es no rascunho zero, deletam coisas, mas a\u00ed as for\u00e7as come\u00e7am a se mobilizar e essas coisas voltam ao texto.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam, na sua opini\u00e3o, os indicadores de que a confer\u00eancia do Rio foi um sucesso?<\/strong><br \/>\nEspero que haja acordo quanto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um Conselho de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel [na ONU], quanto \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios nacionais regulares de desenvolvimento sustent\u00e1vel com transpar\u00eancia, pelos quais os pa\u00edses prestem contas para o resto do mundo.<\/p>\n<p><strong>E o maior risco de fracasso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. H\u00e1 a quest\u00e3o financeira, da qual falamos mais cedo. Mas, sabe, existe muito dinheiro hoje que est\u00e1 parado porque as pessoas t\u00eam medo. Quem tem dinheiro n\u00e3o sabe onde investi-lo. Ent\u00e3o, uma clareza maior sobre institucionalizar sistemas que possam melhorar o uso de fundos p\u00fablicos e de investimentos privados muito mais amplos em energia, por exemplo, \u00e9 uma quest\u00e3o important\u00edssima que pode sair do Rio. O Rio pode obter um acordo sobre a realoca\u00e7\u00e3o desse dinheiro, que \u00e9 necess\u00e1ria e \u00fatil: mais empregos, menos energia, menos uso de recursos naturais.<\/p>\n<p><strong>Existe algum pa\u00eds que possa liderar na economia verde?<\/strong><br \/>\nA Coreia do Sul fez muitos esfor\u00e7os nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como o Brasil est\u00e1 indo?<\/strong><br \/>\nO pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o grande e h\u00e1 tantos aspectos que eu n\u00e3o sei o bastante para responder. Mas muita coisa est\u00e1 acontecendo. H\u00e1 uma melhora na quest\u00e3o do desmatamento na Amaz\u00f4nia, que pode ser medida. Mas est\u00e1 muito melhor agora do que quando viemos em 1985. Eu me lembro que estive em Manaus com um governador famoso [Gilberto Mestrinho] que achava uma estupidez isso de os ambientalistas virem dizer o que fazer com a Amaz\u00f4nia. Quanto estivemos em Cubat\u00e3o, aquilo era um dos casos mais graves de polui\u00e7\u00e3o industrial. Hoje \u00e9 um exemplo de como as coisas mudam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Claudio Angelo, Folha.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel e sua irm\u00e3, a sustentabilidade, t\u00eam sofrido abusos, especialmente das empresas. Quem diz \u00e9 a m\u00e3e das crian\u00e7as, a norueguesa Gro Harlem Brundtland. Ex-premi\u00ea da Noruega, Brundtland, 73, chefiou a comiss\u00e3o que em 1987 produziu o relat\u00f3rio &#8220;Nosso Futuro Comum&#8221;, onde o conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel foi cunhado. 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